Ontem fui operado, aos
84 anos, de um abscesso no fígado, que me causava grande desconforto
e ameaçava minha vida.
Sou um homem velho, já vivi muitas coisas, já passei por muitas
situações. Fui bom, fui mau, fui apenas normal. Nenhum cargo
importante, nenhum grande feito pela humanidade, nada que em
tornasse especial. Mesmo assim, gosto da vida e de tudo o que ela me
proporciona até hoje. Não quero não poder mais acordar. Não quero
não ver mais sol e flores.
Quem disse que já estou pronto, que já não tenho mias o que fazer em
vida, ou que não faria falta a ninguém? E, mesmo que não fizesse,
desde quando isso é pré-requisito para deixar a vida? Quem julga
isso, você? Eu? Meu médico?
Se eu cheguei até um hospital, a um diagnóstico, a um centro
cirúrgico, a uma possibilidade de cura para poder continuar vivo,
será que mereço morrer apenas por ser velho? Por que minha vida
valeria menos que a de uma criança de 2 anos?
Curioso, ao chegarmos aos 10 anos, imaginamos que aos 20 seremos
velhos. Aos 20, pensamos na velhice aos 40. Aos 40, pensamos sermos
velhos aos 60 anos. Aos 60 ainda nos sentimos jovens e achamos tudo
muito estranho, porque nos olham como velhos, e pensamos que faltam
ao menos mais 10 anos, pois que estamos saudáveis e ativos. Aos 70
anos, uma conversa de aposentadoria compulsória, “pé na cova” –
absurdo! Ainda faço cálculos com mais precisão que meu neto de 20
anos, e tenho tanto a ensinar e a viver!
Aos 84 anos, afirmo, que venham mais 10, mais 20, o quanto me for
possível!
Quero cuidar do dia, amanhecer com o sol, sentir o vento na pele
(tudo bem, tá enrugada, mas sente a mesma brisa que sentia aos 30,
quando a pele era lisinha). Quero ver a flor desabrochar e o colibri
vir beijá-la, já que meus olhos tudo vêem. Quero sentir o cheiro do
café coado na hora, do pão quentinho. Quero sentir o toque, o beijo,
o amor. Quero olhar os olhos da minha amada e perceber sua ternura,
seu calor e seu desejo. E por que se pensa que velho não ama?
Deveriam saber que ama mais que todos, pois já deu e recebeu toda
forma de amor.
É inútil? Engano seu! É alguém no círculo da vida. Faz parte daquela
engrenagem que só anda e dá certo porque eu estou nela. Se eu não
estivesse, ela seria outra, andaria diferente.
Bem, chegamos à conclusão que não mereço morrer apenas por ser
velho. Mas meu médico ainda não entendeu. Ele não se conforma de eu
não ter morrido antes de ter chegado a ele. Ele queria que eu não
tivesse chegado aos 84. Morrer aos 83 talvez fosse o ideal, na
opinião dele, embora nada entenda de mim, e não saiba que fui muito
importante para muitos nesses 365 dias que ele queria me subtrair.
Não, ele não é louco, nem bandido ou sádico. Tampouco favorável à
eutanásia. É que doutor tem mania de Deus, e quando Deus prega nele
uma dolorosa peça, para que ele baixe a crista e veja que é humano,
ele vem me culpar.
Entendam, ele é um ótimo cirurgião, calejado, experiente, já salvou
inúmeras vidas. Não dorme, não come, não pára durante todo o
plantão. É querido pelos pacientes e funcionários. Aí ontem cheguei
eu e ele cuidou de mim. E, graças a ele, sobrevivi, estou bem, ainda
com vida e com disposição para viver mais.
Só que, enquanto me operava, chegou uma criança de 2 anos, engasgada
com um pedaço volumoso de salsichão, vinda de uma Festa Junina. A
equipe de pediatras e clínicos fez tudo o que podia e sabia, mas não
conseguiram salvar a criança, porque o cirurgião de plantão me
operava, me salvava a vida.
Ele não suportou a idéia. Chorou, lamentou-se por não ter estado lá,
pela criança não ter tido a chance de ser salva por ele. Ficou um
bom tempo dizendo a todos que se estive lá a teria salvo (embora
isso ele nunca viesse a saber). Senti nele a mágoa pela opção que o
destino fez, trocando minha vida pela da criança de 2 anos.
Agora me digam: mereço morrer só porque sou velho?
Lílian Maial
Rio, 15/07/01.