Havíamos decidido passar um dia maravilhoso em família.
Manhã perfeita de sol, depois de uma estafante semana de trabalho
e estudo, todos queriam mais era descansar e aproveitar aquelas
horas de inércia à beira da piscina do clube.
Passamos o dia basicamente inteiro às voltas com filtros solares,
óculos escuros, todo o aparato de proteção da pele. Mesinha de boa
localização, garçon preferido, cerveja pra lá de gelada, picanha
fatiada ao ponto. Mergulhos, sauna e a tarde caindo, numa preguiça
poente invejável.
Levantamos acampamento, com a certeza de que era tomar banho e
cair na moleza de um aconchegante sofá, para um filminho com
alguns petiscos.
Ops! Que petiscos? Não havíamos comprado nada! Parar em alguma
delicatessen a essa hora, nem pensar! Padaria... não, estacionar,
todos suados e cheios de fator de proteção solar 30... não,
definitivamente nada de descer do carro.
Uma das crianças deu seu palpite: McDonald’s! Sim, e por que não?
Pertinho de casa tem um (como se em cada esquina não tivesse um),
inclusive com drive-thru, ou seja, não precisaríamos sair do
carro. Perfeito!
Ao nos aproximarmos da “casa das telhas vermelhas”, uma fila não
tão pequena assim nos recepcionou. Mas, já que seu lema é rapidez
de atendimento, e o nome “drive-thru” dá uma noção de velocidade,
resolvemos arriscar. E entramos na auto-fila.
Qual...
Não fora o barulhento Ronald e sua dança-sei-lá-do-quê, até que
teria sido tolerável a espera, mas aquele som infernal, junto com
a gritaria da criançada, depois de muito sol e cerva na cabeça,
tenha dó!
O pai não disfarçava a irritação. Ao passar na máquina para fazer
o pedido, as crianças ainda tinham dúvidas e o pai avermelhando a
expressão. Calmamente contei as crianças, multipliquei pelo número
de cheesebúrgueres e hambúrgueres que cada um come habitualmente,
mais algumas batatas e sobremesas e pronto, soletrei as
quantidades resolvidas.
Apesar da gritaria insuportável e da voz gasguita do animador,
conseguimos acalmar o pai, o filho e o espírito santo, amém, com a
promessa de um ótimo filme que estava à nossa espera.
Mal chegou nossa vez, e lá vem o cara com aquele puffzinho com
numeração, e lança no teto do carro, orientando meu marido a
estacionar logo adiante.
- Ora, mas não é drive-thru? Que diabo de espera é essa?
Simples, um dos sanduíches que o mais velho pediu levava bacon e
demorava pra ficar pronto.
Não preciso dizer o quanto o moleque foi amaldiçoado em pensamento
e entre os dentes rangentes do pai, que, para informação, não
havia se cuidado com os filtros, e estava um pouco mais
vermelhinho e ardidinho do que desejava.
Depois de 10 minutos alucinantes de espera e vendo todos passando
na nossa frente, o pai descobre que alguém levara nosso sanduíche,
o tal com bacon.
Pronto, foi o que bastou. O homem saltou ENORME do carro,
dirigiu-se ao rapaz que, equivocadamente, cedera nosso sanduíche a
outra pessoa que acabara de pedir, sacou do puff do capô do carro
e partiu para enfia-lo em algum lugar não muito descritível.
Apesar da proteção do guichê de vidro, o rapaz se encolheu tanto,
que quase cabia entre duas fatias de pão: o McCovardão.
Bem, depois disso, logo, logo apareceram os nossos saquinhos de
papel, com bacon e tudo, um bando de canudinhos, colherinhas,
sachezinhos de catchup e mostarda, e um volte sempre apavorado...
Muito bem, acabou. Agora é correr pro abraço, chegar em casa e
devorar os sanduíches deliciosos, vendo um bom filme.
Mal chegamos e as crianças avançaram nos pacotes, cada qual
pegando seus sanduíches, quando ouço a exclamação do caçula: veio
tudo com pickles!
Quase desmaiei. Nossa família inteira detesta pickles, e sempre
nós pedimos tudo “grill” no Mc Donald’s (sanduíche normal, mas sem
os famigerados pickles, cebolas picadas e temperos fortes).
Preciso falar do resto? Pois saiu o pai bufando, com as sacolas
nas mãos, a pé, blasfemando, na direção do drive-thru.
Não sei o que lá ocorreu, mas ele voltou com os sanduíches
certinhos, mais 3 tortinhas de maçã, 3 Mc Mix de MM e uns 2 ou 3
sanduíches de brinde...
Ah, como é generoso esse Drive-Thru!