Ano 21 - Semana 1.075






ARQUIVO de
LIVROS 



 

 



1º de maio, 2018
O caso Neruda



 

Enéas Athanázio


É uma observação antiga a de que nós, latino-americanos, pouco nos conhecemos e temos as costas voltadas uns para os outros. Fenômeno semelhante ocorre na literatura. Excetuados os mais notórios, como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda e mais um punhado de escritores famosos, pouco conhecemos de outros autores e lemos suas obras. Por isso mesmo, foi uma agradável e aliciante surpresa a leitura de “O Caso Neruda”, de autoria do escritor chileno Roberto Ampuero, publicado pelo Benvirá (S. Paulo – 2011), que eu só conhecia de nome e de maneira muito vaga. Nascido em 1953, Ampuero é professor de redação e escrita criativa da Universidade de Iowa, tendo se radicado nos Estados Unidos, como exilado, para fugir das perseguições da ditadura de Augusto Pinochet. Segundo a crítica, é um dos mais festejados escritores das novas gerações chilenas e suas obras têm alcançado grande sucesso, embora raros sejam os comentários sobre elas na imprensa brasileira.

O livro é um romance policial, embora fugindo um pouco do gênero porque tem muito de biográfico e um fundo histórico. Já doente, o poeta Pablo Neruda se convence de que o jovem Cayetano Brulé poderia se transformar num detetive e investigar para ele uma questão cuja resposta procurava e que muito o angustiava. Licenciado do cargo de embaixador do Chile na França, o poeta se encontrava em sua casa de Valparaíso, – La Sebastiana, - onde convence o rapaz a realizar a busca, sugerindo-lhe a leitura das obras de Georges Simenon para aprender a ser detetive. Embora surpreso, o detetive improvisado aceita a incumbência e se lança numa busca frenética, correndo sem cansaço para obter a resposta enquanto o poeta ainda vivia. No desenrolar do relato vai aparecendo muito da tumultuada vida do poeta, desde a juventude, enquanto o enredo tem como pano de fundo o Chile de Salvador Allende, pouco antes do golpe militar que já se anunciava no horizonte. Começa, então, a corrida contra o tempo e a distância.

A missão do improvisado investigador consistia em encontrar um médico de sobrenome Bracamante, envolvido em pesquisas sobre ervas curativas, cuja esposa, Beatriz, era a única pessoa no mundo que poderia responder à angustiante indagação do poeta doente. E assim, confiando em frágeis indícios, apalpando, ouvindo e procurando, Brulé sai em busca da misteriosa mulher que, por mal da sorte, estava sempre trocando de nome e de país. No apagado rastro dela vai a Cuba, ao México, à Alemanha Oriental e à Bolívia até que, mais adivinhando que descobrindo (tal como Maigret), acaba por localizá-la em Santiago e, por vias curvas, obtém dela a confissão tão procurada. Mas era tarde. Nesse meio tempo se havia desencadeado o processo golpista e Allende foi morto, o que contribuiu de forma decisiva para apressar o falecimento de Neruda, chocado com tudo que acontecia no país. O Autor relata, com base em fatos reais, o impressionante sepultamento do poeta, com a multidão desafiando os golpistas e gritando seu nome, mesmo cercada pelas tropas, como se o poeta pudesse levantar do caixão e colocar em risco o regime implantado. As peripécias vividas pelo detetive para tentar chegar até o poeta numa cidade policiada ao extremo e com os atos de violência se repetindo em toda parte são impressionantes. As casas do poeta, tanto em Valparaíso como em Santiago e na Isla Negra foram invadidas e rebuscadas, provocando grandes danos às suas célebres coleções.

Mas tudo passa, os anos correm. Embora sofrido, mais maduro e experiente, Cayetano Brulé se transforma em famoso investigador. Nunca esqueceu, porém, de que fora uma criação de Neruda, por ele inventado como seus poemas e personagens. Cultivou para sempre a memória do poeta, Nobel de Literatura, e protagonizou outros romances do Autor, sempre com grande sucesso de crítica e de público.








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