
03/05/2008
Ano 11 - Número 579
ARQUIVO LÍLIAN MAIAL
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Lílian Maial
Se eu fosse Papai Noel
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Se eu fosse Papai Noel, começaria a repensar a história.
Não gostaria de ser velhinho, e muito menos bom. Hoje em dia os
velhinhos não inspiram mais a confiança de outrora. Não há quem não
faça uma piadinha sobre sentar no colo de Papai Noel.
O danado do velho leva a fama, que se agravou, decerto, depois do
Viagra.
E, pior mesmo que tudo isso, é que não come. Ah, come rabanadas sim,
mas com os olhos, porque a barba impecavelmente branca o denunciaria,
caso comesse de verdade. E também, já está tão gordo, possivelmente
hipertenso e dislipidêmico, quem sabe diabético insulino-dependente...
Melhor um panetone light e um espumante diet.
Quanto a ser bom, num mundo abarrotado de violência, corrupção e
indiferença, isso soaria, no mínimo, falso.
Papai Noel tem algo de satânico, a começar pelas vestes vermelhas. Ou
de petista, não sei, talvez ambos.
Num calor de 40 graus, o cara só pode ter parte com o chifrudo, pra
agüentar a sauna por dentro do traje.
E tem mais, não se consegue identificar o cidadão.
Quem sabe desenhar os traços de Papai Noel?
O danado dribla as 3 polícias (civil, militar, federal), o DETRAN
(estaciona o trenó em qualquer canto), a fiscalização sanitária (nunca
se viu um atestado de vacinação das renas contra a raiva) e a Interpol!!!
É, o cara viaja de um país ao outro sem passaporte, carregando um
monte de muamba!!!
Portanto, nada de BOM velhinho.
Pra falar a verdade, nem se sabe se o cara é velho mesmo, já que nunca
ninguém o vê.
Por isso, se eu fosse Papai Noel, eu seria mulher.
E nada de ser velhinha, que não dá IBOPE. Não vende. Tá mais do que
provado que imagem comercial é de mulher nua ou semi-nua e cheia de
silicone.
E nada de trajes quentes! Um top e um shortinho, pra facilitar as
descidas por chaminés, e o coletinho básico à prova de balas.
Peraí, que chaminés? Qual é o brasileiro, pelo menos de cidade grande,
que tem chaminé?
Não, eu entraria pela porta da frente, com um belo tapete vermelho,
holofotes e purpurina mágica, liberada não sei de onde, ao chegar nas
casas. Aproveitaria pra provar o peru, beber umas tacinhas de Moet
Chandon ou Veuve Clicquot, saborear umas rabanadas de leite condensado
e, quem sabe, ainda tirar um cochilinho entre uma casa e outra.
Trocaria as renas por uma moto possante, que é menos afrescalhado, e
os presentes, por cheque ao portador. Seria mais prático e tropical.
Pôxa, caramba, ficou uma droga esse Papai Noel!
DELETA!!!
Nada disso! Papai Noel é Papai Noel. Ninguém muda ou tira seu lugar.
Pra falar a verdade, eu acredito nele.
Papai Noel fala comigo o ano todo, e esse papo se intensifica quando
vai chegando dezembro.
Claro, dezembro é época de baçanço de vida, época de acabar algo e
reiniciar outras coisas. Fazer planos, repensar a vida. E Papai Noel é
isso, recomeço, esperança, a alegria de se acreditar.
Papai Noel é, acima de tudo, fé.
Por isso, acredito em Papai Noel e, se eu fosse ele, não deixaria
morrer o Natal.
O que não falta é gente querendo matar o Natal. E já há tantas mortes
por aí...
Decididamente não!
Se eu fosse Papai Noel, sairia em disparada com meu trenó carregado de
fé, e a distribuiria por entre os homens descrentes, por entre os
doentes crônicos, os velhinhos solitários, as mulheres submissas, o
povo oprimido, os poetas inquietos (que não param de buscar), os
líderes sem coragem, os homens sem honra e com teto, os homens com
honra e sem teto, os irmãos.
Só não visitaria as crianças, porque seria perda de tempo, já que
criança é a pura fé, que faz com que Papai Noel nunca venha a morrer
em nossos corações.
Se eu fosse Papai Noel, eu me daria o mundo que existe dentro de mim.
(03 de maio/2008)
CooJornal no 579
Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.caraacara.blogger.com.br
lilianmt@globo.com
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