Lílian Maial
E SE
ELE FOR EMBORA?
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Elaine tem 19 anos de
casamento, dois filhos lindos, muitos sonhos, muitas buscas e um gênio
bastante difícil, que ela mesma reconhece. Porém, apesar de prós e
contras, tem um amor imenso em seu peito, e um desequilíbrio conjugal
equilibrado. Casou-se muito cedo, podando muitos sonhos, embora sempre
achasse que valera a pena, pois tinha uma família linda, certamente
invejada por muitos.
De uma hora para outra, um mundo inteiro desabou sobre sua cabeça: o
marido confessou estar apaixonado por outra mulher. Elaine trancou-se
no quarto, chorou todas as lágrimas até secar a fonte, imaginou-se a
mais desgraçada e insignificante mulher do mundo, achou-se feia,
gorda, sem trato (porque toda mulher tem a tendência machista de
sempre pensar que a culpa da traição do marido é dela).
No fundo, Elaine não estava nada disso, estava normal, ainda jovem,
bonita e cheia de vida, talvez apenas sem muito tempo para si, já que
se dedicou por completo àquela família, esquecendo dela mesma pelos
outros. Esse talvez tenha sido seu maior erro, e de todas as mulheres
que assumem para si a responsabilidade única de manutenção da família,
da casa, dos filhos, enquanto os maridos saem a trabalho e fim. Eles
naturalmente, se divertem, encontram mulheres mais bem cuidadas,
solteiras, sem filhos, sem problemas, corpos delineados por horas de
academia, horas essas que Elaine dedicava aos filhos e a casa, para o
bem-estar do companheiro, que não ligava a mínima para nada disso, e
preferia mantê-la assim, alienada, ocultando dela, senão interesses
extra-conjugais, talvez seus sonhos e anseios não correspondidos, o
que não deixa de ser uma traição.
Aí, de repente, Elaine se viu num abismo, acreditando que toda a
dedicação de tantos anos foi em vão, que todos os sonhos deixados de
lado foram inúteis, que todo o sacrifício de nada valeu. Sente-se
agora vítima das circunstâncias, sente-se pequena, sente-se inferior.
Contudo, Elaine se esquece que sempre fora feliz assim, como estava.
Que adorava cuidar da casa e dos filhos, que amava a vida em família
que teve todos esses anos. Então, como poderia pensar que de nada
valeram esses anos? Ao menos lhe valeram dois lindos filhos, e isso
apenas para começar, porque basicamente tudo valeu, para formar a
mulher que hoje Elaine é.
E se ele for embora?
Essa pergunta não saía da cabeça de Elaine, e se repetia, se repetia e
se repete, aumentando o desespero, e estreitando o campo de visão dos
fatos.
De fato, o que aconteceu foi um desgaste natural de toda relação, não
só a dela. Engano imaginar que todo casamento é plenamente
satisfatório para ambos os lados, que não é. O que ocorre é que a
mulher cala, porque prefere manter a família e o status acomodado e
aparentemente seguro de dona-de-casa, esposa e mãe.
Elaine não consegue se ver sozinha e na luta, porque esqueceu que tudo
o que fez na vida nesses anos de casamento foi lutar, lutar por sua
felicidade e a do marido e filhos, enfrentando, como guerreira,
inúmeras dificuldades.
Se hoje não há mais essa felicidade, nada de Elaine chorar, achando
que nunca houve, porque ela sabe que foi feliz e que fez a todos
felizes. Houve o desgaste, e nada foi feito, no sentido de reacender
velha paixão, ou buscar novos caminhos a dois.
E se ele for embora?
Se ele for embora, Elaine vai ficar. Vai ficar com os filhos, que são
seu maior tesouro. Vai ficar com a certeza de que foi fiel ao
compromisso do casamento. Vai ficar com as boas lembranças. Vai ficar
bastante triste e abalada por um bom tempo. Vai ficar frágil, chorosa
e vulnerável. Mas... Vai sobreviver! Vai arregaçar mangas, porque
mulher nasce resiliente. Vai descobrir que é forte, é batalhadora, é
capaz e é linda! Vai galgar os degraus do entendimento das coisas,
rever seus valores, re-equilibrar os filhos, fazer balanço de gastos e
ganhos, administrar a perda.
Todo caminho tem duas escolhas. Toda perda tem seu ganho. Toda
tristeza tem alguma compensação. Tudo no universo é yin e yang,
positivo e negativo, côncavo e convexo. Tudo sempre se encaixa, e o
que não tem remédio, remediado está, ou se parte em busca de medicina
alternativa. O que não se pode é viver acreditando que tudo é ruim.
E se ele for embora?
Se ele for embora, Elaine vai redescobrir a fêmea, vai se cuidar mais,
vai se amar melhor, vai se tornar um tiquinho mais exigente, e se
valorizar. Elaine vai retirar do baú seus velhos sonhos, e lutar para
colocá-los em prática. Vai se reerguer sozinha, vitoriosa, cônscia de
seu potencial e de suas inúmeras qualidades como mulher. Vai se
preparar para futuras relações mais maduras e, quem sabe, mais
satisfatórias, uma vez que não aceitará menos do que sabe merecer.
E se ele for embora?
Que seja feliz! Porque Elaine vai surgir plena e maravilhosa, sem
remoer mágoas, sem guardar sentimentos negativos, porque a nova mulher
não tem pena de si, porquanto se sabe linda, intensa e cheia de amor.
O maior amor de todos, que é o dela por ela mesma. E não haverá
ninguém que a convença do contrário nunca.
(18 de agosto/2007)
CooJornal no 542
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com