Ano 21 - Semana 1.067






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01 de março, 2018
Ensaios de Pedro Franco


 


Irene Serra

Quem vem antes, o ovo ou a galinha?
Pedro Franco comenta, em seu novo livro, Ensaios de Pedro Franco, que este ganhou vida após alguns de seus ensaios terem sido premiados pela União Brasileira de Escritores – RJ. Justo o contrário do que geralmente ocorre.
O autor nos apresenta seis ensaios entremeados de fotos, cartas, anotações e muito mais, a saber:

Em Machado de Assis, reminiscências e conto especial, ao destacar que Helena, Yayá Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Memorial de Aires são os romances que mais o tocaram, não podemos negar que Pedro Franco foi mesmo atingido pelo Machado, pois apenas quatro de seus romances não fazem parte da lista.
Amor, sempre o amor: aí está o soneto “À Carolina”, mostrando a sensibilidade deste ensaísta ao escolhê-lo, não apenas o nomeando, mas transcrevendo-o na íntegra, o que nos traz doce encantamento.
Ao abordar Machado de Assis no teatro, enfatiza suas comédias satíricas, não deixando de revelar o quanto se envolveu, pelo tanto que gosta de cultura. “...teatro é tudo!” conclui.
Sobre Machado de Assis cronista, mostra o interesse que este sentia pelo Rio de Janeiro, sua cidade natal. A propósito, a paisagem magnífica desta cidade atrai a todos desde sempre, e não há senão que a desmereça. A Rua do Ouvidor, ah! A Rua do Ouvidor não tem idade. Se nos idos 1800 e muitos, para Machado de Assis ela era o rosto da cidade, no século seguinte tantos também andaram por lá, incluindo Pedro Franco acompanhando sua mãe, e eu mesma tomando sorvete na Manon.
Abordando a verve contista de Machado de Assis, cita a “Missa do Galo”. É, ele escrevia mesmo nas entrelinhas, dialogando com o leitor. Convite do Diniz aceito, vamos à releitura minuciosa deste conto, não esquecendo de, em seguida, voltar aos dezesseis anos e ir às aventuras com os Três Mosqueteiros...

Traduções e tradutores, quem se arrisca à façanha? Pedro Franco aborda algumas desvirtuações de sentido por erros do tradutor que não domina o idioma original como o esperado, e os exemplos citados bem mostram o quanto conceitos podem ser alterados. No entanto, não deixa de enaltecer e homenagear os tradutores em sua difícil missão.
Sobre neologismos, sem pedir licença ao autor, badalhão passa a fazer parte do meu acervo linguístico. Como os temos! E primorosa é sua observação: “Se quem cria neologismos tem cultura, é bestial; se não a tem, é uma besta”.

Obra e vida de Manuel Antônio de Almeida traz mais um tema interessante: médico ou escritor? Muitos conseguiram desenvolver, e bem, as duas atividades e até mais alguma a que porventura estivessem aptos; então, não entendo – apesar de respeitar – por que o autor não se colocou na esmerada lista que selecionou. Qualidades não lhe faltam para tal, portanto, que a humildade não ultrapasse o mérito.
Ao escolher o Patrono da Associação Brasileira de Médicos Escritores para este ensaio, resume a vida deste carioca nascido no bairro da Gamboa e transcreve notas de outros grandes escritores, por ocasião de seu falecimento, aos 31 anos de idade.
Aborda Memórias de um Sargento de Milícias dando parecer em não prender Almeida a qualquer corrente literária, posto este ser eclético e não haver limites diante da naturalidade, espontaneidade e outras qualidades do referido homenageado; esmiúça características curiosas e reflexivas e vai além do livro, mostrando o quanto produziu de folhetins, traduções, poesias, crônicas etc.
Finaliza dando importante nota: a Academia Carioca de Letras votou os dez maiores escritores cariocas em julho de 2015, estando Manuel Antônio de Almeida entre os vencedores.

Dos feuilletons às novelas televisivas aborda conceitos que muitos insistem em criticar. Não raro ouvimos alguém dizer que não assiste a novelas nem minisséries, que estas nada acrescentam e é perda de tempo ficar em frente a um aparelho de tv para tal. Pois vem Pedro Franco e, sem preconceito, desmistifica o assunto ao se voltar ao tema “não vivemos apenas de futebol e carnaval”, mostrando que a novela brasileira alastra-se pelo mundo (fato inegável), com valor técnico e interpretações indiscutíveis, embora muitas deixem a desejar sob o aspecto sociocultural. Discorre sobre suas origens e diferenças e remonta à história dos folhetins, nos primórdios do século XIX, nos jornais franceses, acrescentando que nosso hábito de leitura foi impulsionado justo pelos folhetins – de autores nacionais ou estrangeiros – destacando Memórias de um Sargento de Milícia, de Manuel Antônio Lima.
Sobre minisséries, apesar do sucesso, há de se notar a impropriedade do horário em que são transmitidas; tardio demais para a maioria das pessoas.
Muito ainda há a falar sobre esse ensaio, fica, portanto, a sugestão de escreverem ao autor e lhe encomendarem o livro.

Alves & Cia e a ética na obra de Eça de Queiroz vem a ser o quinto ensaio selecionado por Pedro Franco, no qual o autor se fixa, inicialmente, no livro Alves & Cia, obra póstuma. Observando ser Eça intransigente com o Brasil e D. Pedro II, transcreve trecho de “Pedro da Mala” – tirado de crônica no periódico As Farpas, editado em parceria com Ramalho Ortigão –, em que nosso Imperador habitualmente carregava uma mala em suas viagens pela Europa, mas a mala... esta nada guardava, era uma insígnia, sinal de sua democracia, seu cetro de viagem.
Em suma, como observa Pedro Franco, a obra de Eça de Queiroz aborda com segurança a antiética, para chegar à ética; seus conceitos de moral e ética eram vivenciados por ele no dia a dia.
E narra o fato que o livro Alves & Cia chegou ao cinema brasileiro com o título de Amor & Cia, sob a direção de Helvécio Ratton, que tão bem soube preservar a ironia de Eça de Queiroz.

Ensaios de Pedro Franco termina com um magistral Artur da Távola ou Paulo Alberto Moretzshon Monteiro de Barros. Como começou a amizade entre eles? Isto está dito na crônica “O amigo com quem nunca estive pessoalmente”, publicada na seção CooJornal da Revista Rio Total de 01/11/2013, e que ensejou este ensaio.
Foi vasta e correspondência entre ambos, a maioria das cartas escritas do próprio punho. Pedro Franco chegou a marcar um jantar em sua casa para receber o amigo, mas este o desmarcou, pois teve de permanecer em Barbacena por alguns dias – coisas de político, pois à época era senador. Não houve outra oportunidade de um encontro real, mas a troca de correspondência permaneceu até a morte do homenageado.
Dentre uma seleção de pensamentos de Artur da Távola, elaborada pelo ensaísta, fico com o contundente “O que volta depois de ter passado é porque nunca deixou de existir”. Que beleza de sentimento! Dos dois: um pela escrita, outro pela escolha. E, sem temer a crítica inicial deste ensaio, verdadeira, em que há os que homenageiam e ao mesmo tempo se promovem, estufo o peito e digo de como me orgulho de ter sido amiga do Artur e continuar a sê-lo de Pedro Franco.






Direção e Editoria
IRENE SERRA
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