29/12/2007
Ano 11 - Número 561


ARQUIVO
LILIAN MAIAL

 

   

Lílian Maial




Perigos de uma Doutora Carioca

  


Devia ter meus 22 anos, acadêmica de Medicina, ansiosa para ter contato com doentes, tratá-los, resolver os problemas de saúde do país e do mundo, como todo estudante dessa profissão tão linda e tão dura.

Era plantonista do Hospital Municipal Rocha Maia (RJ), pela SUSEME (não me perguntem o significado da sigla, que já não me recordo, inclusive porque, nesse país, as siglas mudam tanto...), plantões de 12 horas diurnas por 12 noturnas. Lembro-me que pagava a metade da bolsa que recebia (uma ninharia) para um colega dar os plantões noturnos, no intuito de não perder aulas da faculdade na manhã seguinte (o diurno era aos sábados).

Era uma emergência de médio porte, contudo, com saídas de ambulância para chamadas externas (papel hoje desempenhado pelos bombeiros). Não havia lugar para descanso. A sala dos médicos era freqüentada pelo staff, e nós, acadêmicos, ficávamos na linha de frente, só recorrendo a eles em casos de extrema necessidade.

Aparecia de tudo lá: bêbados, pacientes com pequenos cortes, entorses, dores de coluna, crianças com diarréia e desidratação, cólicas renais, crises de asma e de hipertensão, eventualmente um enfarte, um derrame, alguns casos psiquiátricos, alguns casos de não ter para onde mais ir, casos de espancamento familiar, enfim, uma rotina de toda emergência. Eu procurava me esmerar no atendimento, embora confesse que já começava a perceber que não era talhada para aquele tipo de Medicina.

Uma das coisas que mais me deixavam angustiada era a saída para delegacias.  Numa delas, fui parar num atendimento de uma presidiária com queixas de dor no braço, numa delegacia de Copacabana.

Alertada pelo chefe do plantão, nunca entrávamos em cárcere e nem em sala alguma, sem a devida escolta. Nesse dia, dei uma boa olhada na detenta, bem no fundo dos olhos e, por mais que a razão me dissesse para ter cautela, meu coração me dizia que aqueles olhos eram sofridos, mas não cruéis.

A cela fedia, aliás, toda a delegacia fedia. Um fedor de umidade, cheiro de mofo e pobreza, de dor e medo, de abrigo para alguns e desespero para outros. A moça, ainda bem jovem, mas com a aparência de maus tratos da vida, pediu-me encarecidamente que a atendesse em caráter particular, sem a escolta.

Muito tola e também muito assustada, pedi uma sala para exame médico privado, que a escolta aguardasse do lado de fora, mas que a enfermeira, que sempre me acompanhava, entrasse comigo. Cuidei ainda para que nenhum material potencialmente cortante ou perfurante entrasse na sala.

Imediatamente após a porta se fechar por trás de mim, a moça começou a chorar e pediu pelo amor de Deus que a tirássemos dali. Contou que havia sido espancada, e que seu braço doía muito, com a impressão de tê-lo fraturado.

À princípio, não acreditei muito nas lágrimas da mulher, porém, ao perceber meu olhar de dúvida, a mesma retirou a blusa, exibindo um seio completamente coberto por um hematoma recente. Mostrou ainda hematomas nas costas, nos braços e em uma das coxas, além do rosto inchado em um dos lados.

Aquilo me causou um frio na espinha, uma lembrança quase que atávica de torturas e abusos contra mulheres. Céus! Por mais que alguém cometa pequenos delitos, como furtos, desacatos, alcoolismo, prostituição, não é com tortura que se vai consertar o mundo. Aquilo me incomodou tanto, que examinei o braço da moça e não vi indícios de fratura, no entanto, pedi sua remoção para o hospital, a fim de fazer umas radiografias.

Depois soube que a tal mulher havia sido espancada para confessar um furto em casa de madame, madame essa para quem havia trabalhado por alguns meses, e de quem nunca mais ouvira falar...

Numa outra ocasião, fui chamada para atender a uma pneumonia na mesma delegacia.

Era um homem magérrimo, envelhecido para a idade, com aspecto de imundície. Tossia muito. Queixava-se da umidade da cela e da alimentação escassa e de má qualidade. Era habitual daquelas dependências. Bebia muito, abandonado pela família, perdera tudo na vida. Sempre que saía, tomava um porre e voltava (ou bebia para voltar mesmo).  Entre uma frase e outra, escarrava os pulmões pelo chão mesmo.

Só a conversa e a aparência do homem, já davam a suspeita, que a ausculta e, mais tarde, a radiografia, confirmaram: tuberculose.

Numa das vezes que tirei a sorte com colegas, peguei uma chamada de pessoa caída na rua.  Era assim que a gente saía. Não fazia idéia do que iria encontrar.

