Lílian Maial
Mudança de Desejos |
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Todo ano, nas proximidades
de meu aniversário, começo a prestar atenção a algumas
particularidades do meu cotidiano. E sempre me surpreendo com
mudanças. Por vezes, tão sutis, que só as percebo justamente por
procurá-las. E esse ano não foi diferente...
Estava eu num ônibus, voltando do trabalho, espremida no banco, no
canto da janela, ao lado de um senhor um tanto maior que o lugar que
ocupava. Ao redor, homens e mulheres de todo o tipo, alguns de terno e
gravata, outros mais simples; mulheres de vestidos e conjuntos do tipo
uniforme, algumas com vestes mais humildes e perfume barato, daqueles
que infestam o ambiente com apenas uma gota. Também alguns estudantes.
Nisso, entra uma senhora com algumas sacolas e pastas, possivelmente
uma professora, ou funcionária de escola (pelo tipo de material que
transportava, como rolos de cartolina, envelopes pardos, resmas
coloridas, livros). Ela aparentava estar nitidamente cansada, suada,
esbaforida. Olhei em volta, imaginando que um dos rapazes musculosos e
saudáveis, que estavam sentados, cederia o lugar; ou que alguma
estudante magrinha e bem jovem fizesse tal deferência. Ninguém fez
menção sequer de acomodar os embrulhos e sacolas da mulher. Já estava
eu, após 10 horas de trabalho, não tão garota, sapato alto, pensando
em levantar, quando um homem negro (faço questão de frisar sua cor,
uma vez que não tolero esse racismo subliminar e aceitável
hipocritamente que nos circunda todos os dias), sim, um homem negro,
sorri e cede seu lugar à senhora agoniada.
De súbito, olhei para aquele homem humilde, roupas simples, sapatos
gastos, aparência desanimada, e senti uma excitação anormal para
aquele tipo, que nunca me atrairia em outra situação. Comecei a
reparar em seus traços, em seu semblante, sua compleição física.
Nada
a ver com meu ideal de beleza e sensualidade. Não tinha musculatura
desenvolvida, não era intelectual, não tinha sequer aquele jeito
cafajeste que as mulheres negam, mas que adoram. Nada. Era um homem
simples do povo, mas profundamente sexy, em sua gentileza e
preocupação com o bem estar daquela mulher.
Achei que estava apenas
grata àquele homem, pela situação, e deixei pra lá.
Dias depois, na fila do supermercado, testemunhei a delicadeza de um
outro homem, esse bem rude, que dava para se notar as dificuldades da
vida, pelos produtos contidos em sua cestinha de compras, e pelos
trajes desbotados e algo puídos. O homem estava impaciente, talvez
faminto, olhando a toda hora para o caixa, trocando a perna de apoio
repetidamente. Logo atrás dele, uma senhora também intolerante,
reclamando da morosidade do caixa, causando um mal estar desnecessário
a todos nos arredores. Foi quando chegou aquela moça, empurrando um
carrinho abarrotado, com uma criança pela mão e outra de colo,
choramingando. A moça estava claramente em dificuldades para
administrar a coisa toda. Francamente não sei como ela, sozinha, deu
conta de fazer as compras até ali.
A tal senhora começou a olhar para trás, a reclamar, a demonstrar
incômodo com o chorinho do neném. A moça nada podia fazer, visto que
precisava ficar ali até ser atendida. Pois foi quando o homem, que até
então havia se mostrado irrequieto com a demora, cedeu sua vez para a
moça, sob os protestos da tal mulher azeda.
Novamente senti-me atraída por um homem estranho e de cuja aparência
nunca notaria em outra ocasião. Passei a analisar o sujeito, e o vi
lindo, carinhoso, amigo, um homem que respeita a condição feminina e a
protege. Então me dei conta de que os meus desejos estavam mudando.
Meu foco era outro agora. Não me sentia mais tão atraída por músculos,
intelecto, situação profissional, social, ou fosse lá o que fosse. Não
que não goste dessas coisas todas, mas parece que, de uns tempos para
cá, o respeito do homem e sua quase veneração à condição feminina de
mãe, de protetora, mas indefesa, vem provocando mais "sex appeal" do
que qualquer apetrecho, apelo de mídia, ou idealização hollywoodiana,
ao menos para mim.
Na verdade, penso que toda mulher gostaria que o homem fosse assim:
cavalheiro,
atencioso, preocupado com o seu bem estar, ao mesmo tempo em que
respeitasse
sua igualdade de inteligência e capacidade profissional. É notório que
fisicamente
as mulheres são mais frágeis e delicadas. É óbvio que possui
características
peculiares à sua capacidade de procriação, como ciclo menstrual,
gestação
e lactação, e que, nesses períodos, sua fragilidade fica mais
perceptível.
