Ano 21 - Semana 1.067






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01 de março, 2018
AS PEQUENAS MEMÓRIAS”


 


Enéas Athanázio

Apesar do grande sucesso que vem fazendo junto aos leitores de língua portuguesa e de países onde foi traduzido, o livro “As Pequenas Memórias”, de José Saramago (Cia. das Letras – S. Paulo – 2006) não parece ter despertado tanto interesse no Brasil. Como indica o título, nele estão reunidas pequenas lembranças soltas, às vezes mínimas, dessas que o enigma da memória humana retém, às vezes por toda a vida. São “as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente”, informa o autor.

Embora pequenas, no entanto, as recordações nada têm de insignificantes pelo que revelam da infância do autor e sua formação. Escritas sem dramatizar os fatos evocados, muitos deles longínquos no tempo, acabam gerando no leitor um sentimento algo melancólico e de pena daquele menino sofrido mas que nunca se queixava, mesmo porque de nada adiantaria. Filho de camponeses (o pai, depois, seria policial), teve uma infância miserável, tão miserável como era a miséria européia no período entre-guerras, com as economias devastadas e o desemprego campeando. Residiu em autênticos casebres de paredes esburacadas, dormindo na cozinha e na mesma cama de um primo, e depois em dependências de aluguel das mais modestas. Sem luz, sem sanitários, sem aquecimento nos duros invernos. Só calçava suas botas, únicas, para jornadas mais longas. Entre suas ocupações estava a de conduzir a pequena vara de porcos à feira para vendê-los, ou, em outras palavras, foi tropeiro de porcos como tantos que conheci. É claro que jamais poderia imaginar que seria o único escritor de língua portuguesa a receber o Nobel. Nem poderia, porque em sua casa não havia material de leitura e ninguém cultivava esse costume. As raras leituras que fez no período marcaram fundo e jamais foram esquecidas. Ainda que repisando um velho lugar-comum, estas memórias são um romance.

O tratamento paterno foi duro, quase brutal, espécie de pedagogia da porrada semelhante à que vigorou por aqui. Também na escola a psicologia constituía coisa de somenos. Ele recorda como a mestra destronou o aluno mais aplicado em favor do próprio Saramago, sem explicação alguma, humilhando-o diante de todos os colegas. Em compensação, não há retoques ou concessões nos retratos que pintou do pai e de outros. Como resultado, criaram-se homens duros, mas, parece-me, tristonhos e talvez infelizes. A despeito de tudo, progredia nos estudos e quando cursava uma escola técnica já intuía que Hitler, Mussolini, Franco e Salazar eram farinha do mesmo saco ou “colheres do mesmo pau” (p. 130). Afinou em silêncio aquele brio que o impedia sempre de bater à porta de gente que o olhava de cima.

Foi assim, aos solavancos, tropicando pela estrada da vida, “esmagado sob uma montanha de impossíveis” (p.119), que o menino da aldeia de Azinhaga, no Ribatejo, banhada pelo rio Almonda, aprendeu a duras penas a escrever e despontou para a glória das letras usando a língua de Camões. Também esclarece, penso eu, a decisão estranha de viver em Lanzarote, pertencente à Espanha, e que deu margem aos monumentais “Cadernos.” Porque são raros os traços de saudosismo da terra natal.

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Tomei a liberdade de reproduzir esta crônica em homenagem a José Saramago, falecido em 18 de junho de 2010, aos 87 anos de idade, em Lanzarote. O fato consternou o mundo cultural e literário.
Foi o único escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Confesso que fiquei chocado com algumas manifestações contrárias a ele que encontrei na Internet. Em nome da fé, o mínimo que lhe desejavam eram as perenes chamas do inferno. O fato de discordar do pensamento único dominante não mereceu perdão. Como advertem os estudiosos das relações humanas, o ódio ideológico é o mais virulento de todos e não respeita nem mesmo as fronteiras da morte. A velha máxima dos romanos de que “mors omnia solvit” não tem mais validade.
(24/07/2010)





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