Ano 22 - Semana 1.095






ARQUIVO de
LIVROS 



 

 



1º de outubro, 2018

O ORNITORRINCO DO PAU OCO




José Augusto Carvalho


Mário Quintana, nosso poeta universal do Sul, disse, numa de suas obras, que “a poesia é uma verdade inventada”. Apesar da beleza desse aforismo poético, acredito que o poeta descobre a verdade que o comum dos mortais ignora, para revelá-la em seus poemas. O poeta é aquele que só sabe “transformar sapato em borboleta”, diz Jorge Elias Neto no poema “Régua quebrada” (p. 47). O poema é, portanto, a revelação da verdade descoberta pelo poeta, que não percebemos por não termos, parodiando Newton Braga de Lirismo Perdido, a sensibilidade que fará o poeta sofrer e morrer de dores que não são suas.

Essas dores, expressa-as Jorge Elias Neto em seus poemas, como o belíssimo “Sorriso da Inocência” (p. 147), dedicado a uma criança síria de “olhinhos ausentes a fitar a história”. É a nobreza desses olhos ou desse “olhar perdido na ausência”, que o poeta procura, sabendo-o “entardecido de uma ilusão” (“Poema”, p. 133).

Os poemas de Jorge Elias Neto são basicamente reflexivos, e levam o leitor a meditar na grandeza de seus aforismos altamente poéticos.

1. “Não interrompam o cotidiano das serpentes./ Elas não buscam nos homens o seu veneno” (“Reflexão”, p. 39), -- aforismo que o poeta retoma como epígrafe no poema “Gaza” (p. 62-3).
2. “Eu te daria meus vícios / se isso não me fizesse órfão” (“O possível”, p. 53).
3. “Para tudo existe um peso / uma medida / e uma visão distorcida” (“Os ossos da baleia”, XVII, p. 91) -- mote que o poeta glosa, numa espécie de vilancete no poema “Há dois corpos” (p. 104), subvertendo o modelo clássico ao usar os versos inicias e não finais das estâncias que constituem a glosa.
4. “Hoje a estupidez não é mais um traço:/ é um demônio que se agiganta” (“Noir”, p. 56).
5. A vida constrói, e o tempo apaga” (poema “Mãe”, p. 18, um dos mais líricos e mais belos e sofridos do livro).
6. “Cada homem traz / dentro de si um pasto de soberba” (“Terra dos pássaros”, p. 124).
7. “Pode-se falar de paz / onde inexiste vida” (Campo de batalha”, p. 143).
8. “Sonho... Matriz da realidade” (“Balada de um imortal”, XIII, p. 96).
9. “Certas bocas /não vestem bem as palavras” (“Ofertório”, p. 40).
10. “A vida é ritual de pontes. / Vejo triste que, entre o dito e o pensado,/ ficou uma ponte tombada” (“Sonho no absurdo”, p. 67). – Este aforismo lembra de maneira metafórica a dificuldade que os poetas enfrentam ao traduzir as ideias em palavras. De fato, pensamos paradigmaticamente, em que todos os elementos da ideia concorrem em bloco numa simultaneidade que tem de ser diluída obrigatoriamente palavra por palavra, quando se fala ou se escreve, na difícil tarefa de tentar vencer a linearidade do código linguístico. Por isso, Bilac fala nas confissões de amor que morrem na garganta; por isso Augusto dos Anjos diz que a ideia, por mais grandiosa que tenha sido mentada, chega às cordas da laringe mínima, tênue e raquítica, para esbarrar no “mulambo da língua paralítica”; por isso Carlos Drummond de Andrade diz que “lutar com palavras é a luta mais vã”... Para Jorge Elias, entre o dito e o pensado está uma ponte quebrada...

