Era bem cedinho, como
de costume, quando o 422 surgiu no começo da rua. Aquele velho
motorista de sempre, que trazia um olhar de suspense. Nunca se sabia
o que ele ia fazer, se arrancar com o veículo, ou parar onde eu
estava, ou puxar um pouco à frente, pra me ver correr. Penso que
motoristas adorem nos ver suar um pouco.
Subi no ônibus, dei meu cordial “bom dia” ao sorridente e prestativo
trocador, que sempre me auxilia com a roleta, facilitando a passagem
da bolsa cheia, sacola, cabelos esvoaçantes prendendo no batom
cremoso, agenda e saltos altos.
Observei, como usualmente, os lugares vagos e procurei um cantinho
na janela, num banco vazio. O bom desse horário quase madrugada é a
quantidade de lugares vagos e a freqüência, quase que só de
estudantes do Colégio Militar e Pedro II (impressionante como os
bichinhos acordam cedo).
Como sempre, abri a janela e deixei o vento me refrescar e esvoaçar
os cabelos, fazendo a pele se eriçar com o prazer do sopro da
natureza.
Comecei a pensar os fatos do dia anterior e mesclá-los com os que
ainda ocorreriam naquele dia nascente.
Algo, porém, me incomodava. Uma sensação de ser observada, vigiada.
Tentei olhar com o canto do olho esquerdo, mas o alcance era
reduzido, uma vez que estava sentada na janela do lado direito. E a
cabeleira atrapalhava o campo visual. Afastei os cabelos e
aproveitei o movimento para dar uma rápida olhada para a esquerda.
Foi estranho, mas meus olhos cruzaram com outro par a me estudar de
longe.
Por instantes, achei que o homem havia me reconhecido de algum
lugar, e deixei o olhar pousado, sem me importar. Só que houve uma
insistência insolente e eu desviei. Voltei para minha janela. Vi os
caminhos se repetirem e muitos rostos conhecidos pegando a mesma
condução.
Continuei com o espaço vago ao meu lado. Cheguei a me perguntar se
aquele estranho não sentaria ali, mas ele não se mexeu. Ao
contrário, continuava ali, me olhando. Estranhas sensações se
apoderam da gente quando a gente sabe que está sendo notado. E as
mãos pelos cabelos parecem ser o ritual mais executado. É
instintivo. Como também o é aproveitar essa ajeitadinha para ver se
ele ainda estava olhando.
Ah, isso era uma paquera! Eu, a essa hora da manhã, estava sendo
paquerada descompromissadamente. E aquilo era gostosinho. O tal
homem era jovem, alto, moreno, parecia ter olhos claros, mas a
distância não permitia afirmar. Era um tipo magro e elegante. Fiquei
imaginando o que ele estava fazendo tão cedo ali, naquele ônibus.
Seria um professor? É possível. Tinha o porte esguio para tal. Mas
não portava livros ou assemelhados.
Mas também poderia ser médico, mas não estava de branco, nem calça,
ao menos, branca.
É curioso você olhar para os rostos e tentar imaginar o que fazem,
de onde vêm, para onde vão. Tenho esse hábito há anos, me ajuda a
passar o tempo da viagem.
Estava eu absorta em meus pensamentos, quando percebo o homem de pé,
bem perto do banco em que eu estava. Ele fez menção de tocar o sinal
para saltar, mas parou, virou a cabeça e me olhou ternamente outra
vez, como que para se despedir ou desejar um dia bom. Retribuí
timidamente o olhar doce, mas logo desviei. Mas o rabinho de olho o
seguiu e reparou que ele saltou perto do Liceu. Devia mesmo ser um
professor. Talvez eu nunca mais o visse. Talvez seu carro estivesse
no conserto. Talvez estivesse ali apenas por um único dia. Talvez.
Só sei que o dia ficou muito lindo, o céu muito azul e as melodias
vinham na mente involuntariamente.
Cheguei no trabalho cantarolando e recebi uns 3 elogios quanto à
minha aparência, alegria e astral positivo.
Será que aquele homem tem idéia de como ele pôde melhorar meu dia?
Será que também melhorei o dele?
Será que, sem querer, já não fiz outros também assim contentes.
Tudo muito curioso naquele ônibus.
Era o carro 55.051.