Lílian Maial
TUDO O QUE SE QUER É SER FELIZ |
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E fazer feliz, e ser
apenas amor.
Mas é tão difícil
entender o outro, perceber suas necessidades, ou fazê-lo compreender
nossos anseios.
Como é possível, se
existe amor, haver tanta barreira, tanto empecilho, tantas mágoas,
preconceitos, recalques guardados, diferenças?
Por que reabrimos
nossas chagas, tentando culpar por elas, justamente quem pode,
efetivamente, curá-las? Não sei as respostas, mas percebo que esse é
um comportamento repetitivo.
No início do
relacionamento, tudo é muito comedido, tudo muito controlado, nenhum
dos dois quer causar má impressão. De repente, em pouco tempo, o outro
já sabe muito de nós, parece que confiamos que ele deva mesmo nos
“conhecer’ a fundo, que deva estar a par de todas as nossas
reentrâncias da alma e do coração.
Penso que aí esteja
o problema: ninguém quer ficar o tempo todo descobrindo os defeitos um
do outro, suas idiossincrasias, suas mazelas. Podemos até ser
tolerantes e compreensivos, mas isso vai cansando.
Além do fato que, na
maioria das vezes, vão se desenhando, bem lá no pano de fundo de
nossas mentes, aquelas comparações inevitáveis com pessoas que já
passaram por nossas vidas, e que nos marcaram de forma positiva (e as
negativas também, certamente).
O ser humano tem
essa coisa de impregnação, de tatuar o que lhe dá prazer.
Desde pequenos vamos
armazenando informações sobre bem e mal, sobre prazer e dor, sobre rir
e chorar. E, quando crescemos, tais dados, como num computador de
última geração, estão ali, com seus arquivos pesados, a nos fazer
lembrar do quanto se pode ser feliz, desde que... haja um ajuste na
máquina. Mas será que aquela máquina quer ajuste? Será que precisa
mesmo? Ou é nosso programa, nosso “software” que não é compatível ou,
pior, não está bem configurado para aquela máquina?
Se levarmos em conta
que isso acontece em mão dupla, ou seja, o outro também tece as mesmas
expectativas a nosso respeito, percebemos o quão fácil é deixar a
relação cair num abismo.
Por outro lado, se
nós temos a consciência de nossas tendências egoístas e
exibicionistas, fica mais simples tentar mostrar ao outro o que se
passa e, dessa forma, manter a relação estável, livre dessas ameaças
tão corriqueiras para quem ama.
Amar não é aceitar
tudo e se anular, mas tentar crescer na felicidade mútua, respeitando
espaços, notando as diferenças, incentivando o auto-conhecimento e a
doação.
Para isso,
certamente precisamos nos conhecer bem, aceitar as eventuais falhas,
buscar corrigi-las, ou, na melhor das hipóteses, atenuá-las, para que
elas não dominem o amor, não contaminem o ser amado, não estraguem
tudo.
Controlar a nós
mesmos é, aparentemente, mais fácil que comandar o que se passa na
mente do outro. No entanto, se nossa personalidade é forte, muito
forte, beirando a teimosia, talvez não enxerguemos (a tempo) o que se
passa, e caiamos nas armadilhas do orgulho, da “dignidade”, que é um
certo grau de egocentrismo disfarçado.
Qual a solução,
então?
Posso estar
enganada, mas a mim, me parece que seja manter uma constante
vigilância sobre nós mesmos. Nada muito neurótico, doentio. Não!
Apenas para não resvalarmos nas tramas cruéis que a intimidade nos
proporciona.
Passamos a vida toda
fechados em nossa profundidade. Não abrimos a guarda para estranhos,
não mostramos nossas fraquezas, justamente para não sermos alvejados,
abatidos, traídos.
Pois bem, quando nos
apaixonamos, quando pensamos ter encontrado aquela “alma gêmea”, o
amor dos nossos sonhos, a primeira coisa que queremos, depois de
adquirirmos confiança no outro, é sufocá-lo com todas aquelas
informações guardadas ali, por tanto tempo, acumuladas de bolor.
