Lílian Maial
O que leva as pessoas a se tornarem amigas ou inimigas? |
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Depois de duas ou
mais décadas de convivência, descobrir que o parceiro de toda uma vida
não é seu amigo, não lhe quer bem, e que por qualquer rusga se esquece
de anos de dedicação, carinho e cuidados, e deixa você sozinho,
abatido, doente e sem recursos. Busca se vingar na sua família, nos
seus amigos e até nos filhos, mesmo que de maneira inconsciente.
As relações humanas deveriam se basear em confiança, respeito,
bondade, porém, de uma hora para outra, transformam-se em
desconfiança, mágoas, ressentimentos e, em alguns casos, desejos de
vingança.
Pobre daquele que acredita no ser humano! Não sei se alguém já disse
isso, mas certamente já sentiu na pele. Juras, promessas,
encantamento, uma vida construída juntos, para, de repente, virar uma
guerra impiedosa, onde vencerá o mais forte (ao menos o de estômago
mais forte).
Onde foi parar aquele anjo, aquela pessoa forte, protetora, amiga, que
fez promessa solene ao sogro, de proteger sua filha de tudo e de
todos, e nunca a magoar? Onde foi parar o amigo de todas as horas, o
apoio, o suporte, o amor?
Hoje esses sentimentos deram lugar ao ódio, à vingança, ao desejo de
destruir e contribuir para o sofrimento e a infelicidade.
E ficam lá no cantinho as lembranças de um tempo que agora parece tolo
e desperdiçado. As trocas, as esperas, as surpresas, as alegrias, as
vitórias, as lutas todas. Uma vida inteira sufocada por atitudes
negativas de não mais querer bem. Tudo bem não querer mais, mas deixar
de querer bem?
O que leva as pessoas a se tornarem amigas ou inimigas?
Como desconfiar de que o pacto vai se acabar? Quais os sinais? Sim,
porque os sinais de uma sociedade no fim são relativamente fáceis de
se identificar, até mesmo por quem está de fora, mas sinais de não
mais querer bem? Quais são? Como evitá-los? Melhor não evitá-los?
Somos feitos do mesmo material, crescemos com as mesmas regras e
conceitos, mas em algum lugar da estrada os caminhos se dividiram e os
passos se quedaram por atalhos, desvios, e o cansaço e o orgulho
impediram que se parasse e retomasse a caminhada em terras conhecidas
e firmes.
E agora, ainda pelo meio do caminho, vemos as rosas plantadas por nós
murchando de sede e frio, ante a indiferença da raiva e da frustração.
Nossas rosas cor de chá despetalando, como um coração despedaçado, de
raízes arrancadas do solo fértil da amizade.
O que leva as pessoas a se tornarem amigas ou inimigas?
Não sei, mas deveríamos nascer sabendo, para que não representássemos
esse papel tosco de adultos separados pela incompreensão e a teimosia,
pela falta de diálogo e a ocultação, pelo fingimento e as lágrimas sem
destino.
Todas as afinidades se dissolvem ao sabor das palavras mal ditas.
Todas as promessas se descumprem imersas em rancor. E aquele fio de
aço que nos prende um ao outro, companheiros da mais longa de todas as
jornadas, se parte em cada ausência, em cada manifestação de ira, em
cada sentimento trancado e dilacerado pelo amargor.
Eu me recuso a me tornar inimiga do meu melhor amigo. Seguirei amiga
sem amigo, mas não deixarei as rosas cor de chá serem maltratadas,
abandonadas por falta de amor. Eu as recolherei e manterei num vaso
delicado, e as regarei a cada vez que olhar para os filhos e frutos,
sabendo que em mim nada do que vivemos será morto.
(23 de junho/2007)
CooJornal no 534
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com