Que poetas vivem no
mundo da lua, isso não há quem não saiba.
Que ele sonha acordado e fala com pássaros, isso também não é
novidade.
Mas que pode modificar o mundo...
Como todo escritor, poeta ou não, o livro é também meu objeto
principal de fascínio.
Há uma atração direta, meio que física, meio que transcendental, que
me impulsiona para onde eles estão.
Vai daí que a Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi um
prato cheio para encontro dos compulsivos.
O interessante é que nunca se espera que a freqüência seja a mesma
entre os leitores. Mas esse ano, para minha grata surpresa, houve
superação das expectativas. Nunca vi uma feira de livros tão
movimentada, tão organizada e com tantas atividades culturais
simultâneas. O esmero no design dos boxes, na exposição das obras, a
quantidade de títulos novos de interesse geral, a literatura
infantil com seu merecido destaque.
Sim, porque é a partir da criança que o poeta vai mudar o mundo.
Aliás, poeta e criança têm muito em comum, a começar pela
preferência quase que intuitiva pelo campo dos sonhos, a
identificação com a natureza e com o que passa desapercebido pela
maioria das pessoas, além da facilidade de ouvir música no vento.
A poeta aqui viu a mobilização de escolas trazendo suas crianças em
grupos, desde a mais tenra idade, como que num milagre, numa feliz
homenagem póstuma a Monteiro Lobato, que se estivesse assistindo
àquilo, decerto criaria mais alguns personagens de imediato. Eram
filas imensas de recém-desfraldadas crianças, ávidas por manusear as
folhas coloridas dos livros infantis.
Eram dezenas de professores orgulhosos de suas turminhas,
preocupados com sua integridade tanto física, quanto moral e
cultural.
Eram autores encantados com seu público-mirim, envoltos na turba dos
construtores do futuro.
Sim, o poeta mudou o mundo, e eu estava lá para ver.
E vi a multidão de todas as classes em busca do conhecimento.
Vi autores novos em meio aos assíduos nas listas de mais vendidos.
Vi livros-ostras de bolso, com verdadeiras pérolas escondidas entre
as capas.
Vi mímicos e artistas anônimos chamando a atenção para os
lançamentos menos badalados pela mídia.
Vi editores confraternizando com seus autores, mesmo que não
houvesse assim tanto retorno financeiro da obra.
Vi verdadeiras preciosidades no cuidado de capa, diagramação, design
e, principalmente, conteúdo.
Vi que a esperança de que a nossa população possa ter interesse em
algo além de programas limitados na telinha, onde o pensamento não
cria e nem viaja, apenas mastiga o que lhe é empurrado boca adentro,
essa esperança está mais viva do que nunca.
Esse é o momento dos escritores se unirem na mudança. Essa é a hora
de investir na cultura, na nossa cultura regional e nacional.
Valorizarmos nossa literatura, nossos expoentes, nossas origens e
criarmos, criarmos, criarmos. Denunciarmos injustiças, relatarmos
feitos, buscarmos entendimentos, crescermos junto do nosso povo e da
nossa língua. E de nos unirmos com nossos irmãos de países
lusófonos.
Vi que o poeta mudou o mundo.
Há mais poesia nas ruas, há mais poemas nas casas, há mais versos
nos corações.
O povo quer poesia. O público clama pelos bons textos. O leitor está
atento, pesquisa seus autores, procura por novidade, lê e divulga.
Não somos guerrilheiros, guerreiros de armas de fogo.
Nossas armas são a palavra e a beleza.
Nosso grito é, talvez, mais ruidoso que qualquer estrondo de bomba,
e tem poder de espalhar mais fragmentos que qualquer granada.
Temos a faca e o queijo, mas não temos a mesa de apoio para o corte
e a degustação.
Esse aforismo de que “poesia não vende” é preconceituoso. Vende e
vende bastante, mas para isso é necessário que o poeta seja
acreditado, que tenha chance de expor sua obra e uma divulgação à
altura de qualquer escritor de livros de consumo.
Precisamos do incentivo dos que detêm o poder de “formadores de
opinião”, dos que podem manipular e mobilizar a mídia contra ou a
favor de quem quer que seja.
Talvez por sermos poetas, não saibamos bem lidar com essas coisas
todas, que não falem da alma, do coração, da angústia e dos
questionamentos íntimos do homem.
Mas se eu vi o poeta mudar o mundo, por que não ver o cenário da
poesia no país ser modificado e conquistarmos assim o merecido
espaço no desenvolvimento e formação de um povo mais culto e com
mais chances de ser feliz?
Por que não nos aliarmos aos irmãos dos países de mesma língua, como
Portugal, por exemplo, onde somos admirados pelos escritos e temos
de lá também tão fortes nomes em nosso dia-a-dia literário?
Se eu vi (com esses olhos que a terra há de devolver ao céu em forma
de estrela) os pequenos extasiados com o livro, o que mais é preciso
para que o mundo se modifique?