Lílian Maial
DE
VAGALUMES E DE AGÁS |
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No dia 26 de março, fui ao
lançamento de mais um livro de crônicas de uma amiga querida,
inicialmente amiga virtual, depois amiga real, agora amiga etérea (e-terna).
Pessoa positiva, bem humorada, bonita, inteligente, culta, porém, como
eu, de carne, osso e sentimentos.
A festa de lançamento estava linda, ela estava radiante e irradiando;
o livro, de uma sacada genial, e tudo muito bem cuidado. Ela cuidou
tanto desse "filho-livro", que se vestiu dele.
E gente, muita gente conferindo o sucesso dela. Ui!
Passou a semana e, um dia, recebo um desabafo em forma de crônica, uma
tristeza, onde deveria haver apenas alegria. Ligo para a amiga,
procurando entender a razão, e dou de cara (ou de ouvido) com uma
"mãe" abatida, pois descobrira que seu rebento nascera com alguns
pequenos "defeitos". Chorosa e magoada pelo destino, ela lamentava
pelos defeitos, com a desolação de quem nada mais poderia fazer, e a
decepção de perceber que os defeitos (mínimos e poucos, afinal) faziam
mais sucesso que seus inúmeros maravilhosos textos, que tanta alegria
traziam a milhares de leitores assíduos, e tantas horas de trabalho
haviam dispendido.
De repente, exclamo: pombas! Mas que meleca! O livro é lindo! É
moreno, forte, saudável, pronto para cair no mundo, passar de mão em
mão, trazendo tanta luz, e você vai reparar em acentos e agás? Caramba!
E você acha que notórios escritores não tiveram pequenos deslizes
ortográficos ou gramaticais, ou ainda imperceptíveis escapes revisivos?
Pros diabos se isso não ocorre com todos!
Agora, cá entre nós, quando se lê um livro, para que procurar erros,
se estamos diante de tantos acertos?
Quando se lê um livro, o que se busca, afinal, não é a essência, o
espírito do autor?
Que tipo de leitor lê um livro procurando erros?
Que tipo de amigo visita um bebê recém-nascido conferindo o número de
dedinhos dos pés?
Francamente, o que importa num livro é a confissão do autor, sua alma
exposta, suas opiniões, suas dúvidas, suas certezas, sua nobreza, sua
fragilidade.
O que importa num livro é a identificação que se tem desde a capa, a
primeira página, até o índice e contracapa.
O que importa num livro é o cheiro, a textura, a beleza e,
principalmente, todo um código de signos que ele representa para nós,
como o que se sente pelo autor e, mais ainda, o quanto se ama a
palavra.
Quem ama a palavra, a leitura, a escrita, não procura defeitos num
novo livro lido, mas o enaltece e guarda para sempre na memória o
prazer que ele lhe deu.
A identificação de erros de impressão, de revisão, de escrita, cabe ao
revisor apontar, ou aos professores indagados pelo autor. Aos amigos,
cabe a alegria do sucesso de vendas, e a gratidão da amizade de alguém
tão especial.
Vagalumes não incomodam aos seus iguais.
(07 de abril/2007)
CooJornal no 523
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com