
Nasci e cresci no bairro
da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, num apartamento simples,
sem grandes facilidades, sem luxos e sem muita informação, por
conta dos tempos de ditadura. No entanto, criança que era, andava
e brincava livremente nas ruas e praças do bairro, sem conhecer o
medo de cruzar com outro ser humano nas ruas, sem o receio de ter
a bicicleta roubada, sem ter que usar disfarces ou subterfúgios
para freqüentar os lugares que bem entendesse.
Hoje, tudo é diferente. De repente, senti na pele as mudanças de
maneira súbita. Não sei o que se passou comigo, ou onde estive nos
últimos 30 anos, que, de uma hora para outra, veio uma avalanche
de realidade a me sufocar a ideologia e a crença na sociedade.
Costumo fazer percursos habituais para o trabalho, nos mesmos
horários, sem grandes desvios. Pagamentos via internet, talão de
cheques entregues em domicílio, quase tudo comprado em lojas de
shoppings, o que me faz caminhar muito pouco por ruas fora do
trajeto diário de casa para o trabalho e vice-versa.
Aí vieram essas férias meio fora de época, complemento das
forçosamente interrompidas no início do ano, que, para não perder
os dias que faltavam, fui convidada a usufruir do restante agora.
Com os filhos em aulas e os amigos trabalhando, resolvi usar os
dias para cuidar da saúde, fazer pequenas e necessárias compras
para a casa, colocar o sono, a leitura e o cinema em dia.
Muito bem, hoje, caminhando por uma das avenidas principais e mais
movimentadas do meu bairro, nas poucas idas a bancos, fui
surpreendida com uma situação inusitada: pessoas e mais pessoas
vindo em minha direção, com pressa, expressão de aborrecimento,
atarefadíssimas, esbarrando, atropelando, avassalando quem
estivesse pela frente, não importando se crianças, mulheres,
gestantes, idosos, ou quem quer que fosse. Todos, sem exceção,
davam encontrões uns nos outros, sem ao menos sorrirem ou se
desculparem, como se fosse normal incomodar.
Isso me causou um embaraço, uma sensação de não pertencer, uma
noção de estar fora do tempo e lugar. Parecia uma outra rua, outra
cidade, outro país, outro planeta, sei lá! Cenas esdrúxulas, como
saídas de um filme de David Linch, passavam diante dos meus olhos
incrédulos, como se eu estivesse adormecida por uns 30 anos!
Parada num sinal, para atravessar a rua abarrotada de pessoas, vi
um homem com aspecto de mendigo, imundo, em andrajos, descalço, e
com aquele olhar inconfundível de insanidade, catando alguma coisa
no chão, vociferando para ambulantes de barraquinhas numa das
esquinas da rua, quando, de repente, ele atira alguma coisa na
direção das barraquinhas, sem se importar com as pessoas que
passavam pela calçada. Percebi que se tratava de um pombo morto,
que veio parar quase ao meu lado. Imediatamente um dos ambulantes
pegou o cadáver do pombo e o atirou de volta ao mendigo, em meio à
população que sequer parou ou desviou o trajeto.
O mendigo novamente agarrou o pombo e o devolveu, com algumas
palavras de baixo calão, ao som das gargalhadas dos ambulantes.
Não satisfeito, ele começou a apanhar pedras da calçada e a
atirá-las, sendo que uma delas quase raspou meu rosto estupefato.
O pior, é que tudo isso à luz do dia e sob o olhar e os risos de
três guardas municipais, que apenas moviam os músculos do rosto,
em sinal de diversão. E as pessoas se abaixando e, agora,
desviando, espremidas entre as barracas dos ambulantes e a pouca
calçada trafegável.
Há muito não me sentia tão desprotegida, tão à mercê, tão
vulnerável. Passei a entender as pessoas que sofrem de síndrome do
pânico, porque eu mesma me senti desamparada e única cercada da
multidão que não parecia se incomodar com a cena kafkiana que
viviam.
Logo me veio a idéia de gado e do terror de um arrastão, ou de uma
falsa blitz e a sensação de impotência diante dos fatos. De como a
sociedade está doente. Não sei onde estamos e nem onde vamos
parar.
De repente, a população e a televisão mobilizados com as
olimpíadas, onde o esporte faz a união dos povos. No momento
seguinte, a invasão da Geórgia e o bombardeio russo, com centenas
de mortos, feridos e desabrigados. Cenas mescladas de vitória, de
alegrias e metas alcançadas, e de famílias inteiras olhando
pateticamente suas moradias destruídas. Jovens tentando (e
conseguindo) superar suas próprias marcas de resistência e
disciplina. E a falta de flexibilidade e tolerância do homem
destruindo a vida. Antítese humana. Medalhas de ouro no podium da
loucura! Marcas de filhos atletas vencendo seus limites, para
orgulho de suas famílias, e marcas de nanquim escorrendo em meio
às lágrimas das famílias sem amanhã e sem seus filhos.
Não! Nem Kafka, nem Linch, nem Dante contavam com a loucura do
homem!
Hoje, observando o mendigo louco e a multidão em seu dia-a-dia
enlouquecido, fiquei assustada com a falta de parâmetros para
julgar a verdadeira loucura. Me peguei pensando na falta de nexo
das notícias, na maluquice dos jornais. Será que só eu percebo a
doideira de uma mesma página de jornal enaltecer o atleta Phelps
e, na coluna ao lado, somar o número de corpos e desabrigados da
Ossétia?
E, aqui, ninguém sequer notou o que foi feito do pombo morto,
afinal.