
12/04/2008
Ano 11 - Número 576
ARQUIVO LÍLIAN MAIAL
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Lílian Maial
HOMEM DE AÇO
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Numa certa manhã, Nancy acordou diferente.
Intrigada com as sensações esquisitas que se lhe invadiam (como uma
incrível vontade de coçar o saco), correu até o banheiro, levantou o
tampo do vaso e... gritou! Ahhhhhhhhhhhhhhh!!! Horror!!! Ela viu que
tinha um troço entre as pernas, um pênis! Um "senhor" pênis!
Apertada que estava, urinou (para variar, como todo portador de um
pênis, fora do vaso).
Sem querer saber de fato o que acontecia, como quem já pudesse
adivinhar, voltou-se ao espelho e constatou, com um desespero
incontrolável, que estava, ou era, ou seria... um HOMEM!
À princípio, sabia que estava num pesadelo e que era absolutamente
impossível, pela sua lógica científica, que aquilo pudesse estar
realmente acontecendo.
Atravessada essa etapa, até que apreciou o tal sonho/pesadelo, e
tentou fazer dele algo verdadeiramente prazeroso. Balançou então
solenemente o novo apêndice, admirou sua envergadura, sorriu para seu
rosto que mirava seu semblante sarcástico e, de súbito, percebeu-se
com uma fome de leão (sim, ela começou a usar adjetivos masculinos, no
que se referia a ela mesma).
Correu para a cozinha e preparou o mais lauto café da manhã que
poderia prever: 4 ou 5 pãezinhos, suco de manga, café, cereal com
leite, bolo de chocolate, uma fatia de fruta... e tudo isso sem nem
pensar em calorias! Ah, estava começando a gostar desse aspecto do
sonho.
Bem, ia trabalhar. Mas o que ela fazia?
Inexplicavelmente, abre o guarda-roupas e só encontra calças, camisas,
camisetas, um frasco pelo meio de Polo Sport, outro de Cool Water (um
pouco doce para seu gosto) e, pasmem, 2 pistolas (uma ponto 40 e uma
Glock), alguns carregadores e um coldre. Fuçando um pouco mais, ainda
achou gorro, coturno, colete... e um distintivo! É... ela era um
Delegado de Polícia! Um Homem de Aço!
Estava explicado esse seu súbito estado de alerta, essa necessidade de
saber de tudo, da localização de todos, as notícias, enfim, uma fome
de saber das novidades e estar a par de todas as ocorrências.
Instintivamente ela sabia para onde se dirigir.
Entrou na XYª DP e foi saudada por toda a tiragem, um misto de
cumplicidade e inveja.
Inteirou-se da situação, despachou, sentia-se um machão por detrás da
mesa, com aqueles vagabundos todos trucidando-a entre os dentes, e uma
incrível responsabilidade e senso de dever.
Ah, seu ego precisava de algo mais, talvez perigo, ação!
Ela sabia que precisava parar com aquilo, ficar atrás da mesa, na
varanda...
Resolveu reunir uns homens da sua confiança (já sabia quem era quem, a
essa altura) e sair em missão "suicida" para dentro de uma das
principais "bocas" das redondezas.
Foi com um fuzil, carregadores, luneta de precisão indiscutível, e uns
companheiros bons no assunto, embora com munição precária, mas
daqueles que você sabe que conta na hora em que desce o aço.
Subiam o morro, já escuro, luzes das ruelas nos iluminando,
deixando-os mais expostos, ambiente desfavorável... de pronto uns
ruídos e ventinho nas laterais da cabeça. Tiros! E de fuzil! E muito
perto! Tentaram se esconder, pediram prioridade no rádio, e se
comunicaram, no intuito de surpreender os meliantes, sem perder nenhum
dos camaradas.
Quanto mais subiam, mais perigoso ficava. Ela suava. Adrenalina quase
que palpável nas veias. Mas estava excitada, gostava daquilo, era
quase um vício.
Como boa adicta, sabia como conseguir a sua droga.
Deu a volta com mais um camarada irmão e conseguiu uma posição
privilegiada, na penumbra, atrás do ponto onde os bandidos atiravam.
Sorrateiro, primo-irmão de alguma sombra, percebeu um fuzil G3 nas
mãos de um dos vagabundos, mirou e conseguiu alvejá-lo. O outro ao
lado a viu, fugiu, e ela foi atrás, no encalço do infeliz. O
companheiro correu pelo outro lado, tentando cercá-lo.
Corria, corria muito, arfava (já não era tão fácil assim), conseguia
enxergar o sujeito lá adiante. Vielas estreitas demais, casas de
portas e janelas fechadas. Esquinas da morte. Escuro. Solidão. Onde
está Deus? Pedras, calçamento inexistente. Cheiro de vala. O diabo do
vagabundo não cansa? Tá cheirado, é isso. E como corre. Para onde foi?
Perdeu a mira. Mas corria, corria. Cadê o compadre? E corria, e
cansava, não podia parar. Onde foi se meter? Onde estava? Era aquele o
seu dia? Engatilhada, dedo coçando, pronta para disparar, escuro e
desconhecido caminho. De repente, ali estava ele, de frente para ela,
lhe aguardando, possivelmente com tanto medo quanto ela. Nem sabia se
era novo ou velho, se alto ou baixo, se ela ou ele. Disparou e ouviu o
disparo dele. Brilho dos projéteis, como funestos fogos de artifício.
Som arrastado, câmera lenta, vácuo, início e fim, segundo eterno.
Desconforto. Estava presa, amarrada, atada, pesava alguma coisa sobre
ela.
Era seu homem sobre seus seios. Dormira pesado e entregue.
Homem de aço, menino de algodão doce e bolinha de sabão.
Seu cheiro de Polo Sport entranhado nas narinas.
Sua pele macia e seu jeito independente.
Acordou aos poucos, estalou o pescoço, sorriu, puxou-a para si,
apontou para ela o peito, e repousou serena da árdua tarefa de livrar
o mundo da sua presença.
(12 de abril/2008)
CooJornal no 576
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com
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