Lílian Maial
AS
PUTAS EM PAUTA |
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Hoje me peguei
discorrendo, com uma amiga, sobre a necessidade, de certos homens, de
falar tanto e tão constantemente sobre prostitutas (suas vivências,
suas histórias, a admiração deles por elas), principalmente em meios
onde coabitam mulheres mais liberadas e emancipadas.
Ora, sabe-se que, hoje em dia, tais estabelecimentos - os prostíbulos
- são mantidos apenas para uma certa faixa de cidadãos, que não têm
condição de se relacionar com mulheres mais evoluídas, mais livres de
preconceitos (leia-se: classe baixa). Ou ainda por aqueles que dividem
as mulheres em dois tipos: as que são santas, geralmente esposas e
mães preocupadas tão somente com o bem estar da família, anulando-se
nos demais aspectos; e as que são safadas, geralmente as desejadas, as
que eles cantam, as com quem usufruem o melhor gozo, mas que não
servem para mãe de seus filhos. Nesse último caso, nivelam as moças
que se atrevem a gozar e as que são pagas para fazer gozar.
A classe média há muito não freqüenta mais tais cabarés, uma vez que
as mulheres sabem-se detentoras dos mesmos direitos a prazer e sexo
que os homens. E os exigem. Moças e rapazes coexistem sem confrontos.
Namoradas e namorados dividem intimidade e responsabilidade sobre
tudo. Nem as doenças os assustam mais, pois a geração de agora não faz
mais sexo sem segurança.
Então, por que eles insistem em falar disso, em escrever prosas e
versos falando de suas aventuras, das antigas casas, de suas donas (as
velhas cafetinas), descrevendo ambientes, citando preferências, muitas
das vezes enaltecendo e considerando tais mulheres heroínas, de fibra,
compreensivas, como se fossem as melhores companheiras que um homem
pudesse desejar. Logo eles, que as subjugam, e por quem a profissão
ainda resiste.
Juntas, eu e minha amiga concluímos a mesma coisa: medo.
É, medo.
Esses homens têm medo. Medo de impotência, medo de não saber
satisfazer, medo de não conseguir seduzir e manter junto a eles uma
mulher livre, cujo único compromisso com eles seria o sentimento e o
bem estar.
Muito mais fácil manter as aparências de uma família feliz, de uma
mulher satisfeita, buscando, para isso, a “santa”, a pura, aquela que
não exige que o prazer que o parceiro lhe proporciona seja de seu
agrado. Ela é brava, é mandona, mas é sexualmente submissa, porque
cheia de preconceitos e ranço da velha educação judaico-cristã, que
preferia queimar as mulheres inteligentes, emancipadas e, portanto,
perigosas, na fogueira, ao invés de lhes reverenciar e aprender com
elas.
Mas como sobreviver sem o prazer maior, sem a brincadeira gostosa dos
casais que se entregam ao jogo do amor? Como usufruir o melhor da
mulher, se eles a dividem em duas? Ora, simples: casam com uma e
freqüentam a outra, mas mantendo esta última inferior, suja, marcada,
sem condições de discutir, argumentar, exigir. Assim, surgem as
eternas amantes românticas e apaixonadas, mas relegadas a um plano de
usuário, e as putas que, como são pagas, não podem reclamar do
serviço, e ainda precisam fingir que gostam.
Interessante, pois agora o comportamento do homem através dos tempos
tornou-se, de súbito, muito claro. Sexo e poder. Não é Rede Globo, mas
tudo a ver!
Então, eles podem ser umas drogas de homens na cama, podem ser
desagradáveis até, mas, em casa, são reis, pois elas, as esposas, não
conhecem o verdadeiro prazer, não têm e nem querem comparar. E lá, nos
puteiros, são reis, pois pagam às mulheres que se submetem, ou por não
saberem seu potencial, ou por não terem alternativas (a maioria vem de
regiões paupérrimas, onde passaram fome e foram ludibriadas com a
promessa de vida melhor).
Com isso, provocam divisão entre as próprias mulheres. As “santas”
difamam e repudiam as “dadas” e “moderninhas”. Por outro lado, as
livres, sem preconceitos e sem medo, acabam quase sem amigas, pois a
concorrência afasta a confiança. É fogo!
O preço da independência é a solidão. Mas será?
Curioso como somos covardes. Alguém já ouviu falar em prostíbulo
masculino? Em prostituto que veio fugido da seca do sertão e foi
vendido para uma cafetina? Um rapazinho novinho, que foi trabalhar
numa “casa de perdição”, freqüentada por respeitáveis senhoras, por
políticas, por fazendeiras, por moças buscando apenas prazer? Duvido!
Não há? Hoje ainda, o máximo que se conhece são “garotos de programa”,
geralmente procurados por mulheres mais velhas, para usufruir a
oportunidade de conhecer um corpo mais jovem, experimentar o vigor de
um adolescente, ou realizar fantasias de mais de um parceiro.
É, as coisas estão mudando, mas tão lentamente...
Ainda há tanto preconceito.
Será que as mulheres não percebem que, quando um homem exalta a mulher
prostituta, ele está, em alto e bom som, vendo todas as mulheres como
putas em potencial? Não percebem que é uma forma de desdenhar da
igualdade feminina? Uma forma de “nivelar por baixo” a nossa índole?
Mas está tão claro! O homem que diz idolatrar a mulher “santa”, na
verdade, sente é um profundo desprezo por todas as mulheres,
notadamente quando esta exerce seu papel de fêmea, e não apenas o de
reprodutora. Ele a quer num pedestal, e bem lá no alto, para não ter
de justificar o membro que não enrijeceu, ou o sexo de má qualidade e
má vontade, muitas das vezes por puro egoísmo. É bom receber sexo
oral, carinhos, massagens, surpresas, mas é tão trabalhoso fazer o
mesmo na parceira. Que bom que a “santa” da esposa não gosta, não é
mesmo? Que bom que, para ela, aquilo é porcaria, é coisa de mulher à
toa! Ainda mais que elas lavam, passam, cozinham, costuram, cuidam da
casa e da educação dos filhos, fazem compras, se distraem nos
shoppings, para quê precisam de sexo selvagem e integral? Para quê
se desdobrar e criar expectativas na esposa?
Olhem, meninos, aprendam uma coisa: não existem dois tipos de mulher.
Todas têm dentro de si a pudica e a assanhada, assim como todo homem
tem o forte e o fraco, o valente e o covarde, o sábio e o tolo, o
certo e o errado. Toda mulher é perfeita e imperfeita, assim como todo
homem. Então, já não seria a hora de parar de classificar a mulher e
se aliar a ela? Não seria hora de esquecer a santa e a puta, e
enaltecer apenas a mulher?
(28 de abril/2007)
CooJornal no 526
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com