Rio Total - Livros


Ano 21 - Semana 1.084






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01 de julho, 2018

As lutas, a glória e o martírio
de Santos Dumont




Enéas Athanázio

ISENTA E COMPLETA

É assim que a boa crítica tem considerado este trabalho biográfico de Fernando Jorge, aparecido agora em sua 5ª edição, revista e ampliada, nesse aprimoramento constante e incansável que o autor costuma imprimir às suas obras. Refiro-me ao livro “As lutas, a glória e o martírio de Santos Dumont” (Geração Editorial – S. Paulo – 2007), e que acabo de ler com intenso prazer. E de fato, a vida do inventor brasileiro, nascido em Cabangu (MG), foi sempre de uma atividade febril, como se ele estivesse tomado de inadiável urgência, e assim pontilhada de mil acontecimentos, cada um deles reconstituído pelo biógrafo à custa de pesquisas sistemáticas nas quais nada ficou de fora, desde a imensa bibliografia consultada e a busca em outras fontes, resultando num levantamento como acredito que não exista igual, ainda que Santos Dumont seja objeto de inúmeras outras obras do gênero. Como se isso não bastasse, em alentado apêndice, Fernando Jorge esmiúça e corrige incontáveis erros cometidos por outros autores sobre fatos da vida e da obra do aviador. Diante disso, a visão de conjunto, fornecida pelo livro, me parece única e dele o leitor sai munido das mais minuciosas e completas informações. É uma obra que faz justiça ao grande Santos Dumont (1873/1932).

Além de sua decisiva contribuição para a dirigibilidade dos balões e de ter sido o primeiro a voar no mais pesado que o ar, alçando vôo com seus próprios meios, sem as catapultas que fariam voar até uma locomotiva – como dizia o público – Santos Dumont se transformou num cidadão do mundo que fascinava as pessoas. Creio que nenhum brasileiro, com a possível exceção de Rui Barbosa, conquistou tantos admiradores no Brasil, sem falar em outros países, em especial a França, em cujos céus realizou suas arrojadas experiências. Admirado e imitado em tudo, desde a elegância personalíssima, até nos gestos e costumes. Seu estranho chapéu desabado, os cabelos repartidos ao meio, os colarinhos duplos e engomados, as calças curtas e com barras arregaçadas, tudo era objeto de imitação e nesse sentido o autor colheu depoimentos interessantes. Para completar, ele estimulava o orgulho nacional, uma vez que “fizera a Europa se curvar diante do Brasil” como nenhum outro. Misto de cavalheiro e arrojado aventureiro, de coragem invulgar, tudo nele contribuía para fascinar as pessoas, em especial a juventude. Ao contrário do que se pensa, sabia admirar as mulheres e se nunca se casou foi para se sentir livre e desimpedido nas mais arriscadas empreitadas. Entre seus objetos foi encontrada a foto da mulher que teria amado em segredo.

Tendo recebido os mais importantes prêmios e as maiores honrarias a que um brasileiro pudesse aspirar, Santos Dumont manteve sempre os pés no chão e chegam a ser comoventes as pequenas providências que tomava na conservação de seus bens, em especial da casa onde havia nascido, na Serra da Mantiqueira, e de sua última morada, em Petrópolis, hoje transformada em museu. Rico de família, filho do maior produtor de café do país, jamais necessitou se preocupar com as coisas prosaicas da subsistência e realizava suas experiências à própria custa. Mas nem por isso esquecia de seus ajudantes, mecânicos, empregados, parentes e pessoas pobres, a quem costumava destinar generosas doações.

Foi sempre um pacifista confesso e desejava que o avião servisse à paz e ao conforto dos homens, aproximando-os. Mas a utilização de seu invento como arma mortal e destruidora de vidas inocentes abalou a fundo seus nervos, levando-o ao fim trágico que a vida, paradoxalmente, lhe reservou. Suas obras e seus inventos, porém, permaneceram como bens pertencentes à humanidade e sua figura se destaca na história do homem, às vezes injusta mas também pontilhada de momentos luminosos como esta biografia de Fernando Jorge.







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