16/06/2007
Ano 11 - Número 533


ARQUIVO
LILIAN MAIAL

 

   

Lílian Maial




Pausa

  

Nada mais difícil do que perceber a verdade absoluta das coisas.
De repente, num dia completamente “aclimático”, me deparar com a simplicidade da resolução das equações do mundo, constatar que o balanço dos anos é a mais doce fantasia de vida, numa seqüência de atos e fatos a lugar nenhum.
Agora entendo que não há mais poesia em mim. A liberdade é mais um grilhão a prender vontades imaturas ou, talvez, mais um caminho de repensar desdita.
Seja como for, não há mais âmago nos versos do mundo, somente um amontoado de palavras sem nexo, um emaranhado de passado sem vida, um nevoeiro a cada amanhecer.
Há, sim, o sol, mas não há mais calor. Não há nem mais sangue pulsando futuro.
Tem um resto de sorriso num rosto atônito, uma borra de café de conformidade, um par de algemas nuns punhos de embalar, e essa tristeza absurda, incompatível com o bater frenético do coração inquieto.
O dia fica à espera dos fatos.
O poeta, à espera do milagre.

A corda lamenta o nó desfeito, esse mesmo nó que veio pra garganta e teima em desatar numa enchente de dor miúda, que vai se encolhendo no cantinho do peito.
As noites não trazem mais promessas de velar sonos, e as palavras pousaram em algum galho frondoso, calando os vôos por rimas e ilusões.

Não, não há poesia na certeza!

Eu quero a dúvida, a busca, o mistério e o segredo! Eu quero a mentira da ficção! Eu quero o engodo do medo!
Entrego, a quem quiser, de mão beijada, o acre sabor da missão cumprida.
Quero uma última gota, a sobra do prato, a esperança...

Meu reino pela esperança de um pesadelo!




(16 de junho/2007)
CooJornal no 533


Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br 
lilianmt@globo.com