Devia ter meus 22
anos, acadêmica de Medicina, ansiosa para ter contato com doentes,
tratá-los, resolver os problemas de saúde do país e do mundo, como
todo estudante dessa profissão tão linda e tão dura.
Era plantonista
do Hospital Municipal Rocha Maia (RJ), pela SUSEME (não me perguntem
o significado da sigla, que já não me recordo, inclusive porque,
nesse país, as siglas mudam tanto...), plantões de 12 horas diurnas
por 12 noturnas. Lembro-me que pagava a metade da bolsa que recebia
(uma ninharia) para um colega dar os plantões noturnos, no intuito
de não perder aulas da faculdade na manhã seguinte (o diurno era aos
sábados).
Era uma
emergência de médio porte, contudo, com saídas de ambulância para
chamadas externas (papel hoje desempenhado pelos bombeiros). Não
havia lugar para descanso. A sala dos médicos era freqüentada pelo
staff, e nós, acadêmicos, ficávamos na linha de frente, só
recorrendo a eles em casos de extrema necessidade.
Aparecia de tudo
lá: bêbados, pacientes com pequenos cortes, entorses, dores de
coluna, crianças com diarréia e desidratação, cólicas renais, crises
de asma e de hipertensão, eventualmente um enfarte, um derrame,
alguns casos psiquiátricos, alguns casos de não ter para onde mais
ir, casos de espancamento familiar, enfim, uma rotina de toda
emergência. Eu procurava me esmerar no atendimento, embora confesse
que já começava a perceber que não era talhada para aquele tipo de
Medicina.
Uma das coisas
que mais me deixavam angustiada era a saída para delegacias. Numa
delas, fui parar num atendimento de uma presidiária com queixas de
dor no braço, numa delegacia de Copacabana.
Alertada pelo
chefe do plantão, nunca entrávamos em cárcere e nem em sala alguma,
sem a devida escolta. Nesse dia, dei uma boa olhada na detenta, bem
no fundo dos olhos e, por mais que a razão me dissesse para ter
cautela, meu coração me dizia que aqueles olhos eram sofridos, mas
não cruéis.
A cela fedia,
aliás, toda a delegacia fedia. Um fedor de umidade, cheiro de mofo e
pobreza, de dor e medo, de abrigo para alguns e desespero para
outros. A moça, ainda bem jovem, mas com a aparência de maus tratos
da vida, pediu-me encarecidamente que a atendesse em caráter
particular, sem a escolta.
Muito tola e
também muito assustada, pedi uma sala para exame médico privado, que
a escolta aguardasse do lado de fora, mas que a enfermeira, que
sempre me acompanhava, entrasse comigo. Cuidei ainda para que nenhum
material potencialmente cortante ou perfurante entrasse na sala.
Imediatamente
após a porta se fechar por trás de mim, a moça começou a chorar e
pediu pelo amor de Deus que a tirássemos dali. Contou que
havia sido espancada, e que seu braço doía muito, com a impressão de
tê-lo fraturado.
À princípio, não
acreditei muito nas lágrimas da mulher, porém, ao perceber meu olhar
de dúvida, a mesma retirou a blusa, exibindo um seio completamente
coberto por um hematoma recente. Mostrou ainda hematomas nas costas,
nos braços e em uma das coxas, além do rosto inchado em um dos
lados.
Aquilo me causou
um frio na espinha, uma lembrança quase que atávica de torturas e
abusos contra mulheres. Céus! Por mais que alguém cometa pequenos
delitos, como furtos, desacatos, alcoolismo, prostituição, não é com
tortura que se vai consertar o mundo. Aquilo me incomodou tanto, que
examinei o braço da moça e não vi indícios de fratura, no entanto,
pedi sua remoção para o hospital, a fim de fazer umas radiografias.
Depois soube que
a tal mulher havia sido espancada para confessar um furto em casa de
madame, madame essa para quem havia trabalhado por alguns meses, e
de quem nunca mais ouvira falar...
Numa outra
ocasião, fui chamada para atender a uma pneumonia na mesma
delegacia.
Era um homem
magérrimo, envelhecido para a idade, com aspecto de imundície.
Tossia muito. Queixava-se da umidade da cela e da alimentação
escassa e de má qualidade. Era habitual daquelas dependências. Bebia
muito, abandonado pela família, perdera tudo na vida. Sempre que
saía, tomava um porre e voltava (ou bebia para voltar mesmo). Entre
uma frase e outra, escarrava os pulmões pelo chão mesmo.
Só a conversa e a
aparência do homem, já davam a suspeita, que a ausculta e, mais
tarde, a radiografia, confirmaram: tuberculose.
Numa das vezes
que tirei a sorte com colegas, peguei uma chamada de pessoa caída
na rua. Era assim que a gente saía. Não fazia idéia do que iria
encontrar.
