Lílian Maial
Resiliente |
|
Desde que me entendo por gente, me considero uma pessoa otimista,
positivista, bem resolvida, de bem com a vida, e inúmeros adjetivos
que vieram se acumulando com os anos, em virtude da minha capacidade
de ver o mundo e a vida com olhos poéticos.
Lembro-me de um livro na infância que muito me marcou: Pollyanna, de
Eleanor H. Porter, que talvez tenha sido o marco da minha decisão de
ser inquebrável e transformadora, como a pequena heroína da história.
Costumo de dizer que sou como as palmeiras na tempestade, que se
envergam ao máximo, quase tocando o chão, porém não se quebram,
retornando à posição ereta e ainda balançando a cabeleira. Ou ainda
uma camaleoa, com a capacidade de me modificar e me adaptar ao
ambiente. Ou, quem sabe, uma lagartixa, que se regenera após um corte.
Poeta que me sei, vejo-me algo como uma camatixeira (camaleoa,
lagartixa e palmeira).
Porém, com a opção de meu filho de fazer engenharia, ganhei um novo e
interessantíssimo adjetivo: resiliente. Não sei se apenas resiliente,
ou uma palmeira resiliente, uma lagartixa resiliente, ou ainda uma
camaleoa resiliente.
A resiliência é um termo da física, que se traduz pela capacidade dos
materiais de resistirem a choques. Ela pode ser avaliada em termos de
dureza (cujo diamante parece se destacar), tenacidade (capacidade de
resistir ao rompimento – como o titânio), e resistência à corrosão
(onde o aço é o ator principal).
Não que durante o fato desencadeador do trauma eu não me descabele,
não sofra, não deprima, não chore e esperneie. Claro que sinto: sou
humana! Contudo, algo dentro de mim se recusa a permanecer por muito
tempo na condição de vítima, de frágil, de coitada. Algo dentro de mim
se regenera, se ergue, se apara as arestas, se recompõe. Céus! Teria
eu um alien resiliente por dentro?
Depois de ouvir meu filho e pesquisar sobre resiliência, cheguei à
conclusão de que não há nada mais resiliente, no universo do meu
conhecimento, que o ser humano. E que o mentor dessa resiliência é o
imenso amor que se carrega por dentro (que alguns poderiam chamar
deus), aliado a uma segurança e auto-estima, certamente conquistados a
duras penas.
O amor dentro do peito é tanto, que não suporta, ou melhor, supera o
sofrimento e a dor, a perda, a solidão, o fracasso. O amor é tão
positivo, que suplanta a negatividade e a expulsa de seus domínios.
Então vem o perdão (a mim e ao outro, que me causou dano), vem o
alívio e a clareza. Daí a regeneração. Daí a absorção do impacto e a
devolução da energia elasticamente de forma positiva. Por isso alguns
dizem que sempre se sai fortalecido de uma pancada bem dada. É a
resiliência, e a resiliência tem como mentor o amor por si e pela
vida.
E é essa capacidade do individuo de garantir sua integridade, mesmo
nos momentos mais críticos, que o torna insuperável por qualquer outro
elemento da natureza.
Não posso afiançar se isso se trata de potencial genético, de relações
familiares fortes na infância, de cultura ou tradição. Seja como for,
não se é resiliente sozinho. Há bastidores no show do indivíduo
resiliente, que pode ser um objetivo de vida, um amor, alguém da
família, toda uma família. Não necessariamente apenas por apego.
Talvez o resultado de apoio, de otimismo, de dedicação e amor, idéias
e conceitos, que entram como intervenção e resultado.
O que sei é que o mundo precisa, mais do que nunca, dos resilientes, e
que nós todos podemos fazer parte desse conceito.
(29 de setembro/2007)
CooJornal no 548
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com