05/05/2007
Número - 527


ARQUIVO
LILIAN MAIAL

 

   

Lílian Maial




Pois é, meu caro Anderson Fabiano...

  

O curso de Medicina continua tendo 06 anos, só que o velho vírus, depois de tanta pesquisa biológica para armas de guerra, sofreu inúmeras mutações, sem falar nas modificações climáticas (que favorecem a propagação viral), daí então é um bando de virose pra lá e virose pra cá, que não acaba mais.

Só que o problema não é no número de anos da faculdade e nem o número de vírus espalhados, mas no percentual de massa cinzenta usada pelo homem.

Quando eu estudava Medicina (e não se vai tanto tempo assim), os vírus já estavam se multiplicando e sofrendo mutações (como o da AIDS), e muitos se questionando se não seriam fabricados pelos americanos, nessa pesquisa interminável de armas biológicas, e se dizia que o homem usava apenas cerca de 10% da capacidade cerebral. Hoje em dia, vendo que a guerra biológica era apenas um disfarce para encobrir a verdadeira guerra fomentada pela venda de armas, acredito que ele, o homem, use menos de 1%. Não sei se foi o uso das drogas, as mudanças climáticas, a camada de ozônio, os raios UVA, raios UVB ou os raios que os partam, mas sei que antes o ser humano (humpf!) se preocupava em camuflar a hipocrisia sob um manto de religiosidade, beatificação, sociedade moral e hierárquica, com as putas, os pegas e o álcool fazendo o contraponto à contracultura. Com isso, havia um certo "controle" da violência, à custa da violência de uma minoria militar, religiosa e politicamente poderosa sobre os direitos de uma maioria pobre e muda.

Hoje essa maioria entendeu que é realmente maioria, e jogou os valores da opressão na lata do lixo (lixo esse em letras minúsculas) e, junto com eles, os valores morais verdadeiros (dessa vez depois de uma boa dose de crack importado do submundo do poder).

Pra piorar, aqui no nosso país, um certo jornalista visionário cheirou todas e espalhou o pó da mídia - o velho pirlim-plim-plim - pelo país, embotando os pensamentos e mostrando aos jovens os valores estereotipados que estão aí, como os BBB, novelas (que se multiplicam mais que vírus), e enlatados, apesar de alguns bons seriados convenientemente colocados no ar de madrugada.

É mais fácil engolir enlatados mastigados, incitando à violência, à perversão, às culturas decadentes, que ter que pensar junto com Ionesco, Williams, Grimm, Andersen, Lobato e Assis nos teatrinhos pela TV da minha infância.

É, menino, no fundo, bem lá no fundo, nada mudou para o pobre miserável que nasceu do bem. Na época da sua infância e da minha infância eles eram discriminados, favelados, sem oportunidades, trabalhadores braçais quase escravos, que só conseguiam anestesiar a dor na cachaça, no sexo e no samba.

O que mudou hoje para o miserável do bem? Continua favelado, discriminado, sem oportunidades, trabalhadores braçais quase ecsravos, que só conseguem anestesiar a dor na cachaça, no sexo e no samba.

Talvez tenham agora mais diversificação apenas, pois podem ter acesso a cerveja, travestis, sado-masoquistas, Sexy Hot a cabo (literalmente) e funk.

Imaginar que o mundo está pior agora é passar atestado de que era burguês no século passado, porque para o pobre mesmo o mundo continua o mesmo. E mais: não vai mudar! O aquecimento global não vai aumentar a conta de luz deles, porque eles não têm mesmo condicionador de ar e nem freezer. É capaz até deles viverem melhor, quando o mar transbordante do descongelamento das geleiras dos pólos invadir os bairros e eles, que estão "mais pertinho do céu", agrupados nas ruelas dos casebres nas favelas, virem o mar chegar à sua porta, o os senhores do mundo ainda oferecerem uma nota preta pelos barracos...




(05 de maio/2007)
CooJornal no 527


Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br 
lilianmt@globo.com