Lílian Maial
Emparedada |
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Dedicado ao Anderson
Fabiano
(depois da leitura de “Quatro Paredes”, por absoluta necessidade
de soltar o que a palavra precisa dizer)
Sim, sim, a tristeza é o combustível do poeta, e a inquietação, a
faísca que atiça. E o pobre bardo tentando tampar o buraco no peito,
mas só conseguindo abrir fendas e feridas, sonhar com a normalidade
que não conhece, o amor que pensa existir, a felicidade que não
entende.
Há tantas coisas por saber e tantas outras por descartar. Mas como
sabê-las descartáveis, antes de vivê-las todas?
Não sei se tenho espaço entre a cabeça e o peito, ou apenas uma Torre
de Babel, onde a razão me ensina de um jeito, e a emoção me corrompe
de outro, num cabo-de-guerra sem fim.
Sou bêbada das minhas vivências, equilibrista de fatos e resquícios de
memória. Sou dependente química de algo que não tenho, ou que talvez
sempre tenha tido e nunca soube identificar.
Alimento o anseio por respostas e, hoje em dia, também por novas
perguntas, já que sou mutante e cíclica, poeta de faz-de-conta, perita
em altos e baixos, cada vez mais nivelados ao chão - leito final de
bípedes, quadrúpedes e incrédulos.
Sinto que algo me passou despercebido, algo deixou de me visitar os
dias e, quando dei por mim, tinha passado a estação, ou será que eu é
que havia errado de trem?
Não, ainda há de acontecer um evento qualquer que me arrebate e me
esclareça tudo, ocupe todos os espaços, preencha todos os silêncios, e
me aponte a verdadeira razão de eu ser poeta, ou ser mulher, ou ser
este ser que não se encaixa nas fotos, nas conversas de bar, nos
cantos da vida ou em qualquer coisa que não seja ímpar.
(19 de maio/2007)
CooJornal no 529
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com