Lílian Maial
Pausa |
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Nada mais difícil do
que perceber a verdade absoluta das coisas.
De repente, num dia completamente “aclimático”, me deparar com a
simplicidade da resolução das equações do mundo, constatar que o
balanço dos anos é a mais doce fantasia de vida, numa seqüência de
atos e fatos a lugar nenhum.
Agora entendo que não há mais poesia em mim. A liberdade é mais um
grilhão a prender vontades imaturas ou, talvez, mais um caminho de
repensar desdita.
Seja como for, não há mais âmago nos versos do mundo, somente um
amontoado de palavras sem nexo, um emaranhado de passado sem vida, um
nevoeiro a cada amanhecer.
Há, sim, o sol, mas não há mais calor. Não há nem mais sangue pulsando
futuro.
Tem um resto de sorriso num rosto atônito, uma borra de café de
conformidade, um par de algemas nuns punhos de embalar, e essa
tristeza absurda, incompatível com o bater frenético do coração
inquieto.
O dia fica à espera dos fatos.
O poeta, à espera do milagre.
A corda lamenta o nó desfeito, esse mesmo nó que veio pra garganta e
teima em desatar numa enchente de dor miúda, que vai se encolhendo no
cantinho do peito.
As noites não trazem mais promessas de velar sonos, e as palavras
pousaram em algum galho frondoso, calando os vôos por rimas e ilusões.
Não, não há poesia na certeza!
Eu quero a dúvida, a busca, o mistério e o segredo! Eu quero a mentira
da ficção! Eu quero o engodo do medo!
Entrego, a quem quiser, de mão beijada, o acre sabor da missão
cumprida.
Quero uma última gota, a sobra do prato, a esperança...
Meu reino pela esperança de um pesadelo!
(16 de junho/2007)
CooJornal no 533
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com