Leonardo Boff
E A TERRA SORRIU
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Exatamente no primeiro dia do inverno,
quando já começa a esfriar e quase todas as folhas que deviam cair já
caíram, como as do meu pé de caqui, floresceu completamente a cerejeira
japonesa em frente à minha janela. Há uma semana percebera que brotos
estavam irrompendo, depois se desenvolveram com uma cor arroxeada e de
repente, numa manhã, estavam quase todos abertos. Pela tarde do mesmo dia,
21 de junho, início do inverno, abriram-se totalmente.
Para mim que procuro ler sinais nas coisas, pois elas têm sempre um outro
lado e o invisível é parte do visível, foi uma revelação. Estou aqui
escrevendo sobre a nova moralidade que urge viver no meio do aquecimento
global já iniciado. Digo que se queremos salvar a biosfera e preservar
nossa Casa Comum, habitável para toda a comunidade de vida, temos que
resgatar, antes de qualquer outra medida, a dimensão do coração e a razão
sensível. Se não sentirmos a Terra como nossa Grande Mãe que devemos
cuidar, como filhos e filhas bons e responsáveis, serão insuficientes as
necessárias iniciativas técnicas que tomarão as grandes empresas, os
governos, outras instituições e as pessoas. Nascemos da generosidade do
cosmos e da Terra que nos providenciaram as condições essenciais para a
vida e sua evolução e será a mesma generosidade a nossa contrapartida.
Esta florada da cerejeira japonesa, que ocorre uma única vez ao ano, é um
aceno que a própria Terra gratuitamente nos dá. Ela nos está dizendo:
"mesmo que caiam todas as folhas, mesmo que os galhos pareçam ressequidos
durante quase todo o ano, mesmo que impere a dúvida se morreu ou ainda
está viva, de repente, eu ouso revelar o mistério que escondo: a
capacidade de regeneração e a vontade de sorrir gaiamente, de irradiar
beleza e provocar êxtase".
Algo semelhante deve ocorrer com a crise ecológica e com as ameaças que
pesam sobre o destino futuro da biosfera e da vida humana. Estimo que não
se trata de uma tragédia cujo fim seria funesto mas de uma crise cujo
termo é um novo estado de saúde e de consciência, mais vigoroso e mais
alto. Logicamente, depende de nós transformar os sintomas de tragédia em
sinais de crise acrisoladora. E o faremos, pois o instinto básico, já o
reconhecia Freud, não é o de morte, mas o de vida, mesmo que passando pela
morte. A vida que há 3,8 bilhões de anos irrompeu na Terra, passou por
muitas dizimações. Elas nunca foram terminais. Foram crises que criaram
oportunidades para a emergência de formas mais complexas de vida. A vida é
chamada para mais vida. Esta é a seta da evolução e a dinâmica do
universo.
As flores da cerejeira japonesa significam o sorriso radiante da Terra
quando menos se esperava dela. Pois o inverno é tempo de recolhimento e de
retirada sustentável para recobrar forças vitais que depois irromperão
vitoriosas e deslumbrantes. A Mãe Terra nos quer transmitir uma mensagem:
"apesar de todas as agressões que sofro, da respiração ofegante que tenho
devido às contaminações atmosféricas, não obstante o sangue de meu corpo
contaminado e os meus pés chagados por causa de venenos, ainda assim tenho
energia vital escondida; ela não é infinita mas é suficientemente poderosa
para resistir, para se regenerar e para voltar a sorrir. Apenas dêem-me,
por piedade filial, um pouco de tempo para descansar e um gesto de amor e
de cuidado para me fortalecer".
(11 de agosto/2007)
CooJornal
no 541