Rio Total - Livros


Ano 21 - Semana 1.085






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16 de julho, 2018

o mundo que eu vi




Enéas Athanázio

Ando relendo com prazer as memórias do escritor austríaco Stefan Zweig (1881/1942), figura ligada ao nosso país, autor do célebre livro “Brasil, país do futuro”, como também por ter residido em Petrópolis, onde faleceu e foi sepultado. “O mundo que eu vi” (Editora Record – 1999 - Tradução de Lya Luft) é a obra de um homem cosmopolita, perseguido pelos nazistas, que vai fugindo pela Europa, de país em país, até que vem parar no Brasil do Estado Novo, onde põe fim à vida em companhia da esposa. Escritor dos mais populares e traduzidos em todo o mundo, colecionador de autógrafos e preciosidades literárias, foi aos poucos forçado a tudo abandonar para sobreviver à implacável caça aos judeus promovida pela monstruosa “solução final.” Logo na introdução ele se revela um ser que perdeu as raízes, sem um chão onde pisar, sem ter para onde retornar e que se viu obrigado a abandonar tudo que lhe era caro. Por mais andarilho que seja alguém, há de ter um recanto que seja seu lar, sua casa, seu ponto de apoio, onde desfaz as malas, relaxa as tensões e põe as ideias no lugar. Para ele, no entanto, tudo isso foi negado. Seus magníficos livros, suas músicas preferidas, a extraordinária coleção de preciosidades que juntou ao longo da vida, tudo se perdeu, se espalhou, se dissolveu, foi parar em mãos desconhecidas.

Em linguagem nostálgica, ele começa por recordar a infância e a juventude na Viena do esplendor cultural, da música clássica, do grande teatro e da esmerada literatura. Um mundo sereno, organizado, onde tudo parecia seguro e sólido, erigido em pedra e cal. Um reino com classes sociais definidas, oportunidades para todos, onde os judeus viviam em paz, livres de preconceitos e perseguições, isentos de qualquer temor do futuro e sem imaginar o que aconteceria com a ascensão de Hitler na Alemanha. Entregue às atividades escolares e à dominante inclinação literária, frequenta os rigorosos colégios da época, com seus professores duros e distantes, dentre os quais nenhum lhe deixa marcas. São anos tristes e monótonos, repletos de obrigações e normas, e deles não guardará saudades. Para compensar, vem o doutorado em Filosofia em Berlim, quando têm início suas intensas andanças pela Europa. É a fase dos deslumbramentos, das grandes descobertas, das intensas leituras e do conhecimento de expoentes do mundo cultural.

Entre as múltiplas personalidades com que cruza, algumas o impressionam de forma profunda e jamais serão esquecidas. Hugo von Hoffmannsthal é a primeira delas. Ainda garoto, algo desajeitado, com as calças muito curtas e a voz infantil, seu gênio a todos fascina. “Além de Keats e Rimbaud, - escreveu Zweig – não conheço nenhum exemplo de semelhante infalibilidade no domínio da língua, nem tamanha vivacidade, nem essa impregnação de substância poética até na frase mais casual como nesse gênio grandioso que já aos 16 ou 17anos se inscreveu nos anais eternos da língua alemã com seus versos inapagáveis e sua insuperável prosa” (pp. 67/68). Apesar de todo seu entusiasmo, porém, o grande poeta anda relegado a triste esquecimento. Outra figura que o marcou e cujas mãos o introduziram na grande imprensa cultural foi Theodor Herzl, o iniciador do sionismo. Era o redator do caderno cultural do maior jornal da cidade e o jovem Zweig, inchando-se de coragem, vai procurá-lo na redação. E recorda: “Foi o primeiro homem de importância histórica mundial que encontrei – sem saber que monumental mudança no destino do povo judeu e na história de nosso tempo ele seria convocado a criar” (p. 129). O redator não apenas recebeu com simpatia o escritor imberbe, como publicou seu trabalho e se tornou amigo pelo resto da vida. Quanto à importância de Herzl, seu movimento e consequências, são fatos da história contemporânea. Duas outras figuras, ambas de aceitação mundial, o marcaram a fundo: Emile Verhaeren e Rainer Maria Rilke. Tornou-se tradutor da obra do primeiro para o alemão; ao segundo dedicou páginas e páginas de genuína admiração. Ligou-se aos dois por uma amizade permanente. Segundo afirma, Rilke foi nômade. Não tinha casa, nem endereço, nem moradia fixa, nem emprego, estava sempre a caminho e nem ele próprio sabia para onde iria (p. 176). Não cessa aí, porém, o grande desfile e numerosos vultos poderiam se acrescentados.

Mas sobreveio a guerra, a mortandade, o ódio racial, a perseguição sem trégua. O mundo, antes percorrido com interesse, se tornou pequeno e só restava a fuga para o Brasil, em busca da segurança no país do futuro. A depressão insuportável, porém, o acompanhou e o fim trágico aconteceu – a morte no paraíso, como escreveu seu biógrafo Alberto Dines.
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Outras fontes:
“Brasil, país do futuro”, Stefan Zweig, Nova Fronteira, Rio, 1981;
“Morte no paraíso” (biografia), Alberto Dines, Nova Fronteira, Rio, 1981;
“Stefan Zweig” (biografia), Donald Prater, Paz e Terra, S, Paulo, 1991.
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