Ano 21 - Semana 1.075






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LIVROS 



 

 



16 de abril, 2018

“farquhar e lobato” e "Indiologia Militante"



 

Guilherme Queiroz de Macedo



Enéas Athanázio retoma a temática lobatiana em Farquhar e Lobato: uma parceria improvável

O opúsculo, de autoria de Enéas Athanázio, lançado nos 25 anos da Editora Minarete, marcam o retorno à temática lobatiana em livro, presente pela última vez na obra “As Antecipações de Lobato e outros escritos” (2002). O livro de Enéas, publicado no ano em que se completam os 70 anos do falecimento de Monteiro Lobato, também estabelece um divisor de águas, uma vez que todas as obras infantis e adultas de Lobato ficarão em domínio público, podendo serem publicadas livremente por qualquer editora. O aspecto mais interessante do livro é a revelação de que Lobato foi convidado, em 1942, por Farquhar, através de seu emissário Olivo Gomes, pai do futuro ministro da Indústria e Comércio do Governo Geisel, Severo Gomes, para escrever a biografia do investidor capitalista norte-americano. O próprio Lobato chegou a escrever um texto intitulado “Farquhar e o Brasil”, de 07 páginas, mas o projeto não foi adiante, devido à pesada censura da ditadura do Estado Novo de Vargas, principalmente em relação às obras lobatianas infantis e adultas. De acordo com o autor, a fonte citada pelo principal biógrafo de Farquhar, Charles Gaud, por enquanto, não pode ser localizada. E, então fica a dúvida, como o biógrafo norte-americano de Farquhar obteve a fonte, tendo inclusive citado trechos da mesma em sua biografia?

A obra de Enéas Athanázio, dedicada a todos os lobatianos do Brasil, divide-se me 03 artigos, que passaremos a abordar, expondo os comentários e impressões que leitura dos mesmos proporcionaram.

I – Farquhar e Lobato: uma parceria improvável

O autor aborda, no primeiro artigo, o capítulo extra da edição brasileira da biografia “Farquhar: o último Titã”, acerca da relação do investidor e aventureiro norte-americano com Monteiro Lobato, tendo sido objeto de curiosidade e comentários de Athanázio, do que considerou um autêntico ensaio. Em que pese a brevidade do capítulo, nele são enfocadas a posição de ambos em relação aos problemas do país na primeira metade do século XX, bem como a opinião que cada um fazia do outro, ainda que nunca tivessem se encontrado pessoalmente.

De um lado, Lobato, patriota e nacionalista, considerava que Farquhar “não passava de um perigoso aventureiro internacional”, que “pregava o entreguismo e encarnava o próprio imperialismo”. Nesta perspectiva, o autor de “O Escândalo do Petróleo e Ferro” temia a ação do americano, que costumava pagar, através de seus agentes e “testas de ferro”, polpudas propinas para obter as principais concessões de obras em território nacional.

Por outro lado, Farquhar encarava as campanhas de Lobato “com ceticismo e ironia, enxergando-as como combates a moinhos de vento por um homem que vivia no mundo da lua”, aliás um dos títulos de uma das obras de Monteiro Lobato. No entanto, o tempo mostraria que Lobato estava certo, com a descoberta do primeiro poço de petróleo na Bahia, coincidentemente numa localidade denominada de Lobato, além do êxito posterior da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, no Rio de Janeiro.

Athanázio fez referências às cartas de Monteiro Lobato a Getúlio Vargas, que levaram o autor de O Poço do Visconde à prisão, em 1941, durante três meses. De acordo com o autor, “para Lobato Farquhar não passava de um imperialista sinistro”, cujas ações tinham a finalidade de destruir o chamado plano de Monteiro Lobato e Fortunato Bulcão, associados a Antônio Augusto de Barros Penteado, de adoção do método de William Smith na produção de ferro gusa sem carvão (quase inexistente no Brasil) com o uso de sobras de babaçu e café imprestável para consumo. Tal processo era considerado revolucionário, por não exigir altas temperaturas. Aliás, Lobato considerava que “por trás de Farquhar estão todos os grupos estrangeiros interessados em manter o Brasil como colônia em termos de metalurgia”. A maior decepção de Lobato foi “ver o decantado Processo Smith ser considerado ineficaz e, por essa razão, abandonado”.

Embora o embate entre Farquhar e Lobato em torno da produção do ferro tenha sido constante e acirrado na primeira metade da década de 1930, Athanázio conclui que “nem Farquhar e nem Lobato foram vitoriosos”, pois a partir da segunda metade da década de 1930, Lobato “já estava apaixonado por outra causa – a do petróleo”.