No meio da
calçada, entre transeuntes de Copacabana, lá estava a criatura caída
e, aparentemente, inconsciente. Um nervosismo tomou conta de todo
o meu corpo: suava, estava taquicárdica, enrubescida. Aproximei-me
do indivíduo, de vestimentas comuns, mas bastante surradas e, sem
saber direito o que fazer e para ganhar tempo, tentei medir sua
pulsação, com uma platéia que se organizou em círculo ao meu redor.
Abri as pálpebras, para verificar as pupilas, abri a boca, para
perceber o hálito e me cheguei para sentir o cheiro. De súbito, o
homem sussurra em meu ouvido que gostaria de passar mal mais
vezes, se soubesse que eu era quem iria socorrê-lo. De pronto
deu um pinote, ajeitou a roupa e o cabelo, afastou algumas das
pessoas em volta, e pôs-se em seu caminho, sem o menor pudor. Não
preciso dizer do alívio que senti, pois, àquela altura do
campeonato, não fazia a menor idéia do que o sujeito pudesse ter
tido.
E assim foi quase
um ano de estágio nessa loucura de emergência, mas não cheguei a
cumprir o prazo estabelecido. Não depois daquela armadilha. Não
depois daquilo...
Era final de
tarde, dia ainda claro, quando foi minha vez de sair: chamada para a
delegacia da Hilário de Gouveia, a famigerada! Lá fui eu com a velha
e experiente enfermeira, e o motorista-maqueiro-guarda-costas.
Ao chegar, o
delegado, que não tinha cara de bons amigos, aponta para um cidadão
negro, magro, alto e... nu. Bem, não de todo nu, mas vestindo uma
sunga de praia rasgada no traseiro, quase com o tecido todo
pendurado, deixando o belo bumbum de fora.
Aparentava estar
inconsciente. Foi virado de frente, quando atiraram-lhe um copo de
água gelada no rosto. Ele balbuciou alguma coisa ininteligível, mas
manteve-se de olhos fechados.
Abaixei-me e abri
suas pálpebras, podendo observar que estavam muito vermelhos,
congestos, e que havia um hálito alcoólico, além de um aspecto muito
estranho das narinas. Logo, surgiu-me a idéia de intoxicação por
álcool e/ou outras drogas, possivelmente cocaína de uso crônico,
pelo aspecto das narinas.
Informei ao
delegado que teria de ter escolta, em virtude da remoção para o
hospital, o que foi prontamente conseguido.
Colocamos o
paciente na ambulância, mas o detetive recusou-se a ir junto, dentro
da ambulância, preferindo ir atrás, numa viatura da Polícia Civil.
Estranhei o fato,
mas consenti, uma vez que o sujeito estava inconsciente mesmo. O
delegado trancou a ambulância e saímos em direção ao hospital, com
nosso motorista acelerado, com sebo nas canelas.
A cada sinal de
trânsito que avançávamos com sirene ligada, o camburão
avançava também e não saía de nossa cola.
Quando passávamos
por uma praça ampla, que vai dar na praia, o sinal fechou, nós
passamos e, estranhamente, a viatura ficou no sinal (vi pelo
retrovisor). Nisso, a enfermeira tem uma intuição e decide olhar o
preso, pela janelinha que tem dentro da ambulância. Ela solta uma
exclamação:
-
“Pára a ambulância, que o cara tá fugindo!”
Imediatamente o
motorista parou, e pudemos ver o camburão avançando o sinal e
contornando a praça. De dentro dele, saltaram nada menos que 8
homens fortemente armados, inclusive com escopetas, correndo em
direção à praça, para onde o cidadão estava fugindo (acredito que
sua intenção era chegar à praia).
Quando o
homem percebeu que seria alcançado pelos policiais, tenta mudar o
rumo, sendo que os SWAT começaram a disparar ali, no meio da
rua, em plena luz do dia.
O sujeito, em
desespero, volta sua direção para a ambulância, no que os policiais
acompanham, sempre disparando, ou seja, metralhando a ambulância!
Fiquei atônita e
paralisada. O motorista comentou que nossa função era resgatar o
homem inconsciente. Como ele já estava caminhando e correndo, que
nossa missão havia sido cumprida, e me pede autorização pra dar o
fora. Diante da minha estupefação, a enfermeira me dá uma discreta
sacolejada, para que eu balançasse ao menos a cabeça, indicando um
sim. E saiu meu motorista-herói em disparada, para longes das
balas perdidas.
Chegando no Rocha
Maia, ainda em estado de choque, juntei as minhas coisas, fui na
sala do chefe me despedir, informando que não tinha mais estrutura
para enfrentar aquele tipo de coisa. E nunca mais voltei.
Não foi á toa que
nunca gostei desse tipo de atendimento. Acabei fazendo coisa
completamente diferente, dentro da Medicina, o que não me fez sentir
diminuída em nada. Em compensação, sã e salva.