Ano 21 - Semana 1.093






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16 de setembro, 2018

O Regresso
A última viagem de Rimbaud




Poucos poetas fascinaram tantas pessoas, em especial os jovens, quanto Jean Nicolas Arthur Rimbaud (1854/1891). Nascido em Charleville, nas Ardenas, produziu o melhor de sua obra em plena juventude e depois, numa atitude singular, nunca bem explicada, abandonou a poesia para sempre. Quando indagado a respeito, respondia de maneira seca e formal: Não me ocupomais disso! Essa afirmação categórica entrou nos anais literários como “O Silêncio de Rimbaud”. Entregou-se desde cedo a uma deambulação constante, percorrendo enormes distâncias em trens, barcos, a cavalo e mesmo a pé por vários países europeus. Era um permanente chegar e partir da cidade natal, afrontando as iras da mãe, que só via no filho um vadio e inútil, incapaz deperceber o valor e a importância de uma poesia que influenciou poetas de todo o mundo e ditou novos rumos à poética universal.

Andou em Paris, onde teve um “affaire” com o poeta Paul Verlaine, que culminou em desavença e tiros, tendo este ferido Rimbaud, o que lhe valeu uma temporada na prisão. Foi a Londres e Berlim. Não satisfeito, enveredou pelo Oriente Médio. Esteve em Aden e Harrar, entregando-se a negócios variados. Comerciou com peles, café e até armas, havendo murmúrios de que chegou a traficar escravos, fato desmentido por seus biógrafos e pesquisadores. Viveu em concubinato com uma mulher etíope, negra, que ele descreveu como sendo de rara beleza. Fez muitas relações e conquistou amigos, embora fosse, por natureza, um solitário ensimesmado e um tanto carrancudo. Foi o primeiro europeu a pisar o solo de lugares sagrados do Oriente Médio, onde só poderiam entrar os fiéis. Tornou-se conhecido entre os árabes como Rambô.

A vida transcorria numa agradável sequência de aventuras. Cavalgadas pelo deserto, pechinchas com os beduínos, contatos com os figurões e políticos tribais, intercâmbio com outras cidades, liberdade infinita. Mas o destino tecia sua trama e uma dor na perna começa a incomodar e vai num crescendo. Incha, aumenta, lateja. É diagnosticado um tumor e os tratamentos se sucedem. Vai a Marselha em busca de recursos, mas a doença se agrava e não há outro recurso senão a terrível amputação. Uma ironia da sorte que um andarilho por vocação se veja na situação de perder um dos membros inferiores. Mas é a triste e dura realidade.

Repetem-se idas e vindas entre a casa materna e o hospital. Luta de maneira denodada para se acostumar com as muletas e a perna de pau, envernizada. As dores, porém, reiniciam e o tumor reaparece, alastrando-se pelo corpo, implacável, incurável. Tem início um rosário de sofrimentos, remédios, terapias, massagens, choques elétricos. O apetite desaparece, não consegue se alimentar e nem sequer se mover. É uma agonia prolongada até o derradeiro dia, sempre assistido pela incansável e devotada irmã Isabelle. A mãe, impermeável, quase não o visita. E assim, depois de infindáveis sofrimentos, falece aos 31 anos de idade um dos maiores poetas da extraordinária literatura francesa.

A irmã abnegada trata dos trâmites para trasladar o corpo a Charleville, cidade natal. Surgem exigências sanitárias. É colocado num caixão revestido de chumbo e recoberto com uma camada de carvão. Embarcado no trem e depois numa carroça, é conduzido ao cemitério de sua cidade. Como únicas acompanhantes, a mãe e a irmã, num dia frio e nublado, sombrio e triste. Assim termina a última viagem de Arthur Rimnaud.

Esses fatos e muito mais podem ser lidos no livro “O Regresso – A última viagem de Rimbaud”, de autoria de Lúcia Bettencourt, publicado pela Editora Rocco (Rio de Janeiro – 2015). Com grande elegância e maestria a autora retrata os momentos cruciais da vida conturbada do grande poeta. Vale a pena.







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IRENE SERRA
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