II – Farquhar e Lobato: uma parceria improvável

O autor retoma, na segunda parte do artigo, “a luta desesperada de Lobato pelo ferro e petróleo no Brasil, o que consumiu dez anos de sua vida”, abordando as cartas enviadas ao então ministro da Agricultura Juarez Távora, um dos participantes dos movimentos tenentistas da década de 1920 e do movimento de 1930, promovido a ministro no Governo Vargas.

Nas cartas, mais uma vez Lobato denunciou “aliança de forças poderosas agindo contra os interesses do País”. Enéas salienta que uma das missivas se destaca dentre as demais, por um aspecto ainda pouco estudado por seus pesquisadores e estudiosos: “faz três anos que peço e tudo o que peço é que o Processo Smith seja estudado de modo sério e honesto”. E mais uma vez Lobato recebe o silêncio como resposta.

De acordo com Athanázio, Juarez Távora era a pessoa menos recomendada para Lobato enviar suas missivas, pois sempre foi favorável à exploração do petróleo por grupos nacionais ou estrangeiros, como escreveu em livro anos mais tarde, o que causou, na opinião de Enéas, a sua derrota nas eleições presidenciais de 1955.

Athanázio ressalta que, de acordo com o biógrafo de Farquhar, “tanto Lobato como Farquhar lutavam, cada qual a seu modo para criar no Brasil a mentalidade necessária para o estabelecimento da indústria do aço”. No entanto, predominava, naquela época, “a mentalidade e o entendimento generalizado de que a vocação do Brasil era sempre ser um país agrícola, voltado à produção agropecuária”.

No entanto, Athanázio enfatiza que, “Lobato não se fez de vencido”, partindo para a mobilização da população com as suas conferências do ferro e do petróleo, proferidas em diversas capitais e principais cidades do país e ainda pouco estudadas por seus pesquisadores e estudiosos, ao afirmar que “Lobato levou tais questões para a rua e implantou na cabeça das pessoas”. E destacou ainda que Lobato temia a ação de Farquhar nos bastidores políticos e empresariais, salientando que “é fácil imaginar a angústia de Lobato ao se sentir batalhando sozinho, tendo por si apenas a força da palavra contra pressões de tal magnitude”.

Athanázio destaca ainda que o biógrafo de Farquhar afirmou que tanto o biografado como Lobato “tentaram convencer a irritantemente indiferente oligarquia brasileira a sair de sua estéril mania de fazer politicagem e se voltar para o aumento da produção nacional”.

Enéas revela ainda que, “após de vinte anos vivendo no Brasil, Farquhar fazia observações cortantes a respeito do nosso país”, chegando o investidor e aventureiro norte-americano a afirmar que “jamais em sua vida de empreendedor mundial havia gasto tanto em propinas para conseguir que certos brasileiros o deixassem trabalhar”, mencionando a existência de “uma pequena elite nacional, que vivia de forma predatória sem qualquer preocupação cívica com o futuro do país”.

III – Farquhar e Lobato: uma parceria improvável

No terceiro artigo, Athanazio relata que em 1942 ocorre um fato inusitado e inesperado, que Monteiro Lobato “encarou com a maior surpresa”. Olivo Gomes, admirador e entusiasta de Percival Farquhar e pai do futuro Ministro da Indústria e do Comércio do Governo Geisel (1974 – 1979), Severo Gomes, procura Monteiro Lobato com o objetivo de “convidar o renomado escritor para escrever a biografia de Farquhar”.

De acordo com Enéas, o biógrafo de Farquhar afirmou que, “depois de quase uma década de intensa rivalidade com Farquhar, Lobato ficou intrigado”, salientando que Farquhar concordou em cooperar “após ler as sete páginas datilografadas do ensaio “Farquhar e o Brasil”, escritas por Lobato.

Ainda segundo Athanázio, “ser biografado por Lobato, o mais famoso escritor da época, um homem público sem cargos e herói civil da literatura (nas palavras do poeta, mineiro de Itabira, Carlos Drummond de Andrade), seria motivo de honra para Farquhar”.

Enéas destaca ainda que Monteiro Lobato considerava que “a luta contra Farquhar era de princípios e nada tinha de pessoal”. E ressalta ainda que os biógrafos mais categorizados de Lobato, como Edgard Cavalheiro e Alberto Conte e os demais “não fazem qualquer referência ao assunto”, bem como nem as Obras Completas de Monteiro Lobato não inseriam o texto mencionado e citado pelo biógrafo de Farquhar. O próprio Enéas afirma que “em minhas inúmeras leituras sobre Lobato jamais encontrei tais páginas ou qualquer referência a elas”.

Analisando a afirmação do biógrafo de Farquhar, de que o texto constava de uma lista de ensaios inéditos deixados por Lobato, Enéas afirmou que: “parece fora de dúvida que o ensaio foi feito, uma vez que o autor o comenta longamente e até transcreve alguns trechos, chegando Monteiro Lobato a afirmar em uma passagem que Farquhar era o herói econômico assim como havia dito anteriormente que Henry Ford era o herói do trabalho”.