É de conhecimento público ainda, a força interior, a solidariedade ao
companheiro,
a vontade e determinação, a luta, a acumulação de funções, a grande
doação,
a aura de amor que a contorna, a poesia que ela exala.
Concluo, então, que esse aparente litígio entre os sexos, a tentativa
frustrada
de ser igual (porque não é mesmo), a vulgarização do pudor, que gera
confusão
na cabeça do homem entre liberdade e promiscuidade, tudo isso é fruto
de
mídia, que detém interesses escusos e manipula a massa. É a mídia que
lança
os modismos e comanda o que deve e o que não deve ser dito, ser feito,
ser
usado, ser adotado como padrão.
E onde ficam nossos padrões? Onde o atavismo? Onde o orgulho de ser
mulher,
a nobreza de ser mãe, a beleza de ser madura, a realização de ser avó,
a
delicadeza de ser menina, o mistério de ser todas?
Há alguns homens que ainda guardam essa bagagem, lá no fundinho de
suas mentes,
talvez fruto de uma educação dada por mulheres (suas mães) que sabiam
o que
é ser mulher na íntegra. Sabiam dos sacrifícios, dos prazeres, das
dores,
das alegrias, das responsabilidades sobre o futuro da família e do
mundo.
Esses, remanescentes de uma era onde a mulher era a musa, a deusa e a
dona,
ainda cedem lugar na condução lotada, ainda abrem portas, ainda
sorriem para
crianças, e só não enviam flores e bombons, porque nem todos têm
condições
financeiras para tal, porque, do contrário, fariam isso sim.
E eu acabei de verificar que isso me atrai incrivelmente. Chego a não
conseguir
disfarçar. Molho mesmo. E logo eu, tão feminista, tão brigona por
direitos
iguais, tão acintosamente livre e moderna!
Sim, eu! Eu que sou mãe, que sou amante, que sou profissional, que sou
poeta,
que sou morena, que sou carioca, que sou brasileira, que sou feliz e
satisfeita
de ser mulher! Por isso mesmo, sou orgulhosa do que sou e sei que
mereço
dos homens, de todos os homens, a reverência, o reconhecimento, a
admiração
e o conforto e proteção que todo macho deveria ter por toda fêmea.
Afinal,
todos vieram delas, das fêmeas (até agora).
Todos os homens deveriam respeitar as mulheres, pelo simples fato de
elas
serem as mães do mundo. Só isso já bastaria! Fora isso, são a razão da
existência
do amor. Porque o amor é vida. E a vida é fêmea, vem do útero (claro,
com
a participação igualitária de espermatozóides, mas não estou falando
de ciências).
Basicamente vi que há uma necessidade premente de se resgatar a mulher
e
o romantismo. Não digo que virei D. Quixote de saia, mas estou
decidida a
fazer campanha pela volta das flores, dos bombons (pode ser ?diet?),
dos
sorrisos descompromissados, das gentilezas nos ônibus, trens, metrôs,
na
educação dos futuros homens com mais brios e respeito às mulheres,
campanha
contra a violência para com a mulher, inclusive violência das
palavras, do
uso de linguagem chula diante de uma senhora, da nudez escancarada
desnecessariamente,
diante dos olhos das meninas impúberes.
Não vou passar a usar vestidos longos e nem gola rulê no verão, mas
acredito
que nossos valores foram alterados não por nós, muito menos pelos
homens,
que estão tão confusos quanto, mas por uma propaganda enganosa, que só
visa
lucro, sem se importar com a humanidade. E é contra isso que
deveríamos nos
unir e tentar mudar. Nós, mulheres, e os homens que nos entendem e que
nos
colocam em nossas devidas posições no mundo. Não de quatro, ou por
trás de
uma pia de louça, ou de um fogão. Não por trás de salários menores que
os
homens na mesma função. Não em propagandas de cigarros, bebidas,
carros,
nuas de corpo e sem alma. Mas no verdadeiro papel que temos, lado a
lado.
Volto a insistir, não é uma crônica feminista, ao contrário, mas a
observação
de que nossos valores foram tão aviltados que, hoje em dia, encontrar
um
homem que nos respeite como mulheres, seres humanos especiais, atrai
profundamente,
muito mais do que qualquer modelo fotográfico ou vencedor de Oscar.
(14 de abril/2007)
CooJornal no 524
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com