Ano 21 - Semana 1.065






ARQUIVO de
LIVROS 



 

 



15 de fevereiro, 2018
os tabaréus do sítio sAracura”


 


Enéas Athanázio

Comprovando que gente comum do povo também pode viver experiências interessantes, Antônio Francisco de Jesus, mais conhecido como Saracura, publicou um livro delicioso e que já se encontra na terceira edição. Trata-se de “Os Tabaréus do Sítio Saracura”, romance memorialístico, de fundo histórico e documental, em que o autor recria a saga da numerosa família Saracura, descendente de judeus holandeses e índios nativos da região, habitante das cercanias de Itabaiana, cidade do agreste sergipano onde acontece célebre feira livre, dessas que vendem de tudo e mais um pouco, autênticas festas populares espontâneas e sem ensaios. Escrito em linguagem simples e direta, sem subterfúgios ou digressões desnecessárias, o livro revela um autor que não condescende e não se furta a observações duras, quando necessário. Em compensação, há inúmeros momentos engraçados, daqueles que provocam boas gargalhadas, e outros tantos de pura e enternecedora poesia.

Partindo de suas próprias lembranças dos tempos de criança nos sítios paterno e do avô, onde imperavam homens opiniáticos e decididos a lutar contra as adversidades do meio hostil, com suas terras fracas e secas inclementes, vai o autor relatando os mais curiosos detalhes da vida sofrida daquele povo. A infância terminava cedo, por volta dos sete anos, quando as crianças já eram postas a trabalhar. A escola, por sua vez, só funcionava em parte do ano, no período em que o braço infantil podia ser dispensado do serviço. E os métodos de trabalho e produção se mantinham arraigados e conservadores, salvo quando alguma inovação se impunha. Eram incríveis os malabarismos de que lançavam mão para sobreviver nos piores períodos, todos aprendidos a duras penas com a experiência dos antecessores. Mas tudo isso não impedia a realização de festas, ajuntamentos, encontros em bodegas e pequenas viagens, sempre com a alegria e a disposição fatalista de que as coisas são assim e não há como alterá-las. As visitas do garoto ao sítio do avô são relembradas como momentos de intenso prazer e alegria.

O livro é muito rico no registro dos usos e costumes regionais, mostrando quão vasta é a cultura popular brasileira. Alguns desses relatos são dos mais curiosos e o autor os descreve com grande fidelidade. No período da quaresma, por exemplo, surgiam os grupos de alimentadores de almas. Durante a noite, ao som de uma matraca, iam batendo de porta em porta e acordando os moradores com suas rezas e cantorias. Época houve, relata o autor, em que tantos eram os grupos que uns atrapalhavam os outros. Presumo que havia alimentadores demais para almas de menos. Segundo velho costume, durante a semana santa as raparigas amigadas nada podiam comer por conta do amásio, caso ele vivesse com a família legítima. As amigadas, então, saíam de porta em porta pedindo ajutório para alimentar a casa, e isso “desde a quarta-feira de cinzas até o domingo da ressurreição.” Ainda no capítulo das curiosidades, lembra que a colméia de abelhas alojada no oitão da casa se mudou em definitivo e de maneira espontânea, com o falecimento do dono. “Se não for colocada uma faixa de pano de luto sobre cada cortiço logo após a morte do dono, as abelhas abandonam suas casas e somem no mundo” (p. 50). Por outro lado, segundo diziam, seria costume guardar o dinheiro, em geral moedas, em recipientes que eram enterrados em lugares secretos. Comentários nesse sentido também corriam aqui no Sul sobre as cobiçadas “panelas” de dinheiro que muitos procuravam. Segundo o autor, a alma do morto não descansava enquanto ele não revelasse a alguém o local onde enterrou o seu tesouro Só então sairia da penitência! Não será demais lembrar o gosto do povo pelas apostas. Apostava tudo, até mesmo a quantidade de espirros que o padre alérgico daria durante o sermão! Muitos outros fatos poderiam ser referidos, mais não caberiam no espaço deste simples comentário.

Resta uma breve referência ao linguajar regional, mostrando, mais uma vez, a riqueza imensa que nossa língua alcançou no país. As falas da expressão regional, nascidas da criatividade popular, são infinitas e deliciosas. Corrobolo, mangado, malinando, quarto de breguesos, rincha de preguiça, breguedela, camaço, jabo, melecando, revém, xurrear, eis alguns exemplos do falar brasileiro colhidos ao acaso no texto.

Três momentos da narrativa são de grande beleza. O primeiro se dá quando tia Jovita, velha, fraca e doente, ainda que se arrastando e penando a maior miséria, decide mendigar em povoados longínquos e desconhecidos. Mesmo na situação em que se encontrava, sua dignidade não suportaria mendigar aos conhecidos. A humilhação e a vergonha seriam superiores à sua fome! Em outro momento dramático, o sertanejo impotente vê a seca avançar sem nada poder fazer. O verde vai perdendo o viço, as ramas se esturricam, as fontes secam, a poeira paira no ar parado e o céu azul só promete sol e mais sol. E então, “o que era plantado com gosto, a própria natureza que deveria ajudar a crescer, destruía sem dó, como um vencedor impiedoso diante do frágil derrotado” (p. 112). Por fim, a triste melancolia do cacique que desejava rever em vão a filha e os netos. Expulso para os ínvios confins daquelas terras que antes foram suas e fugindo dos caçadores de escravos, ele contempla esperançoso do meio do mato enquanto a noite se arrasta. “Milhares de sons e tons, num concerto fantástico, varam a noite sem intervalo, cobrindo o espelho líquido de bolhas de espuma, que depois explodem em novos pequenos músicos, garantindo a eternidade do coro de louvor ou a sentinela ao triste guerreiro índio” (p. 102). E pela manhãzinha o cacique retornava aos seus grotões, ainda mais triste por não ter avistado os seus.

_________________________
Contato com o Autor comentado:
Rua Leonel Curvelo,117 – Bloco A – Apt. 4 0 1 – Suissa – 49050-485 –
ARACAJU.









Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br