08/03/2008
Ano 11 - Número 571


ARQUIVO
LÍLIAN MAIAL

 

   

Lílian Maial




DIVAGAÇÕES NO ÔNIBUS

  

Era bem cedinho, como de costume, quando o 422 surgiu no começo da rua. Aquele velho motorista de sempre, que trazia um olhar de suspense. Nunca se sabia o que ele ia fazer, se arrancar com o veículo, ou parar onde eu estava, ou puxar um pouco à frente, pra me ver correr. Penso que motoristas adorem nos ver suar um pouco.

Subi no ônibus, dei meu cordial “bom dia” ao sorridente e prestativo trocador, que sempre me auxilia com a roleta, facilitando a passagem da bolsa cheia, sacola, cabelos esvoaçantes prendendo no batom cremoso, agenda e saltos altos.

Observei, como usualmente, os lugares vagos e procurei um cantinho na janela, num banco vazio. O bom desse horário quase madrugada é a quantidade de lugares vagos e a freqüência, quase que só de estudantes do Colégio Militar e Pedro II (impressionante como os bichinhos acordam cedo).

Como sempre, abri a janela e deixei o vento me refrescar e esvoaçar os cabelos, fazendo a pele se eriçar com o prazer do sopro da natureza.

Comecei a pensar os fatos do dia anterior e mesclá-los com os que ainda ocorreriam naquele dia nascente.

Algo, porém, me incomodava. Uma sensação de ser observada, vigiada.

Tentei olhar com o canto do olho esquerdo, mas o alcance era reduzido, uma vez que estava sentada na janela do lado direito. E a cabeleira atrapalhava o campo visual. Afastei os cabelos e aproveitei o movimento para dar uma rápida olhada para a esquerda.

Foi estranho, mas meus olhos cruzaram com outro par a me estudar de longe.

Por instantes, achei que o homem havia me reconhecido de algum lugar, e deixei o olhar pousado, sem me importar. Só que houve uma insistência insolente e eu desviei. Voltei para minha janela. Vi os caminhos se repetirem e muitos rostos conhecidos pegando a mesma condução.

Continuei com o espaço vago ao meu lado. Cheguei a me perguntar se aquele estranho não sentaria ali, mas ele não se mexeu. Ao contrário, continuava ali, me olhando. Estranhas sensações se apoderam da gente quando a gente sabe que está sendo notado. E as mãos pelos cabelos parecem ser o ritual mais executado. É instintivo. Como também o é aproveitar essa ajeitadinha para ver se ele ainda estava olhando.

Ah, isso era uma paquera! Eu, a essa hora da manhã, estava sendo paquerada descompromissadamente. E aquilo era gostosinho. O tal homem era jovem, alto, moreno, parecia ter olhos claros, mas a distância não permitia afirmar. Era um tipo magro e elegante. Fiquei imaginando o que ele estava fazendo tão cedo ali, naquele ônibus. Seria um professor? É possível. Tinha o porte esguio para tal. Mas não portava livros ou assemelhados.

Mas também poderia ser médico, mas não estava de branco, nem calça, ao menos, branca.

É curioso você olhar para os rostos e tentar imaginar o que fazem, de onde vêm, para onde vão. Tenho esse hábito há anos, me ajuda a passar o tempo da viagem.
Estava eu absorta em meus pensamentos, quando percebo o homem de pé, bem perto do banco em que eu estava. Ele fez menção de tocar o sinal para saltar, mas parou, virou a cabeça e me olhou ternamente outra vez, como que para se despedir ou desejar um dia bom. Retribuí timidamente o olhar doce, mas logo desviei. Mas o rabinho de olho o seguiu e reparou que ele saltou perto do Liceu. Devia mesmo ser um professor. Talvez eu nunca mais o visse. Talvez seu carro estivesse no conserto. Talvez estivesse ali apenas por um único dia. Talvez. Só sei que o dia ficou muito lindo, o céu muito azul e as melodias vinham na mente involuntariamente.

Cheguei no trabalho cantarolando e recebi uns 3 elogios quanto à minha aparência, alegria e astral positivo.

Será que aquele homem tem idéia de como ele pôde melhorar meu dia?

Será que também melhorei o dele?

Será que, sem querer, já não fiz outros também assim contentes.

Tudo muito curioso naquele ônibus.

Era o carro 55.051.



(08 de março/2008)
CooJornal no 571


Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br 
lilianmt@globo.com