24/05/2008
Ano 11 - Número 582


Arquivo
Jacqueline Bulos

 

 

Jacqueline Bulos Aisenman




IDÉIAS FUNÉREAS
 

 


Se eu morrer hoje, tem duas coisas que eu não quero: velório e enterro. Egoísta? Fora da lei? Desobediente das leis espirituais? Vá saber! A morbidez do estado me espanta outros sentimentos que não sejam de ojeriza e ansiedade.

Mas eu sei que defunto em velório só levanta a voz através de médiuns (a maioria de beira de esquina) e de preguiçosos da vida e alertas da memória pós-mortem (não querendo nem citar os fofoqueiros de plantão aos pés do ali para quase sempre deitado).

Quando alguém está lá esticado e morto, iniciando o processo de resfriamento natural, as pessoas próximas dele, amigos legítimos e a família em sofrimento, tentam fazer o malabarismo entre ser excelentes recepcionistas, dignos representantes não excessivamente chorões do falecido e ainda conseguir uma brecha para ser eles mesmos. Ufa! Ufa? Quem se importa...

A parte dolorida do "ser eu mesmo", sofre. Mas ouve: vai passar, amanhã é outro dia, foi melhor assim (é?), eu sei bem o que é, já passei por isto... e mais algumas frases típicas do momento.

Enquanto isto, a estrela do dia está lá, deitada, toda arrumadinha, atulhada de flores até às narinas, com todas as formas religiosas espalhadas em volta (ih... será que estão pensando que ele é um vampiro e vai se levantar??).

O padecimento dos próximos se eleva a pontos de dor inimaginável mesmo que o torpor, como um véu suave, se instale e tente disfarçá-lo. É nestas horas que todo o apoio não é demais. Toda mão que vem, toca, fica um instante, mesmo em silêncio, e depois parte. Todo carinho que chega ali pelo lado, por gestos inesperados, de maneiras repentinas, mas que trazem alívio, que permitem menos malabarismo, mais aconchego.

O defunto se pudesse falar diria: Obrigado aí viu. Obrigado por ter vindo dar uma mão, um carinho, uma palavrinha... qualquer coisa, para os parentes. Eu nunca gostei destas coisas, pra falar a verdade até preferia estar em outro lugar... mas já que aconteceu... obrigado por não deixar os que eu amo tanto sozinhos. Na verdade eu já fui. Faz tempo. Mas eles ficaram, e ficaram sofrendo. 'brigado aí. Cara, valeu, muito obrigado por ter vindo ajudar os meus! Eles estão precisando tanto!

É, mas não são todos que tem sensibilidade suficiente para ver flores nascendo das pedras... principalmente quando elas são fúnebres.

(Na TV, o jornal. Lá fora, o tempo chuvoso ainda permite o som de alguns pássaros)


 

(24 de maio/2008)
CooJornal no 582


Jacqueline Bulos Aisenman é autora do livro “CORACIONAL – COISAS QUE VEM DE DENTRO” .
A escritora nasceu em Laguna/SC e há mais de uma década reside em Genebra.
Mantém o blog  http://certaslinhastortass.blogspot.com/