Real e virtual.
Mais: EXIBICIONISTA.
O erotismo está começando abrir as portas, lentamente, para a
literatura, e as mulheres estão quase que arrombando, muito mais que
os homens. Se você observar os poemas de homens, grande parte tem
erotismo, mas os de mulheres, quase que a totalidade tomba para esse
lado. E por quê? Desconhecimento intelectual? Ignorância técnica?
Nada disso! Séculos de repressão! As mulheres, que escondiam o
prazer, o gozo, a sensualidade, a agressividade no sexo, agora
querem estourar a boca do balão, querem mostrar ao mundo,
notadamente o masculino, que gozam, que dominam, que mandam, que
dizem o que querem e como querem. E isso é maravilhoso, mas não
deveria ser a única fonte de brado, e nem a única prática literária,
sob pena de cairmos no ostracismo literário, na segregação.
A Internet permitiu o anonimato parcial, ou seja, você lida com uma
pessoa que não conhece pessoalmente, e passa a conhecer uma imagem
idealizada, ou a imagem que a pessoa deixa você perceber. Isso é um
prato cheio para os autores de temas eróticos, pois não serão
tocados (sem pecado) e serão desejados (sem juízo).
Quem escreve texto erótico (desde que não tenha endereço certo) é um
EXIBICIONISTA. E quem lê textos eróticos, é um VOYEURISTA.
Óbvio! Geralmente os textos eróticos são reconhecidos como tal pelo
título. Quem busca aquele título, ou o vê e pára pra ler, é um
voyeur, que gosta de saber (ver) o que vai na mente de quem escreve;
gosta de se atualizar nas novidades do prazer, ou talvez tenha a
curiosidade de saber como aquele (a) escritor (a) sente o sexo e a
sensualidade.
Aqueles que lêem um texto apimentado, mas não respondem, não
comentam, têm receio de macular sua imagem de puritano ou assexuado,
ou sei lá eu o quê. Há um certo receio de se dizer que gosta de
sexo, que faz sexo, que tem fantasias, que tem perversões... mas
todos temos, seja na vida real, na virtual, ou em sonhos (e poeta
adora sonho...).
Na verdade, não se deve confundir o escritor com o personagem,
porque isso não é uma constante. Eu mesma já fiz poema por
encomenda, de assunto que não dominava, e fui estudar, pesquisar.
Mas, cá entre nós, o poeta joga muito de sua personalidade no
personagem, no eu lírico. Se eu faço um poema que soe com “não me
toques”, não significa que eu seja assim, mas posso passar, na
mensagem embutida no poema, um certo desdém pela personagem que
assim seja, por eu ter uma personalidade forte e dominadora, que
contesta esse tipo de atitude afetada.
Quem escreve textos que mexem com a libido, o tesão, a emoção e o
desejo ardente, tem necessidade de ser visto, quer por puro
exibicionismo, quer para aprovação ou reprovação de sua performance,
quer para despertar a atenção apenas.
Vou dar um exemplo: meus melhores poemas, tecnicamente falando, com
temas nobres, lirismo evidente, de boa qualidade literária, quando
postados, não alcançam 10 leituras. Quando posto um erótico
ruinzinho, não fica com menos de 20 leituras... significativo, não?
O ser humano é curioso, é voyeur por natureza, gosta de ver sem ser
visto, gosta de saber como o outro faz sexo, como beija, como goza,
entender de suas habilidades eróticas, de suas técnicas, de seus
dotes. E as mulheres estão aprendendo a se mostrar. Se você reparar,
os poemas eróticos femininos são muito mais sensuais, por serem
descritivos, enquanto que os masculinos são mais líricos. Curioso,
não? Falo de erotismo, não pornografia escancarada, como a de
Aretino.
Ao escrever que “sente as mãos do macho, fortes e seguras
percorrendo suas coxas”, a escritora pode estar fantasiando algo que
gostaria que acontecesse com ela, pode estar descrevendo o que
aconteceu, ou apenas provocando leitores (homens e mulheres).
Por outro lado, o leitor que devorar esses versos, dificilmente não
se colocaria no lugar do tal macho, e imaginaria como seria
percorrer as coxas da escritora que ele idealiza como uma deusa do
sexo, mas que, na maioria das vezes, nunca viu nem a foto.
Enfim, é uma simbiose: o escritor dá ao leitor aquilo que ele quer
ou precisa ter, para alimentar os sonhos, as fantasias, as
carências, aquele trocinho extra que falta à sua vida. E o escritor
recebe de volta a sensação de gozar com cada leitor, dentro de sua
intocável imagem de intelectual.
Assim, delicio-me com os efeitos silenciosamente
elegantes do jogo, da brincadeira, e amaldiçôo veementemente a
ultrapassagem dos limites da privacidade e da educação.