No entanto, o projeto da biografia não foi adiante, uma vez que seria, de acordo com Athanázio, uma “parceria improvável”, sendo que o próprio autor utiliza-se desta expressão para denominar o subtítulo dos três artigos enfeixados no volume objeto desta resenha. Mais adiante, Enéas conclui que “o projeto não foi adiante”, pois ao que tudo indica, “ essa seria uma parceria improvável, se não impossível, porque acredito que se desentenderiam no primeiro encontro”.

Além disso, Athanázio destacou outro obstáculo que entra em cena: “antes que Lobato se lançasse ao trabalho, inclusive entrevistando Farquhar, foi procurado pelo emissário Olivo Gomes”, que informava “ter recebido um recado” do DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda do Governo Vargas, que o governo ditatorial do Estado Novo “não via com bons olhos a iniciativa”. Além disso, “Lobato estivera preso no ano anterior (1941) e era considerado pelo Governo Vargas adversário e subversivo”. No entanto, para Enéas, o verdadeiro motivo era que “no fundo temiam que Monteiro Lobato produzisse uma obra criticando a burocracia e a inércia nacionais e, além disso, fustigasse a tendência nazi-facista do Governo Vargas na 1ª fase da 2ª Guerra Mundial”.

No final do artigo, Athanázio recorda-se dos trens da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, que interligavam o sul do país: “seu famoso trem internacional blindado e luxuoso, trafegou desde a Argentina até São Paulo. Ainda conheci e até viajei nesse trem”. A propósito, Enéas relembra, em crônica intitulada “O Internacional”, publicada no Jornal Página 3 em 24 de julho de 2017, a trajetória e os tempos de glória da famosa linha de trem, que passava na região onde morou na mocidade.

O autor ainda destacou que, logo em seguida, “a figura de Farquhar ligou-se para sempre à história de Santa Catarina”, recordando que “em Três Barras e Calmon, ambas em Santa Catarina, montou grandes serrarias operadas pela Lumber, empresa apontada como uma das causadoras da Guerra do Contestado e cujas instalações em Calmon foram invadidas e queimadas pelos revoltosos”.

Athanázio conclui o seu artigo, relatando que as estatísticas apontam que foram serradas cerca de um bilhão de árvores da espécie de Pinheiro Araucária Angustifolia, “sugando toda sua riqueza sem deixar nada em troca”. Essa é a verdadeira face cruel e selvagem do capitalismo imperialista internacional que, no passado e no presente, sugam toda a riqueza de uma nação, não deixando “nem uma obra pública, um educandário, um hospital”. E lamentavelmente, de acordo com o autor, “até mesmo a estrada de ferro, causadora de tudo, está desativada”, sendo que a região do Contestado “amarga a triste condição de ser a mais pobre do estado” de Santa Catarina.

As obras "Indiologia Militante" e o opúsculo "Farquhar e Lobato: uma parceria improvável”, cujas capas, de autoria de Jean Pierre Vallin, são muito bonitas, guardam bastante relação entre si, ao abordar a região do Contestado, a atuação de Farquhar em Santa Catarina, os problemas enfrentados pelos povos indígenas na região da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande, construída no vale do Rio de Peixe em Santa Catarina. A leitura dos artigos e as minhas impressões de leitura me levaram a conhecer um pouco mais de Santa Catarina e do Brasil. São publicações atualíssimas para leitura, reflexão, discussão e debates, sobretudo nos tempos sombrios que estamos vivendo.

Parabenizo o autor pela publicação de ambas as obras, no ano em que a Editora Minarete completa 25 anos, pois os dois títulos são muito sugestivos, na qual retoma a temática indígena, já abordada em Mundo Índio (2003) e a temática lobatiana, reunida em livro pela última vez em As Antecipações de Lobato e outros escritos (2002), no ano em que também se completam 70 anos de seu falecimento e em que a publicação de suas obras poderá ser feita por qualquer editora, rompendo o monopólio da Globo, que tomou as edições da Brasiliense, fundada por Lobato, há alguns anos.

Enfim, a obra de Athanázio, trata-se de uma leitura de importância mais que oportuna, mas de interesse e reflexão permanente, sobretudo nos tempos atuais e sombrios que vivemos em nosso país, marcados pelo neoliberalismo e globalização selvagens, impostos pelas elites entreguistas associadas ao capitalismo imperialista, que não deixam de se empenhar o tempo todo em vender, a preços irrisórios, nossas reservas de pré-sal e de minério de ferro, desconsiderando o futuro das novas gerações de brasileiros, cujas condições de saúde, educação, habitação e saneamento são precárias e desumanas.

 

 

Comentários podem ser enviados ao autor no email gmacedo67@yahoo.com.br 









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