De
uns tempos para cá, a sociedade tem mantido as aparências de uma
forma notável! Nunca tivemos tantas consciências limpas, quanto nas
mais diversas campanhas dos últimos anos. É o Natal sem Fome, é
Criança Esperança, é Fome Zero, é Idoso Formoso, Mulher Nota Dez,
enfim, uma enxurrada de “pão e circo” que dura um dia, para o ano
todo.
Nessa linha, diante da revolta da população politizada do país,
surgiram idéias brilhantes de proteção das “minorias
marginalizadas”. Assim, as mulheres, os índios, os negros, os
homossexuais, os deficientes físicos, as crianças e adolescentes, os
idosos, todos, passaram a ter tratamento especial, VIP mesmo, nas
filas, nos assentos dos transportes urbanos, vagões de metrô e,
pasmem, em vagas nas universidades!
Fico, por vezes, pensando aonde vamos chegar.
Ao invés de se melhorar a vida das pessoas, de forma que não se
sintam “minorias” e, muito menos, “marginalizadas”, com iguais
condições de ensino, higiene, moradia, emprego e respeito às leis;
simplesmente aumentam-se-lhes a discriminação, separando-os do
restante da população, como se fossem ETs privilegiados. No final,
nem bem usufruem dos pseudo-privilégios e nem bem o governo cumpre o
seu papel de cuidar para que “todo homem seja igual perante a lei”.
Em outras palavras, no momento em que se separa vaga nas
universidades, em percentual, para negros, deficientes, alunos do
ensino público, além de se passar atestado de incompetência do
ensino público (= governo), o número de desfavorecidos que sobram é
muito grande, e a preocupação de melhorar o ensino público, como um
todo, se dissolve nessas medidas parciais.
Bem, além disso, a dignidade do cidadão fica comprometida, no
instante em que ele aceita essas “esmolas” para alguns, de uma nação
que ele ajuda, efetivamente, a construir.
Por isso, lanço aqui a idéia de um “projeto de lei”, para que algum
político analise e leve adiante: assegurar vagas nas universidades
para a minoria marginalizada das pessoas normais. Sim,
garantir vagas para quem não seja deficiente físico, hipossuficiente,
negro, homossexual, estrangeiro, caolha, flamenguista e pagodeiro.
Se retirarmos 10% para deficientes físicos, mais 20% para negros,
mais 20% para homossexuais (que não sejam negros e deficientes – ou
pode cumulativamente?), mais 20% para quem curse colégio público
(vexame!), temos que correr para ainda vermos assegurado o direito
de nós, que não pertencemos a nenhum desses grupos, ingressarmos
numa universidade ou sentarmos nos bancos coloridos do metrô.
Muito mais lógico, embora não tão simples, se o governo fizesse a
escola pública voltar a ser o que era, num passado não muito
distante, quando se dizia com orgulho que se era aluno de escola
pública.
Tinham mais era que desviar verba de qualquer outro orçamento, para
injetar pesado na educação, e tirar crianças malabaristas dos sinais
de trânsito, e ensiná-las, com todo o seu potencial, a representar,
a declamar, a dançar, a projetar, a calcular!
Tirar as pessoas das ruas e colocá-las como funcionários das novas
escolas, com salário digno. Ensinar ofícios, criar oportunidades.
Não nivelando por baixo, facilitando a passagem de ano, tirando de
quem sempre estudou e trabalhou, com imenso sacrifício próprio ou de
seus pais; mas melhorando o nível, reciclando professores,
aperfeiçoando currículo e métodos de ensino, dando aos professores
dignidade e respeito dentro e fora das salas de aula, autoridade!
O negro não quer vaga para negro, mas condições de um ensino decente
para seus filhos, de uma vida digna que possa dar-lhes a chance de
vencer, de conquistar por méritos próprios, mas em igualdade de
condições.
O homossexual tem uma orientação sexual que deve ser respeitada. Mas
isso não o impede de estudar e competir em pé de igualdade.
O deficiente deve ter condições de competir, mas condições de
locomoção e adequação à sua deficiência. Nada de protecionismos, mas
de justiça, de direitos preservados para todos.
Só assim nós deixaremos de ter medo, de ter que calar ante a
violência maior, que é a praticada em nosso dia-a-dia, sob nossos
olhos, com nossos direitos de cidadãos sendo usurpados de todas as
maneiras, com os torpes disfarces de pequenas regalias que, no
máximo, enchem os olhos dessas minorias (?) que lavam suas
consciências com as migalhas da arrogância, fantasiadas de benesses.
Uma população educada aprende a respeitar seus idosos, cuidar de
suas crianças, admirar seus irmãos.
Não havia necessidade de separar assentos para idosos, há poucos
anos. Naturalmente as crianças levantavam para qualquer senhor ou
qualquer senhora, cedendo o lugar, sempre com um sorriso terno nos
lábios e nos olhos.
Homem algum permanecia sentado, enquanto uma só mulher estivesse de
pé.
Era assim, porque era ensinado assim. O povo era educado, mesmo que
não fosse culto.
Somos um país de dimensões continentais, mas de coração de manteiga.
Basta um pequeno incentivo, uma mudança de olhares para a educação,
que a população responderá com a força e a pujança de uma nação que
merece a grandeza de seu povo.
(artigo escrito no início de 2003)
Adendo: Agora, novembro/dezembro de 2007, um ilustre Senador da
República – senhor Paulo Paim – resolveu propor a criação do
“Estatuto da Igualdade Racial” (projeto de lei de 2003), que agrava
mais ainda o panorama nacional de discriminação e populismo. Com
esse projeto, vão obrigar a colocação da cor em todo e qualquer
documento usado no SUS, de Seguridade Social, estatísticas de
doenças de afro-brasileiros, História Geral da África no
currículo das escolas do ensino fundamental e médio, além da criação
de um Fundo Nacional da Promoção da Igualdade Racial, composto de
recursos da Lei Orçamentária da União, enquanto os hospitais e
escolas públicas de todos os brasileiros, independente da
raça, credo ou seja lá o que for, continua caindo aos pedaços, aos
trancos e barrancos, com profissionais sub-remunerados, doentes, sem
atenção especial, sem autoridade, vendo seu trabalho de toda uma
vida ser atirado ao lixo por um projeto populista, que vai virar
lei!
Se
antes era brincadeira e motivo de piada, agora é sério, e cabe uma
profunda reflexão popular quanto aos reais objetivos desse projeto,
e ao que ele nos remete, em termos de escamoteação de um preconceito
muito mais grave, que é o dos políticos, que não vivenciam nem de
longe a realidade do povo brasileiro.