
08/12/2007
Ano 11 -
Número 558

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Jacqueline Bulos Aisenman
EXPERIÊNCIA NÃO SERVE PRA NADA
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Eu acabo de chegar à conclusão de que a experiência não serve para
nada. E a não ser que nos próximos cinco minutos alguém me prove o
contrário, provando que existe uma outra vida ou qualquer coisa do
gênero, vou dizer categórica: experiência de vida não serve pra nada.
Nem pra dar conselho.
Diz pra mim, sinceramente, você que hoje tem os seus quarenta e poucos
anos e uma vasta experiência de vida. Por acaso ela impediu ou impedirá
seus filhos, os amigos dos seus filhos, seus sobrinhos, seus vizinhos,
seus amigos, seus próximos, de cometer as mesmas burradas que você aos
treze, quinze ou dezessete anos na flor dos hormônios fizeram ou farão?
Fará seu colega de trabalho aceitar seu bom conselho e trabalhar legal?
Fará sua amiga genial concordar que até agora ela só fez besteira e
enfim ver que deve tomar rumo na vida? Ah ha...
Por acaso a sua pesada bagagem impediria (realmente vai) você de se
apaixonar de novo, de tentar de novo, de experimentar de novo, de buscar
de novo? (Se disser que sim vou chamar você de velho, igualzinho como
chamam agora os jovens quando a gente é obrigado a dizer não ou
simplesmente arriscar um conselho).
Na verdade a gente esquece que foi jovem. A gente esquece aquela fase
infantil. A gente esquece que foi bebê. A gente esquece tudo. Do útero
materno até os ataques infernais sob músicas que hoje a gente faz de
conta que são “cult”. Fazemos o que o que poderíamos denominar “triagem
sadia”, para mostrar o lado bom da experiência e de nós mesmos. E
acabamos, com o tempo, nos convencendo da realidade desta barbaridade,
desta censura, deste AI5 contra a geração que espera de nós outra coisa
que olhares condescendentes.
Sem falar de nós mesmos, que passaremos o resto da vida vivendo do “lado
bom” das lembranças.... as coisas lindas do passado...
Quando eu digo que experiência não serve pra nada...
Quem é aqui que vai levantar e voltar no tempo pra corrigir as boas
porcarias que fez na adolescência??? Quem vai voltar e poder usar o que
aprendeu no início da vida adulta e poder dizer aos pais: perdão, eu
compreendo o que vocês passaram, eu não deveria ter dito o que disse.
Quem vai conseguir dar um tropeção na vida e correr para trás e pegar de
novo aquela vaguinha naquele emprego rejeitado “porque não estava à
altura” e recomeçar? Quem vai sair correndo em direção aos seus anos de
paixão e tentar refazer aquela relação que tinha "tudo" pra dar certo
"se não fosse"... Quem? Ninguém.
Porque a vida só vai pra frente. O passado não conta. Passado quando
conta é pra lembrar. E na maioria das vezes lembrança a gente até
rejeita. Lembrança não serve nem pra dar conselho, “lembra”?
Então, quem sabe se existir uma vida aí numa galáxia próxima ou
distante, ou num dos caminhos propostos por uma das religiões ou seitas
estabelecidas ou por chegar a gente possa um dia utilizar a dita
experiência de vida. Por enquanto, se eu posso me permitir, coloquem
este peso de lado, viajem leve. A vida já está cheia demais de percalços
para que a gente ainda passe o tempo com as duas mãos tomadas por
bagagens desnecessárias.
E mais uma vez, meus amigos, “Carpe Diem”. Até.
(08 de dezembro/2007)
CooJornal
no 558
Jacqueline Bulos Aisenman é autora do livro “CORACIONAL – COISAS QUE
VEM DE DENTRO” .
A escritora nasceu em Laguna/SC e há mais de uma década reside em
Genebra.
Mantém o blog http://certaslinhastortass.blogspot.com/
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