02/12/2011
Ano 15 - Número 764

Livros

LIBIDO AOS PEDAÇOS

- CARLOS TRIGUEIRO -







LIBIDO AOS PEDAÇOS

Autor: Carlos Trigueiro

ISBN: 978-85-01- 09428-5
Gênero: Romance
Páginas:224
Formato: 14 x 21cm
Editora: Record
Preço: R$ 37,90








SINOPSE DO LIVRO
(Editora Record)

Libido as Pedaços - Romance fragmentado sobre traições e cunhadas.

       Libido aos pedaços de Carlos Trigueiro reúne, em tom forte e envolvente, a paixão, o ciúme e a mentira como ingredientes devastadores da consciência. “Este romance maturou doze anos, teve vários títulos e construções, e também consumiu pelo menos oito anos de trabalho em várias versões escritas, reestruturadas e reescritas”, explica o autor, que inicia o livro com a epígrafe de Nelson Rodrigues “Quem nunca amou a cunhada não sabe o que é o amor”. O fetiche da cultura universal serve de fio condutor para o romance.

       Em Libido aos pedaços, a obsessão pelas cunhadas aparece em resumos da mitologia grecoromana, em citações milenares da Bíblia, e em fatos históricos envolvendo a cultura russa, francesa, austríaca, ou lembrando aspectos da cultura chinesa e árabe. “O personagem Otávio diz claramente que até mesmo Sigmund Freud teve uma cunhada extraordinária: Minna Bernays. Secretária e, tão dedicada, que nunca se casou só para acompanhá-lo em viagens de pesquisa, lazer, férias”.

      Ao mutilar a alma, dilacerar seus sentimentos e entregá-los em confissão literária, Otávio descreve seu prontuário sentimental. E mostra que trair e amar, muitas vezes, andam juntos, seja qual for o objeto da paixão, em qualquer circunstância. Podem estar nas coisas grandes... mas também nos pedaços.


ORELHA DO LIVRO
W. J. SOLHA

Crítico, Escritor e Cineasta

       Carlos Trigueiro é um grande contador de histórias, sejam longas — como a do Livro dos desmandamentos —, ou curtas, como as dos contos em O Clube dos feios, O Livro dos ciúmes e Confissões de um anjo da guarda. Neste romance, LIBIDO AOS PEDAÇOS, o autor desnuda o envolvimento do personagem Otávio Nunes Garcia com a própria psicanalista, Dra. Larissa Pontes, irmã de sua mulher. Aí, duas possibilidades. Primeira: o leitor desfruta, sem contestar, de uma narrativa instigante mas verossímil, que isso de se apaixonar pela cunhada é proverbial (diria Nelson Rodrigues). Ou Roosevelt não teria adorado sua cunhada, tão horrorosa quanto a esposa: João Batista não teria sido decapitado por alardear o incesto de Herodes com a cunhada Herodíades: Freud não teria sobre ele a suspeita de ter tido alguma coisa com a cunhadinha Minna Bernays: o tio de Hamlet não teria assassinado o irmão para ficar com Gertrude e o trono, enfurecendo o príncipe da Dinamarca.

       Segunda possibilidade: o leitor se envolve numa bela urdidura novelesca e compartilha das diferentes visões dos personagens (e cunhados) sobre o seu espúrio caso amoroso. Enfim, o autor nos leva às brumas do mundo psicológico, onde tudo depende de como se veem as coisas e os fatos. O personagem Otávio nos dá uma pista disso quando diz "A vida é sonho...", título da obra de Calderón de La Barca. Clássicos da literatura e do cinema têm explorado esse terreno entre realidade e sonho: A Tempestade de Shakespeare, Enquanto vou morrendo, de Faulkner, O homem que matou o facínora, de John Ford, Rashomon, de Kurosawa, e inúmeras outras obras até chegar à recente trilogia Matrix, dos Wachowskis, e Sob o domínio do mal de Jonathan Demme. Intertextualidade? Não. A coisa está no ar, e Trigueiro fica na moita, sem se meter em erudições, expondo uma situação perigosa e angustiante, mesmo sem parecer que o é, e nisso está seu maior trunfo. Ou melhor: ele deixa - sem interferir em nenhum momento - o personagem Otávio Nunes Garcia esmiuçar sua relação com a bela e culta cunhada, até que as circunstâncias sobrepõem uma visão distinta e inesperada do envolvimento dos dois.


