11/08/2007
Ano 11 - Número 541


ARQUIVO
LILIAN MAIAL

 

   

Lílian Maial




UM POUQUINHO DE ÉTICA

  

Num momento em que o país atravessa mais uma de suas piores crises políticas, aonde todo tipo de falcatrua vem à tona, toda sorte (?) de pessoa cruza nossos caminhos, quer pelos jornais, quer pela TV, quer por um bate-papo informal, ou listas de e-mails, penso se não está na hora de se conversar um pouco sobre o significado da palavrinha ética.
Se recorrermos ao mais simples dicionário, veremos:

ética
do Lat. ethica, Gr. ethiké
s. f.,  ciência da moral; moral;
Filos.,   disciplina filosófica que tem por objeto de estudo os julgamentos de valor na medida em que estes se relacionam com a distinção entre o bem e o mal.

moral
do Lat. morale
s. f.,  conjunto de costumes e opiniões que um indivíduo ou um grupo de indivíduos possuem relativamente ao comportamento; conjunto de regras de comportamento consideradas como universalmente válidas; parte da filosofia que trata dos costumes e dos deveres do homem para com o seu semelhante e para consigo; ética; teoria ou tratado sobre o bem e o mal; lição, conceito que se extrai de uma obra, de um facto, etc. ;
s. m.,  conjunto das nossas faculdades psíquicas; o espiritual;
adj. 2 gen.,  relativo aos costumes; que diz respeito à ética; relativo ao domínio espiritual.

Bem, diante dessa mínima definição, quando se fala em ética, se está falando de bem e mal.

Pois bem, e a partir de quando devemos pensar em nos tornarmos éticos? Em que tipo de relação entra a ética? Seria só nas áreas profissional e política? Há necessidade de ética nas relações humanas? O homem nasce ético?

Este artigo visa trazer à baila a questão de responsabilidade sobre os destinos da nossa vida, da vida do outro e da nação. Justo neste momento há uma verdadeira batalha de acusações de políticos, partidos, homens públicos, eleitos pelo povo, tentando justificar o injustificável, tentando disfarçar o vilipêndio dos direitos do cidadão.

E onde será que aquele homem deixou de ser ético? Rouba porque todos roubam, é assim?

E o médico, que vende ou dá atestado de saúde a alguém que nem examinou, onde aprendeu sobre ética? A falta de remuneração justa perdoa o ato em si?

E o professor, que passa um aluno de ano, pelo simples fato do sistema assim o exigir, mesmo sabendo que tal aluno nada sabe? Sente-se ético jogando a culpa no sistema?

E os pais, que deixam de dar atenção aos filhos, não ligando para suas pequenas crises, não querendo saber de suas dificuldades e suas vitórias do dia-a-dia, mas comprando sua amizade e sorriso furtivo com presentes, são éticos?

E o casal que empurra um casamento falido com a barriga, alegando inúmeros motivos, todos válidos, mas sem o entendimento necessário e o conforto que se prometeram diante do padre ou juiz, são éticos?

E o cidadão, que passa na rua e vira o rosto para não enxergar o irmão sem teto, sem dignidade e sem futuro, é ético? Aquela esmola é ética?

Está certo, não vamos aqui, de repente, nos tornar apóstolos, nos despojar, abandonar a vida que traçamos, ou que nos foi convenientemente traçada. Nada disso! Não vamos nos tornar bons samaritanos de uma hora para a outra. Muito menos seremos bonzinhos, beatos e daremos a outra face. Não se trata disso. Trata-se, porém, de buscarmos, no fundo de nossa alma, num mergulho ousado e verdadeiro, um mergulho que atravesse camadas de lama, de esquecimento, de vergonha e traição, de ódio, vingança e desamor. Certamente também estratos de altruísmo, carinho, amor, dedicação, estratos esses um tanto desordenados, ou de limites invadidos pelos outros já citados.

Agora, aproveitando a onda de corrupção, decepção e revolta, é hora de estudarmos um pouco sobre ética, sobre o quanto somos éticos e temos obrigação de sê-lo desde que nascemos, o quanto não exercitamos, dentro de nossa própria casa, de nossa própria comunidade, com nossos próprios filhos e parceiros.

Não estou confundindo ética com amor. Você pode amar alguém e driblar a ética. Pode até respeitar alguém e falhar na ética, uma vez que ela tem mais a ver com o bem e o mal, e sempre nos achamos muito acima do bem e do mal. É sim, temos invariavelmente dois pesos e duas medidas, tendendo a uma condescendência com nossa própria mesquinhez, que teimamos em não ver, mas que está lá, suficientemente camuflada de desculpas perfeitamente encaixáveis, como o pai que mal vê o filho porque o trabalho o consome; ou o que o impede de brincar com determinado brinquedo para não estimular a violência, sem perceber que a proibição é, em si, uma enorme violência; ou a mãe que não pode ajudar nos trabalhinhos da escola porque não pode perder o capítulo da novela; ou o chefe que não promove o funcionário humilde porque ele não se beneficiaria, já que não se interessa em progredir, caso contrário não estaria ainda naquela função medíocre.

Enfim, mais do que amor, este país está precisando de um banho de ética. Aliás, o país não, o mundo todo, porque já não suportamos mais Bushes e Ladens, burkas e excisões, fome e ostentação, droga e silêncio, violência para acabar com a violência, propina e corrupto, carrasco e vítima, ser humano desumano.

Está na hora do bem, da ética, da moral, do altruísmo, da confiança voltarem para dentro de nós, de onde nunca deveriam ter saído.

Não estou querendo fazer apologia da censura ou da caretice, muito ao contrário, mas daquilo que nos invade em determinados momentos coletivos, como em torcidas de copa do mundo, como o orgulho de medalhas olímpicas, como o peito cheio de se dizer brasileiro quando um dos nossos sobe ao podium, ou quando alguém fala de Jobim, Villa Lobos, Niemeyer, Pitanguy, Lobato, Cecília Meireles, Fernanda Montenegro, Tarsila do Amaral e outros tantos. Isso, esse orgulho e essa solidariedade súbita que nos invade nessas horas, essa vontade de ver todo mundo bem, de ajudar aos menos favorecidos, mas, acima de tudo, essa sensação de bem-estar de se saber verdadeiro e ético, como nosso irmão ali ao lado.

O “levar vantagem em tudo”, a famosa “Lei de Gérson”, precisa ser rapidamente substituída pela Lei de Algum Outro Jogador de Futebol Iluminado, uma lei que diga: “gosto de ser ético em tudo”, e que cole, que vire jargão nacional, que vire campanha publicitária, que vire lema de vida! E falando eticamente: só depende de nós.



(11 de agosto/2007)
CooJornal no 541


Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br 
lilianmt@globo.com