Lílian Maial
DE LUTOS E RESSUSCITAÇÕES |
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Conhecemos como “luto” o estado de lamentação e sofrimento pela perda
de parentes próximos, como pais, filhos, cônjuges e irmãos.
“Fulano está de luto”, e entende-se que faleceu alguém da família.
Nem sempre. Lutos podem estar relacionados a crises, e sem a
necessidade de um óbito.
As perdas, de maneira geral, desencadeiam nas pessoas um processo
semelhante, onde a idealização (depois da perda) leva a crer que,
antes, tudo era perfeito.
Falso isso. Na maioria das vezes, o que se perdeu – excluindo aí as
perdas trágicas – se foi perdendo ao longo de um vasto caminho. A
perda foi gradativa, foi negligenciada, foi, em alguns casos,
desejada, porém, por conta de inúmeros sentimentos arraigados, tende a
ser idealizada como algo que era bom e que nos foi tirado.
A perda de status, perda de função ou cargo de confiança, perda
de investimentos, perda de um grande amor, a separação conjugal, a
saída dos filhos de casa, a perda da fertilidade (nas mulheres, com a
menopausa) e da virilidade (nos homens, com o fantasma da impotência),
a aposentadoria, a limitação física, a perda da juventude, são também
lutos a serem trabalhados, sempre com todo o cortejo de dor e
dilaceração do peito.
A mulher, de maneira geral, tende a vivenciar o luto com mais entrega,
com mais paixão, e é algo bastante compreensível, pela emotividade
exacerbada.
Uma amiga querida está atravessando um desses lutos. Jovem ainda, se
viu diante de uma separação conjugal, que, por si, já é um luto, porém
esse veio ladeado por outros. Essa amiga se dedicava quase que
integralmente à família, deixou de trabalhar, deixou de realizar
atividades sociais sozinha, cuidava do esposo e filhas, trazia a casa
sempre um brinco. Vivia com folga financeira, uma vidinha estável, até
mesmo um tanto monótona, como a ouvi algumas vezes reclamar. De
súbito, a separação inesperada e a dor da perda do homem amado. Do
homem com quem se acostumou às qualidades e defeitos, ao companheiro
de quem tanto reclamava, e que, de repente, passou a ser o homem
ideal.
Junto dele, a perda da casa, onde morou todos os anos do casamento, a
perda do status de casada, a perda dos amigos comuns, do clube,
perda financeira. E tentar se acostumar com a cama vazia, o armário
vazio, a casa vazia.
Essa amiga chorou todas as lágrimas que julgava ter, rasgou cada fibra
de que imaginava ser feito seu coração, lamentou cada palavra não
dita, cada carinho deixado para depois. Apavorou-se com a
responsabilidade de criar as filhas sozinha, fazer compras sozinha,
planejar a vida sozinha. Entrou em pânico com a possibilidade de
adoecer sozinha. Foi ao fundo do poço, se isolou, se maldisse. Depois
criou coragem e amaldiçoou seu homem, seu ex. Daí imaginou
outra em seus braços e se olhou no espelho. Viu-se feia, gorda, mal
cuidada. E chorou mais lágrimas guardadas não sabia onde.
Como todo luto, o tempo trata de amenizar a dor, e os caminhos vão se
abrindo, o céu vai clareando, e tudo tende a tomar seu rumo e seu
lugar. No entanto, o luto é uma ferida que não fecha completamente. Ou
melhor, fecha, mas a cicatriz vai estar para sempre lá, à mostra para
quem quiser ver, e geralmente quem vê é quem perdeu.
Não se pode esquecer de um filho, só porque ele se foi. Pode-se até
ter mais meia dúzia de filhos lindos e queridos, mas o que se foi
nunca deixará de ser um filho que se foi. A perda deixa cicatriz para
lembrá-lo.
Assim são todos os lutos. Não adianta tentar arrancar um amor perdido
do coração, que a cicatriz das doces lembranças vai se aguçar a cada
música dos velhos tempos, que tocar em alguma rádio desavisada. Ou a
cada cheiro conhecido. Ou a cada paladar familiar. Ou a cada lugar
antes freqüentado a dois.
A vida é a busca eterna da felicidade, obstruída pelas perdas.
A felicidade é algo que normalmente só se dá conta depois que se
perde.
A perda é a constatação de que se era feliz, ou a ilusão de que se foi
feliz alguma vez.
No fundo, a felicidade não pode estar atrelada a uma outra pessoa, ou
a uma condição social. A felicidade é um estado de autoconhecimento e
auto-satisfação, que só pode ser alcançada pelo próprio indivíduo e
suas realizações. Uma pessoa feliz pode atrair e se sentir bem ao lado
de outra, mas essa outra nunca poderá ser a responsável pela
felicidade de seu par.
Ou seja, a felicidade é individual, o bem-estar é coletivo.
E o luto só é trabalhado e resolvido, se a perda for entendida como
sendo de um fato, uma situação, uma companhia (mesmo que da vida
toda), e não da pessoa em si. Aí, é o momento de se suturar, fazer
curativos diários, até que só reste a cicatriz risonha e corrosiva,
aquela que irá relembrar fases boas e ruins, mas que pertencem ao
passado e assim devem permanecer. É como a infância, que perdemos e
sentimos muito, mas deixamos para trás, apenas como boas lembranças,
para abraçarmos o futuro, seguirmos adiante e ganharmos uma nova
condição de vida, com novos horizontes e novas chances de recomeçar.
Então, é entender a perda, assimilar e guardar as boas lembranças,
agradecer a oportunidade de ter vivido aquilo tudo, e ceder lugar à
nova pessoa que ressuscitará daquela perda, para avançar na caminhada,
ousar novas conquistas, sem medo das perdas futuras, que
inevitavelmente virão, pois que a vida é uma gangorra, onde devemos
usufruir os “altos”, porém entendendo que há os “baixos”, e depois
novos “altos”, e novos “baixos” e por aí afora.
(22 de setembro/2007)
CooJornal no 547
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
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lilianmt@globo.com