Queremos derramar no outro todas as nossas dores e cicatrizes
amontoadas em neuroses, em frustrações, em hábitos esquisitos, em
comportamentos estereotipados, sempre na certeza de que ele, o nosso
grande amor, há de entender tudo e participar da resolução de nós
mesmos.
É aí que mora o
grande engano!
O amor não é caixa
de ferramentas, não é curativo para mazelas.
O amor, ao
contrário, precisa ser poupado de tudo, precisa ser tratado como uma
frágil e rara flor, que requer cuidados diários, regas freqüentes, mas
não ser alagada, sob risco de vermos as raízes apodrecendo lentamente.
O amor é lindo, é
forte, é maduro, suporta todas as coisas... pode ser, mas a paixão,
essa não. E, cá pra nós, como diz a letra da música da Rita Lee, amor,
sem paixão (que inclui o sexo) é amizade... e até nossos melhores
amigos se cansam de nossos muros de lamentações.
O amor não suporta a
chatice.
O amor requer
inovação. E o que é inovação? É reinventar o que já existe. Dar-lhe
uma forma mais atraente e agradável, torná-lo desejável, necessário,
por mais que tenha sido, outrora, supérfluo.
Agora, voltando ao
início do texto, tudo o que se quer é ser feliz, é fazer feliz, é ser
apenas amor. Mas será que sabemos mesmo como? Será que não relaxamos,
em pouco tempo, e deixamos a florzinha lá, sozinha, sem rega? Será que
não passamos a nos preocupar mais com o fato de possuir a flor, do que
realmente desejar vê-la crescer saudável, podando e removendo as
pragas e ervas daninhas?
Tenho refletido
muito sobre isso, sobre relacionamentos longos e felizes e sobre os
curtos e infelizes. Ambos, com certeza, com o mesmo amor, mas com
cuidados bem diferentes.
Reparo em casais
felizes há anos, vejo que se admiram, se respeitam, se incentivam,
trazem nos olhos e nos lábios o orgulho de ser, cada um, parceiro
daquela pessoa, exatamente do jeitinho que ela é, sem tentar
modificá-la, porque entendem que, assim, não seria mais ela.
Observo que a
entrega é parcial, não há anulação, há sim, espaços demarcados e
respeitados. Espaços esses que foram avançando lentamente, sem dor,
sem imposições, sem traumas. E não falo de mulher ceder ao homem em
tudo, se tornar dona-de-casa dedicada. Não, nada disso! Falo de
divisão de responsabilidades sobre o amor. O homem é peça
chave, nos dias de hoje, para a manutenção do amor saudável. Ambos
precisam se sentir seguros desse amor, para não viverem o ciúme
doentio, mas não tão seguros a ponto de pensarem que o outro não sofre
tentações, ou que aceitaria qualquer “deslize”. Há que pairar esse
mistério, essa magia, esse cuidado consigo e com o outro. Esse medo
mesmo de perder.
É comum, depois que
o amor é reconhecido e confirmado, vermos um dos elementos do casal se
descuidando com a aparência, com os modos, até com o linguajar.
Gentilezas, tão apreciadas antes, são simplesmente esquecidas.
Bilhetinhos, pequenos carinhos, pequenas lembranças, mimos, coisinhas
que demonstravam antes o cuidado que se tinha com o outro, agora são
passado. O outro ama mesmo, não é? Para que, então, a preocupação de
ficar agradando?
Pois aí está o
grande engano: quanto mais velha a relação, maior a necessidade de
cuidado, de afirmação do amor, de inovação.
Isso não é receita
de bolo, mas sim o resultado de anos de observação e, por que não
dizer, sofrimento e lágrimas, além de muitos risos e momentos
inesquecíveis.
Se o que se quer é
ser feliz, então que trabalhemos para isso, todos os dias, todas as
horas, todos os minutos de nossa vida.
O que está esperando
aí? Levante, ligue para o seu amor, encomende umas flores, busque
aquele cartãozinho meloso, prepare o ninho, faça a janta à luz de
velas, por que não?
Ah! E diga, todos os
dias, o que aquela pessoa significa para você. Não precisa repetir que
a ama o tempo todo, mas fazê-la perceber o seu amor, notar o quanto é
importante, necessária, fundamental e, acima de tudo, parceira na
caminhada.
(01 de dezembro/2007)
CooJornal no 557
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com