No meio da calçada, entre transeuntes de Copacabana, lá estava a criatura caída e, aparentemente, inconsciente.   Um nervosismo tomou conta de todo o meu corpo: suava, estava taquicárdica, enrubescida. Aproximei-me do indivíduo, de vestimentas comuns, mas bastante surradas e, sem saber direito o que fazer e para ganhar tempo, tentei medir sua pulsação, com uma platéia que se organizou em círculo ao meu redor.  Abri as pálpebras, para verificar as pupilas, abri a boca, para perceber o hálito e me cheguei para sentir o cheiro. De súbito, o homem sussurra em meu ouvido que gostaria de passar mal mais vezes, se soubesse que eu era quem iria socorrê-lo. De pronto deu um pinote, ajeitou a roupa e o cabelo, afastou algumas das pessoas em volta, e pôs-se em seu caminho, sem o menor pudor.  Não preciso dizer do alívio que senti, pois, àquela altura do campeonato, não fazia a menor idéia do que o sujeito pudesse ter tido.

E assim foi quase um ano de estágio nessa loucura de emergência, mas não cheguei a cumprir o prazo estabelecido. Não depois daquela armadilha. Não depois daquilo...

Era final de tarde, dia ainda claro, quando foi minha vez de sair: chamada para a delegacia da Hilário de Gouveia, a famigerada! Lá fui eu com a velha e experiente enfermeira, e o motorista-maqueiro-guarda-costas.

Ao chegar, o delegado, que não tinha cara de bons amigos, aponta para um cidadão negro, magro, alto e... nu. Bem, não de todo nu, mas vestindo uma sunga de praia rasgada no traseiro, quase com o tecido todo pendurado, deixando o belo bumbum de fora.

Aparentava estar inconsciente. Foi virado de frente, quando atiraram-lhe um copo de água gelada no rosto. Ele balbuciou alguma coisa ininteligível, mas manteve-se de olhos fechados.

Abaixei-me e abri suas pálpebras, podendo observar que estavam muito vermelhos, congestos, e que havia um hálito alcoólico, além de um aspecto muito estranho das narinas. Logo, surgiu-me a idéia de intoxicação por álcool e/ou outras drogas, possivelmente cocaína de uso crônico, pelo aspecto das narinas.

Informei ao delegado que teria de ter escolta, em virtude da remoção para o hospital, o que foi prontamente conseguido.

Colocamos o paciente na ambulância, mas o detetive recusou-se a ir junto, dentro da ambulância, preferindo ir atrás, numa viatura da Polícia Civil.

Estranhei o fato, mas consenti, uma vez que o sujeito estava inconsciente mesmo. O delegado trancou a ambulância e saímos em direção ao hospital, com nosso motorista acelerado, com sebo nas canelas.

A cada sinal de trânsito que avançávamos com sirene ligada, o camburão avançava também e não saía de nossa cola.

Quando passávamos por uma praça ampla, que vai dar na praia, o sinal fechou, nós passamos e, estranhamente, a viatura ficou no sinal (vi pelo retrovisor). Nisso, a enfermeira tem uma intuição e decide olhar o preso, pela janelinha que tem dentro da ambulância. Ela solta uma exclamação:

-          “Pára a ambulância, que o cara tá fugindo!”

Imediatamente o motorista parou, e pudemos ver o camburão avançando o sinal e contornando a praça. De dentro dele, saltaram nada menos que 8 homens fortemente armados, inclusive com escopetas, correndo em direção à praça, para onde o cidadão estava fugindo (acredito que sua intenção era chegar à praia).

Quando o homem percebeu que seria alcançado pelos policiais, tenta mudar o rumo, sendo que os SWAT começaram a disparar ali, no meio da rua, em plena luz do dia.

O sujeito, em desespero, volta sua direção para a ambulância, no que os policiais acompanham, sempre disparando, ou seja, metralhando a ambulância!

Fiquei atônita e paralisada. O motorista comentou que nossa função era resgatar o homem inconsciente. Como ele já estava caminhando e correndo, que nossa missão havia sido cumprida, e me pede autorização pra dar o fora. Diante da minha estupefação, a enfermeira me dá uma discreta sacolejada, para que eu balançasse ao menos a cabeça, indicando um sim.  E saiu meu motorista-herói em disparada, para longes das balas perdidas.

Chegando no Rocha Maia, ainda em estado de choque, juntei as minhas coisas, fui na sala do chefe me despedir, informando que não tinha mais estrutura para enfrentar aquele tipo de coisa. E nunca mais voltei.

Não foi á toa que nunca gostei desse tipo de atendimento. Acabei fazendo coisa completamente diferente, dentro da Medicina, o que não me fez sentir diminuída em nada. Em compensação, sã e salva.



(29 de dezembro/2007)
CooJornal no 561


Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br 
lilianmt@globo.com