16/06/2018
Ano 21 - Número 1.081

 

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ARQUIVO
JORGE ELIAS NETO

Jorge Elias Neto



NA DITADURA DA VISÃO




A visão usurpou o direito e o espaço dos demais sentidos.

Para uma pessoa que tem no olhar a fonte de sonhos e de vida, é difícil aceitar, é difícil até mesmo formular essa afirmativa. Mas, como existe uma diferença entre ouvir e escutar, a visão também difere do olhar – ela carece de sensibilidade e é mais passível de manipulação.

Surpreender com uma imagem, tocar o nicho cada vez mais distante e insensível da indignação, esse é o propósito insigne dos articuladores e dos carentes de lucidez. A imagem articulada como arma, munida de mira telescópica e dotada de todos os requintes perversos e astutos disponíveis com o avançar da tecnologia. A imagem como arma e os homens como o centro do alvo. E o resultado: a destruição, o desmantelamento da consciência.

A impressão é que desvendaram o quebra-cabeça. Conhecem de cor os encaixes e, a cada dia, desmancham e remontam as peças que nos guiam, cegos e autômatos.

O deus mercado e suas marionetes de topete louro ou moicano. Ditaduras dentro de ditaduras; a fratura exposta da humanidade sem recantos de silêncio. Mesmo com olhos fechados, somos ofuscados pela torrente de imagens. Somos objetos, massa de manobra, utensílios de vida curta e descartáveis.

É o espasmo da humanidade. O Estado e Deus tornaram-se anacrônicos. O desmantelamento do Mundo que chegou autoconfiante ao século XX e passou asfixiado ao novo século.

O grito pela liberdade, pela felicidade regida pela máquina do tempo, essa temporalidade insossa dos sorrisos marcados nas selfies e instagrams.

A orquestra das cores regendo opostos, disseminando o distúrbio e a baderna, tocando a “vida de gado // povo marcado, povo feliz”. Um autoritarismo beligerante e seu armametário imagético.

Sim, os déspotas, mantenedores do poder midiático, aprenderam que o disfarce da órbita é desviar-se do óbvio...

Mas existe uma sonoridade distante no silêncio. A voz do poeta Manoel de Barros que, dizendo que “maior que o infinito é o incolor”, nos convida a adotar uma postura crítica em face da perversão do instante, da profusão de cores e imagens. Com essa postura crítica, não nos venderemos à sedução da visão multicolorida das imagens.

E faremos isso por entender que a estampa sugere, o anúncio promove, e a verdade aniquila.
 


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