Lílian Maial
MECANISMOS DE DEFESA |
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A cada dia, encontramos mais e mais pessoas preferindo a solidão, o
individualismo.
Curioso é esse não se apegar para não sofrer. Muito comum em homens,
agora também em mulheres.
Parece que fazem um engessamento das emoções, conseguem aparentemente
aproveitar uma boa companhia, programas agradáveis, curtir o momento
(ou alguns bons momentos), mas, quando percebem que aquela pessoa está
ficando muito próxima, pronto: ligam o “escudo invisível”, deixam o
coração no “automático” e simplesmente a descartam!
De muitas dessas pessoas ouve-se a mesma ladainha:
- “É meu jeito!”
- “Não consigo me apegar”
- “Preciso sair...”
No entanto, lá no fundo, de verdade, o que elas não sabem é amar.
Não conseguem se dar.
Possivelmente já foram muito magoadas, e deixariam qualquer
consultório de psicanálise com a sensação de “deja vu”.
E se odeiam por terem deixado que alguém, em algum dia, as tivesse
magoado tanto. Certamente juraram para si mesmas nunca mais sofrer de
amor. E não apenas de amor “homem x mulher”, mas qualquer amor.
Só que sofrem. E muito. Sofrem no escuro do quarto, sozinhos, quando
pensam que optaram pela solidão, pelos seus momentos de introspecção,
seu espaço, sua privacidade.
Sabem-se sós. Talvez até por uma opção mesmo, opção essa que se
impuseram tempos atrás, quando se entregaram e foram feridos.
Acreditam piamente que não foram feitos para o amor, para a vida
compartilhada, para a felicidade. Ao menos, não para essa felicidade
que a maioria das pessoas buscam junto com as outras.
Irritam-se com o apego do outro.
Querem sair, garantir a liberdade.
Embotam a paixão. Subvertem-na. Tornam-na aborrecida.
Realmente “não entendem” como podem despertar fascínio em alguém (como
se não fossem as pessoas mais cativantes antes de acontecer o apego).
O que ocorre é que elas, por não terem o aprisionamento de uma relação
estável e duradoura, dão sempre a impressão, à nova vítima, de que
possivelmente ela, a vítima, seja aquela pessoa que nunca foi
encontrada antes, aquela que reúne as características que eles tanto
buscaram nos outros, para então viverem um amor eterno.
Balela! Mais uma conversa para enredar os corações incautos.
Essas pessoas solitárias utilizam seu charme e sua liberdade para
atrair, para provocar, para seduzir, para induzir o novo eleito ao
desafio de se fazer amar.
Porém, logo ao primeiro sinal de perigo, quando o coração delas
dispara ao ver, ouvir, perceber esse eleito, senti-lo necessário,
perfeito, completo, é imediatamente acionado o mecanismo de defesa,
que faz com que a pessoa se lhes apresente como irritante, pegajosa,
chata, grudenta, e todo aquele charme, aquela sedução, aqueles
pequenos detalhes que as tornam tão atraentes, são subitamente
extirpados do dia-a-dia, sem um adeus, sem uma justificativa, sem um
motivo.
E lá se vai mais um rio de lágrimas atrás dos solitários por opção.
A pessoa apaixonada fica no ar, sem entender nada, sofrendo a dor do
afastamento compulsório, e essas pessoas que não sabem amar voltam
para seus quartos, para suas músicas, sua independência e sua vida sem
amor.
Até quando, hein?
Será que não lhes passa na cabeça que o homem não nasceu para ser
sozinho?
Que sua vida é um eterno dividir, começar, terminar e
recomeçar?
O que temem?
O que realmente as assusta?
Até hoje não sei a resposta, mas percebo que, a cada dia, mais e mais
pessoas se comportam assim, se defendendo do amor e da entrega.
Talvez seja um componente depressivo, um lado anti-social.
Ou apenas um egoísmo de proporções gigantescas, mas tão grande, que
nem elas mesmas conseguem controlar, gerando uma carapaça dura a ponto
de empedrar o coração.
Seja o que for, narcisismo, egoísmo, escolha, que não faça doer tanto,
que não deixe o apego acontecer, pois o outro, a vítima, o eleito,
esse não tem como adivinhar, não tem como se prevenir. Esse não tem
defesa.
(04 de agosto/2007)
CooJornal no 540
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com