21/06/2008
Ano 11 - Número 586


ARQUIVO
LÍLIAN MAIAL

 

   

Lílian Maial




(DE)COMPOSIÇÃO

  


Vem nas notas da melodia, nos versos tristes de uma canção, lembranças gravadas em estúdio, cenário feliz de uma peça inacabada.

O estranho é isso: não acaba nunca! A coisa vai sendo impressa na memória. Parece que está fora de moda e, de repente, vem de volta, numa onda, e se vai em espuma, com a maré de sorte.

Fica a maresia, a (e)terna sensação de mar, ferrugem nas dobradiças. E se coloca um óleo, um pó de grafite, e se disfarça o rangido, até trocar por uma porta nova.

Mas o espaço dos portais está lá, recordando, a cada dia, que ali já houve uma casa, e se vai levando as horas, com a languidez de um despertar preguiçoso, um peso nas pernas, uma imobilidade sem justificativa e sem razão de prosseguir.

Nada parece ter o mesmo sabor e, mesmo assim, ainda se mastiga e engole os dias.
E se luta, se tenta erguer por sobre escombros, com as cinzas todas bailando ao nosso redor.

Mais um dia, mais um mês, mais um ano, e deveríamos nos dar por satisfeitos, afinal, tantos têm tantos problemas tão maiores...

Formigas ouvem música na pedra, o vento varre varizes vazias, o sangue pulsa e jorra saudade, o adeus tem gosto de nunca mais.



(21 de junho/2008)
CooJornal no 586


Lílian Maial
médica, poeta, escritora
RJ
http://www.lilianmaial.com
http://www.caraacara.blogger.com.br
http://lilianmt.zip.net

lilian.maial@gmail.com