Lílian Maial
SE O PROBLEMA DO ABORTO NÃO ESTÁ APENAS NELE, VAMOS ENTÃO VER ONDE
ELE ESTÁ? |
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Nosso caro
colega Arthur da Távola acabou de postar aqui um artigo, onde diz que
o assunto “legalização do aborto” nada tem a ver com a Presidência,
mas com o Congresso. Eu discordo, e gostaria de tecer algumas
considerações, apenas a título de expandir as idéias, sob um outro
prisma.
É assunto do
Congresso sim, porém o resultado disso é assunto social, assunto de
mortalidade feminina, assunto de saúde pública, assunto de miséria, e
isso é assunto da Presidência. O foro íntimo individual (feminino!) é
inquestionável. Já quanto à sociedade, na minha opinião, é
absolutamente secundário, pois que a mesma varia de acordo com a moda
e com a mídia.
Essa mesma sociedade vive reclamando que a idade mínima para a
aposentadoria foi elevada, mete o malho no governo, se descabela, mas
não toma uma única atitude. Essa mesma sociedade assiste, inerte, a
incêndios de seus ônibus, a assassinato de seus filhos, ao roubo
escandaloso do dinheiro público, tudo em absoluto silêncio.
Eu não creio que
a questão seja ser contra ou a favor do aborto em si, que isso sim é
de foro íntimo, mas em ser favorável ou contrário à sua legalização,
ao direito de se optar por ter ou não ter um amparo médico, quando a
decisão de abortar já está tomada. Sim, porque uma mulher que
esteja decidida a abortar, quaisquer que sejam os dispositivos legais,
vai abortar. Depois da decisão tomada, não há lei que a faça
voltar atrás. E isso vem de milênios. É desinformação tentar dizer o
contrário.
É
impressionante que, depois de tantas batalhas arduamente ganhas em
favor dos direitos da própria mulher, depois de tantas transformações
que a sociedade finalmente vem sofrendo, em virtude de ações de
grandes mulheres, dentre elas Betty Friedan, recentemente falecida,
uma das responsáveis por eu e a maioria das mulheres estarem aqui
hoje, debatendo em pé de igualdade com os homens qualquer tipo de
assunto, a sociedade e até muitas mulheres ainda serem capazes de
atitudes retrógradas, que procuram manter a mulher à mercê do poder
masculino.
Não pensem -
aqueles que são radicais - que a legalização aumentaria os índices de
aborto. Não! A legalização apenas conferiria às mulheres de baixa
renda o direito de ter amparo médico em sua decisão. Sim, porque as de
classes mais abastadas o fazem em ambiente seguro, com médicos,
anestesistas, enfermeiras e acompanhantes. Só as miseráveis, que não
podem pagar por uma clínica clandestina (que é clandestina só para
inglês ver), é que sofrem dores, riscos, morte.
A legislação
brasileira não circunscreveu esta matéria bastante bem, como cita o
colega. Ela é segregadora, limitante, excludente e machista. Limita o
ato apenas a grávidas por estupro (que quando chegam a conseguir a
permissão para o aborto já deram à luz) e nos casos de imperfeição
genética, desde que esta venha a provocar a morte do feto, atestada
por inúmeros especialistas, quando a barriga já está volumosa e a
criança mexendo, traduzindo, aí sim, uma vida, dificultando a escolha
da mulher. Exclui as que não desejam a gestação. É machista, porquanto
homens decidem sobre o que não arcam depois. Um absurdo, uma vez que o
Estado não garante a subsistência das crianças geradas contra a
vontade da mulher, e muito menos às crianças deficientes!
Basta olhar nas
ruas e nas instituições. Antes de se
empunhar a bandeira pelos que sequer enxergaram o mundo ainda, deveria
ser levantada uma bandeira para livrar os já nascidos da miséria, da
sevícia, da falta de esperança, das drogas, do crime e do
apodrecimento da infância.
Que se fale em preservação da vida na hora do descaso, do preconceito,
do virar as costas às crianças de rua, no subir rapidamente o vidro do
carro, com a menor sensação de sua aproximação, ao dar esmolas aos
equilibristas da fome, que os divertem nos sinais de trânsito, ou os
constrangem.
Que se fale em preservação da vida daqueles que só esperam a
felicidade na morte.
Concordo inteiramente, como médica, que o que mais precisa acontecer
no Brasil é um mega projeto de planejamento familiar, com educação das
meninas e meninos desde a pré-escola, de maneira séria e insidiosa,
até o segundo grau. Que sejam distribuídos gratuitamente preservativos
masculinos e femininos, com as devidas orientações de uso, e os
contraceptivos. Mas isso, apenas, não afasta o problema da gravidez
indesejada.