COMENTÁRIO DO COOJORNAL
Luiz Carlos Guedes

Diretor de redação

"Libido aos pedaços", do escritor Carlos Trigueiro - editora Record, é um romance que tem tudo para constar da lista dos mais vendidos.
Independentemente de seu assunto e de suas "verdades"- uma trama profunda sobre triângulos amorosos e traições - o romance, diferente de outras formas narrativas, reproduz o mundo real e acontecimentos plausíveis. E é justamente este contexto narrativo com primorosa técnica de fluidez e conexão dos fatos e diálogos que leva o leitor a se identificar em um ou em vários momentos com sua própria vida cotidiana, fazer paralelos para entender determinadas situações vividas por si ou pessoas de suas relações e refletir sobre as idéias, pensamentos e frases expressas pelos personagens para entender o mundo moderno.
Carlos Trigueiro, em "Libido aos Pedaços", consegue o que acho mais importante em um romance: levar o leitor a se identificar com o autor.


ENTREVISTA CONCEDIDA À JORNALISTA PAULA JOHAS

Paula Johas (PJ): O que o motivou a escrever este seu 11º livro?

Carlos Trigueiro (CT): Na verdade é o sétimo livro publicado. Tenho ainda um volume inédito, e três em preparação: “Liberdades da Memória”, “Ajuste de Contos” e o fecho da Trilogia da Confissão onde “Libido aos Pedaços” é o livro do meio. O título do último livro dessa Trilogia ainda não pode ser revelado. “Outras obras do autor” mencionadas em página que antecede a história de “Libido aos Pedaços” são excertos e adaptações do Romance “O Livro dos Desmandamentos”, um ensaio sobre o “Jeito” brasileiro e traduções adaptadas de contos do livro “O Clube dos Feios” para revistas acadêmicas e literárias dos EUA, Itália e Argentina.
Quanto à motivação, bem, surgiu em 1999, logo após publicar os doze contos em “O Livro dos Ciúmes”, pois senti que poderia reunir numa única história, em tom forte e envolvente, a paixão, o ciúme e a mentira como ingredientes devastadores da consciência.

PJ: Poderíamos considerá-lo, como diria o personagem Otávio, um “prontuário sentimental”?

CT: Quanto a isso, acho que o personagem Otávio dá a dica do conteúdo do livro quando diz que “todo mundo tem o seu “prontuário sentimental” camuflado, enrustido ou sepultado, e quando arremata: “são aqueles sentimentos inconfessáveis que se bem ou mal vividos nem Deus saberá”.

PJ: O livro se inicia com a epígrafe de Nelson Rodrigues “Quem nunca amou a cunhada não sabe o que é o amor”. A cunhada é um fetiche brasileiro?

CT: De jeito nenhum. Esse fetiche é da cultura universal em todos os tempos. Em “Libido aos Pedaços” essa característica aparece em diversas citações milenares da Bíblia, em resumos da mitologia Greco-Romana, e em trechos citando fatos históricos envolvendo personagens da cultura russa, francesa, austríaca, ou lembrando aspectos da cultura chinesa ou árabe. Aliás, o personagem Otávio, o narrador confessional, diz claramente num dos “Pedaços” do livro que até mesmo o pai da Psicanálise, Sigmund Freud, teve uma cunhada extraordinária em sua vida: Minna Bernays. Ela era sua secretária e, “tão dedicada, que nunca se casou só para acompanhá-lo em viagens de pesquisa, lazer, férias, disso, daquilo e sei lá mais o quê”. E arremata com acidez: “Se Freud não explicou isso, Otávio... reverbera que o eu de todo mundo tem seu duplo vagabundo”.

PJ: As frases tiradas do suposto livro da personagem Larissa são um verdadeiro manual sobre a sedução e a infidelidade. De onde elas vêm, na verdade?

CT: Seria pretensioso dizer que as frases extraídas do “Best-Seller” da personagem doutora Larissa provêm somente de pesquisas, observações e experiências proporcionadas por sua condição de Psicanalista. A rigor, as frases são provenientes de muitas fontes não só de cunho sociológico, filosófico e psicológico, mas também da índole observadora da “narradora e do narrador” de “Libido aos Pedaços”. Não foi à toa nem sem apurada observação que o genial Nelson Rodrigues desnudou em textos jornalísticos, sob o título “A vida como ela é.” tantos segredos hipócritas da condição humana.

PJ: Você costura os episódios com observações bem-humoradas sobre o cotidiano. Podemos perceber uma veia de cronista também neste seu livro, concorda?

