
05/09/2009
Ano 12 -
Número 648 
ARQUIVO
LEONARDO BOFF
|
Leonardo Boff
Zen e a Crise da Cultura
Ocidental
|
 |
Venho insistindo há tempos que por detrás
da crise atual econômicofinanceira vige uma crise de paradigma
civilizatório. De qual civilização? Obviamente se trata da civilização
ocidental que já a partir do século XVI foi mundializada pelo projeto de
colonização dos novos mundos.
Este tipo de civilização se estrutura na vontade de poder-dominação do
sujeito pessoal e coletivo sobre os outros, os povos e a natureza. Sua
arma maior é uma forma de racionalidade, a instrumentalanalítica, que
compartimenta a realidade para melhor conhecê-la e assim mais facilmente
submetê-la. Depois de quinhentos anos de exercício desta racionalidade,
com os inegáveis benefícos trazidos e que encontrou na economia política
capitalista sua realização mais cabal, estamos constatando o alto preço
que nos cobrou: o aquecimento global induzido, em grande parte, pelo
industrialismo ilimitado e a ameaça de uma catástrofe previsível ecológica
e humanitária.
Estimo que todos os esforços que se fizerem dentro deste paradigma para
melhorar a situação serão insuficientes. Serão sempre mais do mesmo. Temos
que mudar para não perecer. É o momento de inspirar-nos em outras
civilizações que ensaiaram um modo mais benevolente de habitar o planeta.
O que foi bom ontem, pode valer ainda hoje.
Tomo como uma das referências possíveis o zenbudismo. Primeiro, porque ele
influenciou todo o Oriente. Nascido na India, passou à China e chegou ao
Japão. Depois porque penetrou vastamente em estratos importantes do
Ocidente e de todo o mundo. O Zen não é uma religião. É uma sabedoria, uma
maneira de se relacionar com todas as coisas de tal forma que se busca
sempre a justa medida, a superação dos dualismos e a sintonia com o Todo.
A primeira coisa que o zenbudismo faz, é destronar o ser humano de sua
pretensa centralidade, especialmente do eu, cerne básico do individualismo
ocidental. Ele nunca está separado da natureza, é parte do Todo. Em
seguida, procura uma razão mais alta que está para além da razão
convencional. Recusa-se a tratar a realidade com conceitos e fórmulas.
Concentra-se com a maior atenção possível na experiência direta da
realidade assim como a encontra.
“Que é o zen” perguntou um discípulo ao mestre. E este respondeu: “as
coisas cotidianas; quando tem fome, coma, quando tem sono durma”. “Mas não
fazem isso todos os seres humanos normais”?- atalhou o discípulo. “Sim”-
respondeu o mestre - “os seres humanos normais quando comem pensam em
outra coisa, quando dormem, não pregam o olho porque estão cheios de
preocupações”. Que significa esta resposta? Significa que devemos ser
totalmente inteiros no ato de comer e totalmente entregues ao ato de
dormir. Como já dizia a mística cristã Santa Tereza:”quando galinhas,
galinhas, quando jejum, jejum”. Essa é a atitude zen. Ela começa por fazer
com extrema atenção as coisas mais cotidianas, como respirar, andar e
limpar um prato. Então não há mais dualidade: você é inteiro naquilo que
faz. Por isso, obedece à lógica secreta da realidade sem a pretenção de
interferir nela. Acolhê-la com o máximo de atenção nos torna integrados
porque não nos distraimos com representações e palavras.
Essa atitude faltou ao Ocidente globalizado. Estamos sempre impondo nossa
lógica à lógica das coisas. Queremos dominar. E chega um momento em que
elas se rebelam, como estamos constatando atualmente. Se queremos que a
natureza nos seja útil, então devemos obedecer a ela.
Não deixaremos de produzir e de fazer ciência, mas o faremos como a máxima
consciência e em sintonia com o ritmo da natureza. Orientais, ocidentais,
cristãos e budistas podem usar o zen da mesma forma que peixes grandes e
pequenos podem morar no mesmo oceano. Eis uma outra forma de viver que
pode enriquecer nossa cultura em crise.
(05 de setembro/2009)
CooJornal
no 648
Leonardo Boff é teólogo e escritor.
Autor de Ecologia, Mundialização e
Espiritualidade, Record 2009, entre outros.
RJ
Direitos Reservados

|
|