Lílian Maial
MARIDOS & AMANTES |
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Tenho a nítida impressão,
baseada em observação, que há homens que nasceram para maridos e
outros, para amantes. Em tese, todo bom marido acabaria se tornando
excepcional amante, e vice-versa. Mas a realidade é bem outra. Assim
como eles reclamam que a mulher depois que se casa (como se isso fosse
objetivo de vida de alguém – ao menos não deveria ser) fica tranqüila
e não liga mais para os “sacrifícios” que fazia antes para estar
sempre bela e atraente – incluam-se aí dietas espartanas, saltos 10,
depilações carniceiras, ginástica atropeladora, busca de cosméticos,
etc – eles também terminam por se acomodarem na santidade do lar, e já
não acham tão necessário os cheiros, a barba tão bem escanhoada, os
cuidados com as novidades nas roupas e, principalmente, nas íntimas,
as caras e bocas de conquistador, as palavras doces e as mais picantes
nas horas certas, o clima de romance, enfim, todo aquele arsenal que
eles sabem tão bem utilizar quando querem se chegar.
Pois bem, há aqueles que adoram a vida caseira. Não trocam por nada o
sábado no shopping, o cineminha, o lanchinho depois, a TV com
pastinhas e Coca-light, o friozinho pra colocar aquela meia de lã e
assistir ao futebol deitado ou recostado em sua cadeira cativa.
Sentem-se bem com um almoço no Domingo, em família, após a leitura
completa do jornal de Domingo, até os classificados. Claro que
esquecem naturalmente de passar pela cozinha nas duas horas que
antecedem o almoço e na hora seguinte ao seu término. Claro que nem
imaginam que a esposa gostaria de outro programa, já que ela sempre se
mostrava tão satisfeita nos últimos 10 anos fazendo aquilo com prazer.
Claro que ele a procura com ternura para fazer amor à noite (sempre
depois do Fantástico) e quando as crianças estiverem dormindo, não
importando muito se ele e ela também estiverem com sono, ou se aquele
quarto já não crie mais o velho clima de sensualidade que rolava
antes, afinal, fazer amor com ela é sempre bom.
Mas, há aqueles que não servem para essa vida. Aqueles que não
conseguem aquietar o facho com o casório, e não perdem o jeito galante
e conquistador. Pena que esse apenas entre em ação... Fora de casa!
Sim, porque para sua esposa ele continua sendo aquele maridinho
especial, das tardes de Domingo, que compra o franguinho na padaria e
traz o pão quentinho para o lanche. Nem imagina a pobre - que se
tortura em imaginação para fazê-lo ser um garanhão - que ele já cantou
as mulheres todas na rua, senão com palavras, com olhares fantasiosos,
em seu trajeto de ida e volta. E, ao invés de chegar e arrancar as
roupas da madame e levá-la para a alcova, vai para o banheiro ler a
revista masculina que acaba de disfarçar por entre as folhas do
jornal.
É, a coisa está feia. Homens e mulheres em eterna busca do par ideal.
Passam anos e anos juntos, jurando que o outro é exatamente como ele
pensa, mas não fazem a mínima idéia do que realmente se passa entre
aquelas quatro paredes.
Falta de diálogo? Costume? Desamor? Será que o amor acaba com os anos?
Será que dá lugar a um sentimento de amizade, mas totalmente (ou
quase) assexuado?
Pudessem as esposas ver seus maridos no escritório, ou consultório, ou
mesmo nos restaurantes onde almoça durante a semana de trabalho...
Pudessem os maridos ver suas esposas caseiras como se transformam com
os colegas de trabalho, com as idas à escola do filho nos dias em que
aquele professor de Educação Física vai recebê-lo, ou nos dias em que
simplesmente resolve testar seu poder de fogo na condução...
E por que então esses homens e mulheres têm esse comportamento tão
diverso quando a sós e quando distantes dos parceiros?
Quem sabe aquele parceiro não tolha a sensualidade que brota
espontaneamente do outro?
Ou, ao contrário, a parceira não perceba ou demonstre perceber o
quanto aquele homem pode ser sexy, mesmo acima do peso?
Ou, pior ainda, não falte justamente aquele elogio, aquele presente,
aquela gentileza que aflora na presença de estranhos?
Na minha opinião de mulher não tão vivida, mas observadora das reações
humanas e, notadamente, nas relações virtuais, é uma mistura de tudo
isso, mais a excitação que o novo, o desconhecido, o desafio da
conquista exerce sobre nossa natureza de predadores. O homem e a
mulher, indistintamente, têm esse instinto de conquista. Infelizmente,
ainda em nossa sociedade, isso está muito encoberto na mulher,
disfarçado em pequenas coisas, como barganha para conseguir desconto
num produto, ou usar da sedução para angariar atenção para algum
tópico, ou ainda a fala tagarela e insistente para conseguir o que
quer. Mas não se iludam, que o fundo e o objetivo são o mesmo para
ambos: poder e conquista. É desde criança assim. A criança dá mais
valor à quantidade de presentes do que ao seu valor individual. Ela
quer conquistar a cada novo embrulho... Depois todos perdem a graça,
exceto aquele pelo qual ela realmente esperou.
Assim somos nós, só que após conquistarmos o que realmente esperamos,
brincamos bastante e acabamos por desejar que o brinquedo tivesse mais
brilho, ou mais mobilidade, ou pernas mais longas, ou controle-remoto,
enfim, amamos o brinquedo, mas o queríamos evoluindo conosco.
Portanto, marido (ou esposa) & amante são parceiros para um casal
feliz. E o ideal é que não haja a necessidade de um trio para isso,
não é mesmo? Ambos, marido (ou a esposa) e amante, podem e devem
conviver na mesma pessoa. Basta apenas estar atento ao outro e que o
outro esteja atento da mesma maneira. Difícil essa sintonia? Nem
tanto... O primeiro passo talvez seja ambos lerem esse artigo...
(25 de agosto/2007)
CooJornal no 543
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com