CT: Provavelmente e sem nenhuma presunção. De fato, há uma influência dual nesse aspecto: a índole auto-observadora com poucos filtros e a curiosidade para a observação, com lentes de aumento, do entorno social e psicológico. Essa conjugação, acho, talvez tenha acentuado o espírito crítico do escritor, ainda mais pelo fato de ter acumulado experiências de muitos anos vivendo em várias regiões do Brasil e em outros países de culturas completamente distintas. Na China, por exemplo, nos cortejos fúnebres vi que a cor do luto era o branco, e nas inaugurações de empreendimentos o barulho dos rojões servia para espantar os maus espíritos, enquanto largar um peixe vivo entre as pessoas no decorrer dessas solenidades trazia boa sorte. Acho ainda que a crítica bem-humorada e mesmo a ironia são frutos dessa índole observadora e comparativa. Gosto muito de lembrar o notável escritor argentino, Ernesto Sábato, que dizia “os escritores são as testemunhas de uma época”. Então, acho que a veia de cronista está mesmo presente em “Libido aos Pedaços”, afinal de contas todo cronista testemunha com lentes de aumento a sua época, seja o lado bom seja o lado ruim, mas tem desprendimento e coragem para assinar embaixo.

PJ: Por que são chamados de “pedaços! As partes deste livro?

CT: Bem, ainda aqui, devo parodiar Ernesto Sábato quando diz que os escritores são mártires de uma época e escrevem com dilaceramento. O narrador de “Libido aos Pedaços”, o personagem Otávio, descreve o seu “prontuário sentimental” com esse dilaceramento, ou seja, mutilando a alma, daí os capítulos ou partes do livro serem “Pedaços”. O resto é com a imaginação do leitor.

PJ: Com as sessões de psicanálise com o Dr. Guilherme você apresenta ao leitor uma outra leitura do personagem principal?

CT: De fato, à medida que o tempo vai passando, e essa marcação do tempo é explícita na construção da história, o personagem (paciente) Otávio começa também a tentar analisar o alienista numa disputa de Egos, de conhecimento histórico e cultural. Há também ainda outros ingredientes psicológicos infiltrados nas sessões de Psicanálise com o Dr. Guilherme que, aparentemente, desfiguram o personagem principal, ao menos como ele se via inicialmente, nos primeiros “Pedaços” do seu “prontuário sentimental”. Porém, a intenção maior do autor é levar essa interpretação para os parâmetros do leitor, um observador neutro, ou seja, que supostamente, ainda não tomou o partido do analista nem o do analisado. Melhor dirão os leitores.

PJ: O livro acaba também um pequeno tratado histórico sobre a infidelidade em família. Você teve que pesquisar muito sobre o tema?

CT: Esse tipo de infidelidade está presente em todas as culturas. De fato, pesquisei bastante, histórica e culturalmente. Tanto assim que o “Pedaço” final do livro parece mesmo um mini-tratado, mas o narrador não faz segredo disso, ao contrário, reverbera seus achados e, além do mais, tem seus motivos pessoais, éticos e profissionais para isso. Claro que tudo no contexto da insólita história.

PJ: Ao final do livro, temos a mudança de narrador e surpreendentes revelações sobre o protagonista. É quando percebemos o quanto Otávio sempre foi, na verdade, um “extraordinário farsante” como definiu Larissa. O que você diria, para finalizar, sobre este extraordinário personagem?

CT: O personagem desenvolve ou incorpora periodicamente múltiplos “eus”, e vive um largo espectro de situações intimistas que o segregam propositadamente ou não da realidade recorrendo inclusive ao alcoolismo. Descobrir até onde vai a sua sanidade ou a sua integridade como personalidade é o grande desafio de “Libido aos Pedaços” que, enfim, pode ser catártico de alguma forma tanto para o leitor real (ou leitores fictícios, pois isso faz parte da história) quanto para o narrador, ou melhor, para os narradores. Porém, ainda aqui, melhor dirão os leitores que se aventurarem a juntar os “Pedaços” do livro.


Sobre o Autor:

Carlos Trigueiro é amazonense, nasceu em 1943, passou infância e juventude em Manaus (AM), Fortaleza (CE) e Rio de Janeiro (RJ). Entre 1980 e 1996 viveu na Espanha, Itália, China e EUA experiências influentes no seu cosmopolitismo literário. Libido aos Pedaços é o segundo volume da sua Trilogia da Confissão, iniciada em 2008 com Confissões de um anjo da guarda.
Publicou artigos, memórias e ficção. As revistas literárias L’Immaginazione (Itália, 1995), The Americas Review (EUA, 1996), Metamorphoses (EUA, 2008) publicaram contos do autor. A Taller de Letras (Chile, 1997) publicou um ensaio sobre os seus contos. As revistas acadêmicas Romance Notes (EUA, 2009) e DeSignis (Buenos Aires, 2009) publicaram ensaio do autor sobre o "Jeito" brasileiro. Participou da Antologia Poetar Contemporâneo (2011, Portugal).
Recebeu o Prêmio Malba Tahan (1999), categoria contos, da Academia Carioca de Letras/União Brasileira de Escritores para O Livro dos ciúmes (Editora Record), bem como o Prêmio Adonias Filho (2006), categoria romance, para O Livro dos desmandamentos (Editora Bertrand Brasil).