Lílian Maial
Consciência Multicor |
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Há alguns anos, começamos a ter, no calendário, uma data de comemoração da
"Consciência Negra", numa espécie de apelação populista, ao ser criado o feriado
em homenagem a Zumbi - tentativa de mostrar a importância da negritude em nosso
país, estado, município.
Nunca "igualdade" foi uma palavra tão gasta!
Como se a desigualdade fosse apenas em relação à cor da pele...
A cor da pele é mais um detalhe.
Entre os homens, vence a força, o poder, o domínio, o imenso ego.
Isso de luta de raças é pano de fundo para uma verdade bem mais ampla, que é a
luta de classes e de minorias.
Num poema que escrevi sobre o tema, coloco que "Zumbi seria branco, se negro
fosse o feitor". E é exatamente isso! Zumbi era negro e virou símbolo de
negritude, porque o feitor, o senhor de engenho, o poder eram todos brancos.
Fosse o inverso, e Zumbi seria um branco. A cor da pele é mero detalhe. A luta é
por algo bem mais abrangente, e remonta a épocas bem anteriores.
Cristo, que eu me lembre, era branco.
Os judeus, na segunda guerra, eram brancos.
Che Guevara era branco.
A mulher pode ser da cor que for, que será minoria de força, porque a própria
mulher dependente segrega a independente, a forte, a que se sacrifica por um
ideal maior.
A pele é flor, é adereço, é beleza e perfume, é enfeite da vontade.
Zumbi hoje ficaria revoltado com a "homenagem", uma vez que a sociedade não
libertou os negros, e eles mesmos não se livraram dos grilhões, se colocando
numa situação de separatismo inconcebível, verificado nos grupos de difícil
penetração, nas letras de músicas funk, no medo embutido nos olhares em cada
esquina, nas vergonhosas vagas marcadas em universidades, nos vidros dos carros
rapidamente erguidos ao menor movimento de aproximação.
É, a coisa está feia, o tronco persiste de maneira subliminar, e o negro acaba
aceitando as migalhas de honra, como se não fosse capaz de vencer como qualquer
branco. Tem de gritar e gritar muito pelas oportunidades, como têm de gritar as
mulheres, os homossexuais, os muçulmanos, os judeus, os índios, ou qualquer
grupo minoritário em força e poder.
Isso de "consciência negra" não deixa de ser um tributo à separação, um imposto
pago por ser negro, por ter apenas um pouco mais de melanina. Não faz sentido,
porque a cada dia nasce um Zumbi em toda parte, seja na China, no Irã, no Acre,
no Congo, em cada esquina, alguns do sexo masculino, a maioria do sexo feminino.
Zumbi não morreu e nem venceu a luta.
Ela está nas ações de todo dia, na retina, nos poros, na adrenalina.
Não pode ser calado por esmola, por benesses, mas por direitos iguais, por
oportunidades universais para brancos, negros, amarelos, vermelhos, homens e
mulheres, afinal, isso é um país miscigenado, jovem, rico e hospitaleiro, e
nosso povo é reflexo dessa mistura de raças.
Está na hora de acabar com datas, clãs, feudos e partir, definitivamente, os
grilhões que ainda sustentam a indiferença, a submissão e o preconceito.
(24 de novembro/2007)
CooJornal no 556
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com