
15/12/2007
Ano 11 - Número 559
ARQUIVO LILIAN MAIAL
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Lílian Maial
Uma Crônica de Natal |
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Todo ano, quando vai se aproximando dezembro, é a mesma coisa: uma
enxurrada de campanhas contra a fome, o frio (mesmo num calor de 40
graus), falta de brinquedo, e uma trupe de bons samaritanos limpando
suas consciências, que estiveram embotadas durante os outros onze
meses do ano.
Fazem doações ostensivas, como se toda a miséria do país acabasse
com um mês de campanha, e como se todos os brasileiros miseráveis,
de repente, ficassem felizes com a bondade dos homens.
Francamente...
Isso me faz lembrar dessas propagandas televisivas de “Natal sem
Fome” e “Fome Zero”, com aquele bando de pessoas de vida cheia de
oportunidades declamando seu amor ao próximo com um quilo de
alimento.
Podemos aceitar um Reveillon com fome, um Carnaval com fome, uma
Páscoa com fome, um Dia da Criança com fome (desde que com
brinquedos), mas nunca, NUNCA um Natal com fome! Os caras esperam
364 dias para comer e matar a fome, com uma cesta tão básica, mas
tão básica, que desaparece no estômago em menos de uma hora.
Que mané cesta básica! Que mané fome zero!
O que o povo e as crianças precisam é de uma ação social mais
intensa, de um cuidado diuturno, de uma ATITUDE de nação e
dirigentes decentes.
Dignidade. A palavra é DIGNIDADE. De que adianta uma cesta básica,
um punhado de brinquedos, se no resto do ano ninguém nem os olha,
fecham correndo os vidros com medo de assalto, sequer conseguem
inalar seu cheiro? Ah, a miséria fede.
Mas não tanto quanto a hipocrisia trançada junto à palha das cestas
básicas.
É como a “Fome Zero”: uma cesta básica e... milagre, o país inteiro
sem fome!
Será que ninguém vai se preocupar nunca com a causa da fome?
Desemprego, essa é a causa. Falta de desenvolvimento social.
E a cura? Trabalho, organização social, vontade política, pulso
firme.
Num país como o nosso, onde “em se plantando, tudo dá”, é
inadmissível morrer-se de fome e inanição.
Ao invés de cesta básica, um empreguinho básico alimentaria por todo
o ano.
Um saneamentozinho básico evitaria as doenças.
Uma assistenciazinha médica básica e decente para TODOS, resolveria
metade das pensões.
Uma grande campanha nacional, tipo “Natal com Dignidade”, cairia
muito melhor. E Papai Noel não ficaria de saco tão cheio de
hipocrisia, auto-promoção e corações superficiais.
Lembra da música: “você tem fome de quê? A gente não que só
comida...”
Esse “espírito natalino” é curioso: invocam o “menino”, cantam
cantigas para um estranho que nunca viram, importam músicas que nem
sabem cantar, mas não conhecem as letras dos choros das barrigas
vazias, das mães sem lar, dos pais sem teto. Ignoram completamente
as cantigas de pedir esmolas. Desconhecem o ritmo dos corações
famintos nas vitrines, nas esquinas, nas lojas enfeitadas para
atrair sonhos. Simplesmente não fazem a menor idéia dos 365 dias dos
nossos meninos jesuses.
Lembro-me de Natais da infância, onde freqüentávamos a igreja e
assistíamos a todo tipo de gente confessar e comungar, numa
purificação que durava o tempo da missa. Ao saírem porta afora, nem
olhavam para os meninos pedintes da própria porta da igreja.
Famílias inteiras desabrigadas, sob olhares impiedosos daquelas
almas santas.
Não, o Natal nunca teve seu real significado levado a sério. Essa de
“espírito cristão” nunca existiu. É conversa mole pra boi dormir,
que o digam os menos favorecidos.
Não, definitivamente não me atrai, porque exibe o que há de pior na
natureza humana: a doce certeza de que fazem o bem, sem olhar a
quem, abençoados por Deus, Todo-Poderoso: Pai, Filho e Espírito
Santo. Homem.
(15 de dezembro/2007)
CooJornal no 559
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com
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