Lílian Maial
A
INTERNET E OS DESVIOS |
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Pelo fato de já ter
sido adolescente e viver entre adolescentes agora, percebo que há todo
um exagero em relação às atividades cibernéticas. Nosso espanto com a
rede é semelhante à de nossos pais com o “amor livre”, pregado pelos
hippies do nosso tempo. É o mesmo espanto dos nossos avós, diante do
sexo antes do casamento e de mulheres fumarem em público (machismo
expresso), e dos nossos bisavós, quando as mulheres começaram a
“invadir” as faculdades.
O que muda é apenas o enfoque, mas o instinto de manipulação da vida é
o mesmo. Queremos sempre ter o controle sobre tudo, e o mundo
cibernético nos tira esse controle.
É notório que os usuários da rede, principalmente aqueles que passam
muitas horas diante da telinha, sofrem modificações de comportamento,
as mesmas pelas quais todo adolescente passa, na busca de sua
identidade e de seu grupo. O que a rede faz é facilitar essa busca e
propiciar os encontros dos grupos afins. A rede não provoca
sentimentos ou sensações que já não existam no usuário. Então, se há
patologia no uso da rede, essa patologia já existia no indivíduo, só
que não havia sido deflagrada, ou vinha sendo camuflada pelos padrões
sociais de exclusão. O sujeito era excluído, não incomodava, e fim.
Uma pessoa muito tímida, com dificuldade de aceitação por não
corresponder a padrões sociais impostos (obesos, feios, calvos, raças
não brancas), sente-se muito mais à vontade com o anonimato, e
consegue se soltar, revelando-se uma pessoa incrível, que as relações
interpessoais não permitiriam. É natural que se torne viciado em
Internet, pois é através dela que pode ser considerado uma pessoa
normal! Quem não trocaria uma vida real medíocre, onde é espezinhado,
ignorado, onde não tem vez, por uma vida virtual onde é admirado,
tratado como igual e até idolatrado? Eu conheço inúmeros casos. Com o
tempo, depois de um conhecimento virtual prolongado, acabam por
acontecer os encontros reais, e a aparência, raça, condição social
deixam de ter importância. Nesses casos, a rede prestou um imenso
favor à saúde mental e social desses excluídos.
Dificilmente uma pessoa absolutamente saudável troca uma vida real por
uma vida virtual. Ninguém, de sã consciência, trocaria carinhos e amor
reais por sessões de sexo virtual. Se trocarem, é porque suas vidas já
eram vazias, e a rede deve estar dando algum sentido a elas.
Eu também sou uma admiradora da Internet. O mundo ficou globalizado
(palavrinha da moda cibernética), de fácil alcance. Hoje eu posso
entrar no Louvre a qualquer hora, sem sair de casa! Posso viajar para
qualquer parte do mundo na tela do micro. Posso fechar negócios,
trocar idéias em tempo real, ver pessoas do outro lado do mundo! A
Internet é uma grande fonte (a maior) de pesquisa imediata! Eu a
utilizo diariamente para minhas pesquisas literárias. Se alguém me
fala a respeito de uma pessoa célebre, da qual não detenho grande
conhecimento, eu clico no sítio de busca, e desnudo a obra de uma vida
em segundos!
Diria que o lado de relações humanas, tipo salas de bate-papo, é o
menos importante até! O outro lado da rede, o lado cultural e o lado
de agilizar a vida do homem, esse é o inestimável. Não se precisa mais
enfrentar filas, discutir em balcões, gastar sola de sapato para mais
nada! É claro que isso aumenta o sedentarismo, mas já há até as
academias virtuais!
A comparação com o “Admirável mundo Novo”, de Aldous Huxley, é
exagerada. Os padrões comportamentais não dão um salto de séculos ou
milênios. As coisas vão acontecendo lentamente, dando tempo ao homem
de ir se adaptando às mudanças. Há 60 anos não havia TV. Há 30 anos,
não havia homem na Lua, nem AIDS, nem tráfico de drogas dominando o
país. Há 20 anos não havia transplantes bem sucedidos. Há 10 anos
começava a Internet e o telefone celular. Há 05 anos não havia
“células tronco”. A cada década, as gerações que vão nascendo já vêm
ao mundo adaptadas. Hoje, qualquer criança de 05 anos mexe em
computador. Há 10 anos, muitos adultos não conseguiriam. O ser humano
tem uma incrível e assustadora capacidade de adaptação, haja vista os
governos deste país...
Não estamos vivendo uma ficção. Estamos vivendo uma realidade
prevista, divulgada através da ficção, por cabeças de vanguarda, que
imaginavam as coisas décadas, séculos antes de acontecerem
(antigamente eram chamados profetas).
Os meninos de hoje, formam seus grupos na rede. Jogam, trocam idéias,
discutem e até namoram através da rede. Mas são espertos, partem da
rede para o real. Meus filhos são exemplos disso: já fizeram amizades
com pessoas de outros estados, que tiveram oportunidade de conhecer
quando viajaram para as tais cidades. A rede aproxima as pessoas.
Quanto a namoros virtuais com exposição de fotos... o fato de ver
namoradas se despindo é uma opção de duas pessoas, não de toda uma
comunidade de usuários. Captar essa intimidade permitida para seus
olhos, salvando sem permissão e ainda distribuindo entre os amigos, já
é desvio de caráter, e é pessoal, não tem nada a ver com a rede. O
rapaz que faz isso há 30 anos era daqueles que beijava a garota e
espalhava para a rua que havia “avançado o sinal”. É um impotente.
Como os que adoram difamar a mulher, de maneira geral. No fundo, têm
dificuldades com o próprio sexo.
Iremos com a tecnologia aonde a mente quiser levar. Só usamos cerca de
10% da capacidade cerebral total, sabia? Se resolvermos utilizar os
restantes 90%... já pensou?
Não conseguiremos nunca a imortalidade. Isso é impossível, felizmente!
O mundo não caberia tanta gente e, aí sim, Huxley cairia de
pára-quedas sobre nossas cabeças atônitas.
A net não nos induz a comprar sonhos e prazeres, poder, amigos e
amores. A net possibilita que assumamos nossos padrões reais
camuflados, e soltemos, no virtual, nossa verdadeira personalidade. O
anonimato dá coragem, dá liberdade, dá abusos... Mas você paga por
eles, não pense que não! Na rede se faz, na vida se paga!
O ponto mais importante dessa abordagem interessante, é saber se a
rede vicia, do ponto de vista patológico, ou apenas libera o id,
reforçando o ego, com a ablação do superego (ablação parcial, pois há
normas de comportamento virtual, que é um capítulo à parte, que
deveríamos discutir mais adiante).
Sob minha ótica, a net facilita a exacerbação de desvios
pré-existentes, em função do anonimato e, portanto, da aceitação do
outro, independente de aparência, idade, sexo, raça, credo, cultura,
posição social.
Assim, o voyeur encontra terreno, como o artista marginal. O adicto em
sexo tem vários pratos cheios, sem ser perseguido. O tímido se revela.
O exibicionista se exibe. O galanteador se supera. O obeso tem paz. O
solitário consegue ótimas companhias. O suicida adia a morte. O chato
continua chato, mas não fica sabendo, ou deleta tudo.
Enfim, somos a era do computador. No entanto, somos humanos, do tudo
digital, do sorriso informatizado, mas necessitamos de calor para a
sobrevivência. E o PC precisa de ambiente refrigerado...
(14 de julho/2007)
CooJornal no 537
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com