
22/12/2007
Ano 11 - Número 560
ARQUIVO LILIAN MAIAL
|
Lílian Maial
NATAL É TEMPO DE AMOR OU SOLIDÃO? |
|
Com a aproximação do Natal, as lojas cheias, as varandas enfeitadas,
o clima de festa, a tendência é se pensar em união, família, ceia,
amigos. Sempre fui muito festeira, e o Natal é a ocasião ideal para
quem gosta de bagunça, de alegria, de casa cheia. De uns anos para
cá, porém, venho acumulando perdas significativas dos meus amados, e
o Natal vem ficando, a cada ano, mais desfalcado.
Curto muito os preparativos, as compras, a lista apertada de cada
ano, a economia obrigatória, mas na véspera e no dia mesmo, me
invade uma nostalgia, uma saudade, uma nuvem de tristeza que insiste
em ocultar o sol da alegria.
Hoje me peguei pensando em como deve ser terrivelmente triste e
solitário o Natal de quem ficou viúvo, ou de quem perdeu um filho,
ou de quem viajou para o estrangeiro sozinho, ou de quem se
aposentou e perdeu a convivência neurótico-deliciosa com colegas de
trabalho, usuários de ônibus e metrô, e até das chefias
mal-humoradas.
Imagino o Natal de quem sabe ser seu último, ou de quem sabe ser o
último junto à pessoa amada.
Calculo a solidão a sensação de amputação e desamparo de quem acabou
de se separar e ainda não reconstruiu um outro lar, ainda atordoado
com a súbita mudança.
Penso nos Natais dos presidiários e suas famílias, nos dos órfãos,
nos que vivem em instituições, nos hospitalizados, nos desabrigados.
Sei que Natal deveria representar o nascimento de Jesus, mas todos
sabemos que é bem mais que isso, que existe todo um “merchandising”
ao redor do Natal, estimulado pelo comércio e pela mídia, arrastando
a sociedade nessa rede de consumo e obrigação de ser feliz.
Invariavelmente, no Natal, eu luto contra esse sentimento de
saudade, mas ela me vence. E é uma saudade estranha, uma saudade de
infância, uma saudade de sabores que nunca mais consegui reproduzir,
uma saudade dos que já se foram e daqueles que nunca hei de
conhecer. Uma saudade do que poderia ter sido minha vida e do que
não foi. Uma saudade das tantas outras “eu” que não viveram, para
dar lugar a esta que aqui está. Não que esta não merecesse ter
sobressaído, mas as escolhas implicam em perdas, e é a saudade
dessas perdas que me assombram no Natal.
No fundo, penso que o Natal me chame à atenção, mais que o
aniversário, quanto à passagem do tempo. É quando os nossos mortos
se acumulam à mesa da ceia e em nossos corações, até no simples
gesto de cortar o peru, ou de distribuir os presentes sob a árvore.
Ou talvez, quem sabe, toda essa tristeza seja por ver que até o
Roberto Carlos da minha infância envelheceu, e que já não provoca o
delírio de outrora.
Não sei, só sei que o Natal não é só tempo de amor não, é tempo
também de solidão. Uma solidão que pode acontecer em meio a uma
multidão. Solidão dos outros de nós mesmos.
(22 de dezembro/2007)
CooJornal no 560
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com
|
|