Lílian Maial
O CARNAVAL |
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Muito já se falou sobre o Carnaval.
Festa de um povo, alegria da comunidade, momento para o exibicionismo
dos mais abastados, furor jornalístico, modismo, fonte de recursos
turísticos, e muita coisa mais.
Mas pouco se diz sobre o significado individual do Carnaval, sobre os
sentimentos, as emoções da festa, os preparativos, que duram um ano, e
que se desfazem em quatro dias.
O Carnaval começa na Quarta-feira de cinzas, para a maioria dos
organizadores, diretores de escolas de samba, músicos, criadores de
enredo.
Para o verdadeiro carnavalesco, a Quarta-feira não significa o fim do
Carnaval, mas o instante de começar a pensar no próximo enredo.
É isso. É uma energia circulante, uma onda interna que se move, que
não tem chegada e nem saída, porque está dentro do folião.
É uma coisa meio irracional mesmo. Mas as melhores coisas dessa vida
não têm muita razão.
Ninguém questiona um parto de poucas horas, diante de uma gestação de
nove meses. Ou um desabrochar de uma flor, que só vai durar um dia,
necessitando, para isso, que toda a planta cresça a partir da semente.
Ninguém questiona os poucos instantes do gozo, que precisou de muito
envolvimento, excitação, para chegar ao clímax de poucos segundos.
Ninguém questiona a morte, que é tão simples, e que se leva uma vida
inteira para aceitar.
O Carnaval é assim: um ano inteiro preparando, ensaiando, comprando
fantasia, criando samba, carros, alas, ornamentações, para se desfilar
por pouco mais de meia hora e valer toda uma vida.
Mas você já desfilou? Não? Ah, é por isso que não compreende!
Pois você precisa desfilar. É mágico. Alguma coisa muda dentro de você
quando você está chegando na concentração, quando você começa a se
vestir do sonho. Você deixa o sonho para entrar na fantasia – é, no
mínimo, curioso.
Ali, no meio daquela gente toda, no meio da rua, colocando a roupa.
Gente que você nunca viu vem lhe ajudar a dar os retoques, porque, no
fundo, todos querem que a escola de samba se saia bem no desfile.
E você se deixa envolver por aquele ambiente. Se deixa não, você não
tem outra escolha, você é invadido de brilho, de samba, de um amor
estranho. Você é todo purpurina, em corpo e alma.
Sua alma brilha um brilho esquisito. Uma alegria que não tem muita
razão mesmo, mas que, indubitavelmente, faz você sorrir.
E aí você está pronto, todo cheio de luz, numa ala, arrumadinho, todos
de mãos dadas. E não é só por querer não. Os diretores de harmonia
organizam as alas dessa maneira. Todos se dão as mãos, mesmo que você
nunca tenha visto seu companheiro de ala.
Engraçado, mas você pode estar de mãos dadas, de repente, com seu
juiz, se você for o réu, ou com seu paciente, se você for médico, ou
com seu assaltante, se você foi roubado, ou com um sem número de
alternativas.
Mas, naquele momento, você está de mãos dadas com seu irmão de samba e
de escola.
E a bateria começa a estremecer o chão e a carregar de emoção um
coração já castigado até então.
E o desfile começa.
Nossa! Ala a ala, você vê a passarela ir chegando, aquele povo todo
gritando, sorrindo pra você, tudo luz, tudo cor, tudo som, tudo
coração disparado.
E, milagrosamente, os pés ensaiam uma coreografia conhecida – eles
andam!
E sambam! E fazem tudo certinho! E você não está nem aí! Nem repara o
quanto está feliz, o quanto perdeu a noção de tempo e espaço, o quanto
aquilo passa em câmara lenta.
É um narcótico! Você está drogada, pela droga mais potente de todas:
FELICIDADE.
E o diabo é que está irremediavelmente viciada.
De entorpecida, você passa a traficante e precisa que os outros, na
platéia, vibrem e sintam o que você está sentindo, e começa a incitar
a audiência a se drogar com você.
Devia estar previsto em lei, haver legislação e pena para quem
contaminasse os outros dessa maneira. Mas não há, portanto, a
arquibancada e os camarotes, em comunhão, incorporam aquele sentimento
(transitório para eles, porque vem logo outra escola atrás) de total e
indecente bem-estar, levando você a entender que está nos braços de
Deus.
E pensar que chegou-se a insinuar que Carnaval seria uma festa
profana!
Mas como? Se ali, entre irmãos, se está com Deus, se atinge o Paraíso,
o Nirvana?
Os brilhos passam como sinais de amor, os acenos e sorrisos são como a
aprovação do bem, da emoção, da alegria. Vocês estão abençoados. São
arautos da felicidade. E o samba penetra nos ouvidos como vozes de
anjos. E o samba sai pela sua boca como melodias celestiais que têm o
dom de encantar quem a escuta. E o seu suor, um banho de bênçãos, que
vão lhe proteger da dor e amargura, enquanto ele durar, molhando o
corpo.
Se você olhar bem para seu irmão do lado, vai ver o prazer estampado
em suas feições. O mesmo gozo. O mesmo plano divino.
Para quem é espiritualizado, ali, naquela passarela, praticando atos
considerados hereges, encontraremos um mar de almas iluminadas, de
auras com mais purpurina que todas as fantasias do mundo juntas sob
refletores. Ali, quem visse de cima, ficaria cego de tanta beleza,
tanta luz, tanta paz.
Para quem é folião, aquilo é a glória. É um momento onde nada mais
existe, a não ser a necessidade de mostrar ao mundo o quanto é
Carnaval.
Aí você vai me dizer que tudo isso vai acabar na Apoteose, que amanhã
é Quarta-feira, que a vida volta ao seu normal, e que foi um
desperdício.
Ah, meu amigo, você nunca amou.
Você acha mesmo que, após terminado um amor, ele de nada lhe valeu?
Que após a felicidade que ele lhe proporcionou, ele não lhe operou
mudanças?
Que depois de ficar extasiado com tanto sentimento nada de bom ocorreu
com você?
Pois então, é por aí!
Quando acaba, não acaba.
Como o amor. Você vive em busca de amar. Não escolhe a quem, mas quer
amar.
Pois é. Já está pensando no próximo ano, não é? Na próxima fantasia.
E então? É isso. É Carnaval!
E Carnaval é fantasia.
Carnaval é amor.
(24 de fevereiro/2007)
CooJornal no 517
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com