Lílian Maial
QUANTO VALE UM AMOR? |
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Você mal nasce e já começa
a descobrir o mundo através das grades do berço.
Vai crescendo, enfrenta a separação inevitável dos braços da mãe,
enfrenta
seu primeiro tombo, seu primeiro choque, seu primeiro dia de aula. Faz
amigos
(e alguns desafetos), aprende a ler e a escrever, aprende a defender
suas
idéias, aprende que somos feitos da mesma matéria, mas com valores e
vivências
diferentes.
Continua crescendo e aprendendo.
Tem crise de identidade na adolescência, descobre a diferença de sexos
e
oportunidades para cada um, descobre que o mundo sempre foi dos
homens, porque
as mulheres deixaram. E que os pais não são heróis.
Tem crise de escolha de carreira, crise de primeiro emprego (ou
desemprego).
Defende seu time de futebol, seu partido político, sua forma de
encarar a
vida, suas convicções.
Está pronta, está formada, talvez tímida, talvez extrovertida, mas é
você
inteira.
Aí conhece o amor. Encontra aquela pessoa especial, aquela que não
acreditava
que existisse, aquela face inesperada, aquela voz, aquele beijo...
Aquele que desperta em você as sensações mais loucas, mais lindas.
Aquele
que ensina a você o que é poesia.
Tudo lindo, tudo novo, tudo maravilhoso.
Mas... a pessoa querida, amada, idolatrada, salve, salve, não tem lá
as mesmas
idéias que você. Pior! Não aceita, de maneira alguma, que você as
tenha diferentes
das dele. Vive desconfiado, inseguro, tentando depreciar o que você
faz,
diz e pensa, supervalorizando o que não tem tanto valor assim, para
disfarçar
suas próprias falhas.
E você sofre, ah, como sofre!
Sim, porque, em nosso meio, "ser mulher é ser renúncia, é aceitar
aquilo
que o parceiro oferece e ainda dar graças pela oportunidade de ter
encontrado
alguém tão incrível".
Coitadas dessas ?zinhas? por aí, que ousam impor seu ponto de vista!
São
consideradas pessoas que não valem nada, mulheres mal amadas,
insatisfeitas
sexual e afetivamente, frias, desequilibradas. Até o século passado,
eram
loucas, mentalmente perturbadas, devendo ser afastadas do convívio de
pessoas
?normais?.
À custa do sacrifício dessas e de outras tantas, que pagaram com o
ostracismo,
a difamação e, até mesmo, com a vida a ousadia de ter idéias e
defendê-las,
é que hoje posso escrever sobre esse tema, sem incorrer em abusos da
lei
dos homens (ao menos, sem ser penalizada).
Bem, voltando ao amor, e aí? O que acontece?
Você o ama, o quer, não pode ficar sem ele. Ele ama você, quer você,
mas
não aceita você. Agride e fere você em cada oportunidade que você lhe
apresente
sua maneira independente de ser.
Vai colocar na balança? Vai ceder e anestesiar a imensa ferida que irá
se
formar?
Não se iluda que essa anestesia nunca vá acabar. Vai sim! Mas, talvez,
deixando
seqüelas irreversíveis na sua alma de mulher.
Por um lado, você: mulher livre, independente, dona do seu nariz,
acostumada
a decidir, a trabalhar e ganhar seu sustento, habituada a comandar os
rumos
da sua vida, escolhendo o que serve ou não para si.
Por outro: ele, o amor, o fascínio, a aura de felicidade que você
sempre
sonhou.
Está disposta a pagar por ele qualquer preço? O quanto ele vale? Vale
sua
liberdade? Vale seu passado, suas vivências, suas amizades, seu
próprio governo?
Vale a troca do certo pelo duvidoso?
Ou você acredita no ?felizes para sempre?, numa época em que já somos
carecas
de saber que o máximo que vamos conseguir é o ?que seja infinito
enquanto
dure??
Pense bem, pese prós e contras.
Nada, mas nada mesmo, vale você.
Você é a coisa mais importante da sua vida.
E você é isso, esse conjunto de características. Se mudar uma delas,
seja
pelo que for, já não é mais você.
E não se trata de ceder uma coisinha, para obter outras tantas.
Trata-se
de calar, de amordaçar, de abrir mão de toda uma luta de tantas
mulheres
que padeceram por seus ideais, para que você pudesse hoje chegar aonde
está.
Então, toda vez que o amor bater à sua porta, cordeirinho, mas
avançando
lentamente, causando um desconforto que você não sabe explicar, mas
que sente,
e sente bem, investigue o lobo por baixo da pele desse cordeiro, veja
suas
reais intenções, antes de abandonar o projeto de mulher feliz e plena,
para
tornar-se companheira de conveniência, escrava pseudo-contemplada com
a sorte
grande.
Se o sacrifício não for tão grande assim, e a promessa de felicidade
for,
para você, palpável, tente fazer a escolha certa.
Mas, se a dor da perda da sua condição de livre e autêntica não tiver
uma
retaguarda que valha muito a pena, tenha consciência disso e a
dignidade
de dar a volta por cima e dizer NÃO.
Por que é que é você quem deve sempre ceder? Se ele a ama tanto assim,
por
que ele não aceita seu modo de mulher século XXI?
Quem sabe, com esse não, você não conquiste um espaço importante para
as
mulheres que ainda virão?
Dorian Gray vendeu a alma ao Diabo, pela juventude eterna (?O Retrato
de
Dorian Gray? ? de Oscar Wilde). Você vai vender sua liberdade?
O amor vale muito sim, vale quase tudo, só não vale que você venda sua
condição
de MULHER, e com todas as letras em maiúsculo.
(31 de março/2007)
CooJornal no 522
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com