O cerne do
problema da legalização do aborto está, a rigor, na mortalidade e
morbidade feminina, além da citada procriação inconseqüente. O
planejamento familiar livre e consciente, sem dúvida alguma pode
atenuar a tragédia a médio e longo prazos, mas não a elimina, muito
menos a curto prazo.
O
mais importante de tudo: ser contra a legalização do aborto não
diminui a quantidade de crianças abortadas, apenas aumenta o número de
mulheres que morrem por não terem tido a chance de ir a um hospital
fazer tal aborto, sendo submetidas a verdadeiras chacinas por curiosas
ou clínicas clandestinas, que invariavelmente deixam seqüelas físicas
ou, pior, morais.
Ser contra a legalização do aborto modifica, sim, os índices de
mortalidade infantil, mas a mortalidade pós-natal, por sofrimento
absurdo causado pela fome, pela miséria, pelo desamor da mãe (que não
desejava o filho), pela sociedade – a mesma que foi contra o aborto -
que sempre o considerará um bastardo, um marginal.
As demais formas de aborto realmente são um assassinato, mas um
assassinato das mulheres pobres, as que provocam em si mesmas a
expulsão do embrião, ao introduzirem em seu corpo arames de cabide,
talos de mamona e outros materiais de toda sorte, com conseqüentes
perfurações de útero, intestino, bexiga, peritonite, com seqüelas
muitas vezes irreversíveis e até morte. Isso é assassinato! Porque a
grande maioria poderia ser evitada, se a legislação retrógrada e a
sociedade hipócrita não varressem para debaixo do tapete a certeza de
que isso existe.
Nas clínicas
clandestinas isso não acontece, mas só para as que podem pagar, e bem.
Dizer que a
situação é do âmbito policial e da precária vigilância sanitária é
colocar venda nos próprios olhos e nos da nação. Uma visitinha de 24
horas nos Pronto-Socorros mudaria a visão em dois tempos.
Ser contra ou a favor da legalização do aborto é ser contra ou a favor
da mulher ter direitos sobre seu próprio corpo, seu
destino, suas escolhas. Antes de levantar a bandeira da defesa de
embriões, por que não defender menores de rua? Por que não trabalhar
em causas sociais de recuperação de delinqüentes? Não querem respeitar
a vida? Por que somente a vida intra-útero de conceptos de mulheres
que não os desejam?
Ser contra a legalização do aborto hoje em dia significa muito mais
ser a favor da criminalidade e do aumento do número de infelizes.
O mais interessante é que as pessoas que são contra a legalização do
aborto são favoráveis, na maioria das vezes, à pena de morte de
menores criminosos. Ou são favoráveis a deixá-los bem distantes de seu
caminho. Ou a baixar a idade penal mínima.
E o mais triste disso tudo é ver uma mulher ser contra os direitos das
outras, que a duras penas vêm lutando e se expondo para que a miséria,
a criminalidade e a injustiça social sejam reduzidas.
Eu convivo no meu dia-a-dia com as mulheres que chegam com
hemorragias, infecções, perfurações de útero, de intestino, em virtude
de abortos provocados em circunstâncias desesperadas.
Convivo com mães que não entendem a razão de uma filha sua ter feito
um aborto, quando elas mesmas pregam a independência, a prevenção, o
uso obrigatório de preservativo. Só que parece que essas mães, assim
como nossa sociedade impiedosa, não sabem da realidade masculina de
não aceitar o uso dos preservativos, com a velha desculpa do "chupar
bala com papel".
- "Dê um fora no cara que não aceita!" - dirão alguns. Mas elas, as
que dizem isso, na hora H aceitam... É muito fácil condenar os outros,
melhor ainda, as outras.
Há sim formas perfeitas de resolver esse conflito, bastando para isso
a legalização do aborto em hospitais públicos, clínicas e
maternidades, associada a um planejamento familiar e educação sexual
nas escolas, de caráter sério e valendo nota. Mas aí é outro problema,
pois agora as crianças nem podem mais ser reprovadas...
Não estou aqui querendo convencer as mulheres a abortar. Não estou
fazendo campanha para que todas as mulheres abortem. Não sou
favorável a abortos em massa. Queria apenas sensibilizar as pessoas de
que a mulher tem o direito de ter assistência médica, como
qualquer ser humano, na hora em que decidir não levar uma gravidez em
estágio inicial adiante.
Concordar ou não, também é direito de cada um.
Em tudo o que
foi exposto, a frase mais marcante e menos levada em consideração é:
“estou convencido de que é dela (da mulher) a última palavra”. Isso é
tão óbvio, que chega a ser engraçado. De quem mais deveria ser a
última palavra, se o corpo é da mulher?
(26 de maio/2007)
CooJornal no 530
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com