São esses pensamentos que revelam o simbolismo do pau oco do Ornitorrinco: são algumas das pedras preciosas da sua poesia, como os versos seguintes, de incomparável beleza:
1. “Meu pai vestia uma pele / de sonhos amarrotados” (“Polos”, p. 48).
2. “Desconheço a verdade dos santos, / mas tenho aprendido sobre a mutilação do desejo” (“A realidade de cada um”, p. 30)
3. “O VERBO partiu e levou consigo o pecado. / O mundo suspira aliviado o retorno à solidão” (“Apocalipse verde”, p. 32)
4. “Bem-vindo à eternidade do instante?” (“Bestas, Beats e Beatos, p. 110)

A repetição é frequente nos poemas de Jorge Elias. Em “Aos poucos”, p. 108, a locução adverbial que dá nome ao poema se repete em cada estrofe. O poema “Uma carteira e seus sentidos” (p. 80-1) é um dos poemas mais bem elaborados tecnicamente, na repetição do ritornelo: o verso que se repete a cada estrofe, “Observe essa carteira vazia”, é seguido por dois adjetivos de rimas em –osa e –ada, em todas as estrofes, e termina com três coordenadas aditivas sindéticas, num paralelismo isostrófico perfeito. Só para ilustrar, eis duas das oito estrofes de estrutura similar:

“Observe essa carteira vazia
– ociosa –
desocupada.
Entre na dimensão do absurdo
– no que se contorce –
e resvala,
e desperta,
e nos cala.
..........................................
Observe essa carteira vazia
– poderosa –
enfeitada.
Lembre-se da profusão do sangue
– que se dispersa —
e tinge,
e respinga,
e nos entala.”

A morte também está entre as preocupações do poeta, como no poema “Os ossos da baleia”, que dá nome a um de seus livros constantes nesse volume do Ornitorrinco, em que ele diz: “Sou um companheiro da morte” (p.90), ou como no belo poema “Balada de um imortal” (p.94): “Números são símbolos/ que nos arrastam./ Ditos em ordem / decrescente, assim, / subtraindo dias, / trazem a ideia / de proximidade do final;/ impõem / um sentido ao inevitável.” Esses versos lembram, pela ideia de contagem regressiva do tempo, o poema “Relógio”, de Cassiano Ricardo, que cito de memória: “Diante de coisa tão dorida / conservemo-nos serenos./ Cada minuto de vida / nunca é mais, é sempre menos.”

A religião serviu-lhe de tema a alguns poemas irreverentes como “Cristo de pão”, um dos mais belos e sofridos dessa antologia: o pai, à mesa do almoço, num domingo, faz um crucifixo moldado com miolo de pão umedecido em seus lábios, mas o crucifixo se parte quando o filho o pega da mão paterna estendida e exclama desalentado: “Foi duro para mim / ver Deus quebrar-se em minhas mãos” (p. 59). No poema “Catedral”, a irreverência é mais patente: “crucifixos / hóstias / dízimos / pia abismal / e a imagem do Cristo / que nada tem a ver com isso” (p. 129).

Jorge Elias também incluiu nesse livro três sonetos diferentes formalmente: um, “O grilo falante” (p.105), de forma tradicional (dois quartetos e dois tercetos), outro “Para apaziguar as borboletas” (p. 113), com os 14 versos divididos em uma duodécima e um dístico; e um terceiro, “Subversivo” (p. 114), com os 14 versos separados em sete dísticos em redondilha maior. Acredito que o poeta esteja preparando um novo livro só de sonetos...
Certamente ainda haveria muito a dizer nesta minha tentativa de desvendar um pouco da beleza revelada pelo poeta nesse pequeno grande livro. Mas já me estendi o bastante, e o leitor certamente há de preferir ao que escrevi os poemas de Jorge Elias Neto.

Geir Campos, talvez em alguma parte de sua obra (também o cito de memória), diz este aforismo poético: “A folha que cai no rio muda a visão do rio”. Não basta a folha para fazer o rio mudar. As águas que agora correm não são mais as mesmas de há pouco, e o rio já não é mais o mesmo. Esse livro de Jorge Elias Neto não é apenas uma folha a cair no rio de nossas almas. Nenhum poema é o mesmo quando lido mais de uma vez, porque em todos eles está a beleza, a tristeza, a confissão desse poeta revelador de verdades, que “não tem cisma de beijar o diabo na boca e aprendeu cedo a mordiscar os lábios de Deus (“Duo, p. 31) ou desse mago das palavras que sabe como transformar sapato em borboleta...

(ELIAS NETO, Jorge. O ornitorrinco do pau oco. Vitória: Cousa, 2018, 162 p.).







Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br