Rio Total - Livros


Ano 21 - Semana 1.087






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01 de agosto, 2018

Uma corruíra na varanda




Luiz Carlos Lacerda


O cineasta Braz Chediak sempre foi um precursor em tudo. Muito jovem, e numa época talvez a mais obscura da recente História brasileira, deu voz aos personagens outsiders da até então inédita e maldita obra do dramaturgo Plínio Marcos.

Seus filmes Navalha Na Carne (1969) e Dois Perdidos Numa Noite Suja (1970), hoje considerados clássicos do moderno cinema brasileiro, é um contraponto e uma resposta ao projeto de um Brasil “pra frente” evocado pelo discurso oficial e totalitário de então.

Ao filmar o proibidíssimo autor dessas obras primas da nossa dramaturgia, o jovem Braz, na década seguinte, trouxe para as telas outro monstro sagrado e cronista do moralismo hipócrita da pequena burguesia carioca, Nelson Rodrigues, aquele que deu um tom universal para nossas pequenas e mesquinhas tragédias - e que poderíamos classificar como a antropologia da alma nacional.

Perdoa-me por me traíres (1980), e Bonitinha, mas ordinária (1981), dirigidos por Braz, alinha-se às grandes adaptações dirigidas pelos mestres Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirzsman e Arnaldo Jabor.

Hoje, num exílio voluntário numa cidade bucólica, Três Corações, na sua amada Minas Gerais, continua nos surpreendendo. Desta vez, através de crônicas reveladoras de um estilo tão pessoal e subjetivo como nos seus filmes, marcadas por um olhar amadurecido, primoroso, retirando do cotidiano que poderia passar despercebido preciosas lições de humanidade com a sua sensibilidade solidária e poética – à semelhança dos primeiros modernistas.

Escreve compulsivamente, nada escapa à sua observação, e num estilo evocativo de suas maiores influências. Desde os diálogos que reproduz com a secura e o naturalismo de Nelson Rodrigues, à apaixonada narrativa do flâneur João do Rio de A alma encantadora das ruas, e com o mesmo senso de humor dos mineiros Fernando Sabino e Otto Lara Resende.

Preocupado com o futuro, dedica-se a impulsionar a existência de uma banda de crianças, onde descobre talentos e os estimula a continuarem no caminho da Arte – que dignifica a vida.

Tenho o privilégio de conhecê-lo desde o início de nossas carreiras, e o de acompanhar sua emocionante e generosa trajetória – coroada através deste livro que nos brinda, fiel ao seu compromisso pessoal de falar de seu tempo para sempre. Eternizando seu testemunho inoculado de esperança.



Luiz Carlos Lacerda é cineasta.






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