De repente, tudo é para ontem.
Tudo tem que ser agora, tudo tem pressa.
Há uma urgência, uma impaciência, um passar por cima de tudo e
todos, apenas para ver suas próprias necessidades satisfeitas.
E as dos outros? E o se colocar no lugar do outro? E a mudez? A
ausência total de "semancol", de perceber que os outros têm
sentimentos e têm precisão da palavra, do gesto, do olhar e de todas
as explicações que lhes foram negadas.
Urgência? Eu também tenho. Eles também têm. Urgência de saber como,
quando, quem e, principalmente, o porquê.
Esperando? Também estou. Também estamos, e há muito tempo.
Esperando o cumprimento das promessas feitas tão solenemente,
esperando a verdade, esperando o olho-no-olho, esperando a
cumplicidade cobrada somente de um dos lados.
Ah! Esperar passou a ser o verbo mais comum e mais ouvido nos
últimos tempos. Esperar, de aguardar, e esperar, de ter esperança.
Sim, porque só o que resta é a esperança, já que a realidade e o
dia-a-dia foram roubados de sinceridade e doação.
Estamos todos cansados de esperar.
É bom irem-se acostumando, porque nada mais resta, senão esperar.
Até hoje eu espero, e sei que ainda esperarei por uma eternidade,
uma vez que a palavra não veio até agora, provavelmente nunca virá.
E a distância vai se fazendo pão, rio e correnteza. A imaginação -
pior de todos os algozes - vai tecendo a trama das verdades
ocultadas, das mentiras maquiadas, dos dublês das más notícias.
De repente, o carrasco se faz vítima, num estalar de dedos. Todos os
fatos mudam de ângulo, e só se sabe da urgência no cadafalso, da
urgência da corda ao redor do pescoço, da solitária morte da
história idealizada de uma vida, cuja personagem principal não sabia
o texto.
A vida é urgente, a morte é premente, mas nada faz sentido e nada
importa, se não houver a verdade, a sinceridade, a entrega e o amor
ao outro.