
15/12/2007
Ano 11 -
Número 559

Arquivo
- Experiência não serve para nada |
|
Jacqueline Bulos Aisenman
O NATAL E AS BOAS INTENÇÕES
|
 |
Começou de novo. A santa época das boas intenções. É um tal de feliz
natal pra lá, feliz natal pra cá que só quem tá chegando agora por aqui
ou é muito apegado às tradições consegue suportar.
De repente, ficou combinado pelos ares que durante o correr do mês de
dezembro até ali, digamos, os primeiros dias de janeiro, todo mundo tá perdoando todo mundo sem levar muito a fundo as histórias e sem
cutucar muito com a faca onde não deve. O importante é sorrir e demonstrar
as boas intenções.
Exatamente. As intenções. Só as intenções. Porque ninguém falou em
cumprir nada. Ninguém tá prometendo e levando papel assinado de
presente. E nem vai levar. Os cartões, antes postais (e que pelo menos
davam o trabalho de ir ao correio) agora são virtuais. A mailing ling é
preparada, separada (de vez em quando) por amigos próximos, nem tão
próximos, conhecidos e internéticos e puf! Instantaneamente partem
milhares de votos de muito amor e muita saúde neste lindo natal.
Confessem, por uma vez na vida, confessem. Não tem data mais chata do
que esta. Quem tem a família viva (ou unida) fica torcendo pro jantar
acabar rápido para poder se mandar, encontrar uma turma ou um (a)
namorado (a) e curtir o feriado. Quem nem tem família (ou tem desunida)
quer mais é que os sinos vão dobrar na casa do... padre, que os perus
sejam vendidos o ano todo e que estes malditos pinheiros enfeitados
desapareçam do cenário pra sempre.
Qualquer um pode agir de bom coração várias vezes por ano sem sequer
fazer publicidade. Passar a mão na cabeça de um amigo triste, visitar
doentes desconhecidos, doar um dinheirinho que sobrou para aquela causa
nobre, dar uma mão para quem precisa... Mas ter a obrigação de
demonstrar boas intenções, aliás, excelentes, todas em tons de vermelho,
verde e branco... durante um mês... haja saco (de Papai Noel que não
existe, mais uma que se tem que segurar e engolir!).
Noite de natal é a noite mais enganosa que existe. Ela é o cúmulo, o
ápice do dezembro insidioso que se alastrou por todos os lares,
infestando os corações com uma falsa paz, obrigando bolsos a se
revirarem do avesso para que pais possam assumir o papel de papais-noéis
que as crianças já não crêem (e já conseguem até mesmo,
inteligentemente, de forma quase pérfida, enganar alguns parentes
desprevenidos do avanço infantil...).
Bem, como eu sou uma pessoa de bons propósitos não poderia ficar fora do
período natalino. Por isto vim aqui derramar minha baba cáustica. Na
esperança de retirar um pouco do nevoeiro que este período
demasiadamente doce provoca durante todo o dezembro para depois deixar o
vácuo, o amargor, certas raivas... ou uma beatitude completamente
desnecessária para viver neste mundo.
E, como já tantos já disseram que, "de boas intenções o inferno está
cheio", não vamos contribuir para superlotar o condomínio do demo, minha
gente! Deixem as boas intenções de lado, quem tiver a fim de agir bem
aja, que não estiver, nem finja. E que se dane essa coisa de natal. Não
se preocupem. Daqui a pouco passa.
(15 de dezembro/2007)
CooJornal
no 559
Jacqueline Bulos Aisenman é autora do livro “CORACIONAL – COISAS QUE
VEM DE DENTRO” .
A escritora nasceu em Laguna/SC e há mais de uma década reside em
Genebra.
Mantém o blog http://certaslinhastortass.blogspot.com/
|
|