01/04/2017
Ano 20 - Número 1.023



Venha nos
visitar no Facebook

 

LIZZIANE AZEVEDO
ARQUIVO

 

Seja um
"Amigo da Cultura"





 

Lizziane Negromonte Azevedo




A miséria que me veste

Lizziane Azevedo - CooJornal

 


Os gritos da menina chamavam a atenção. A avenida estava quase deserta. Ela deveria ter uns dez anos. Vestia um short curto com um top que lhe marcava os seios recém brotados. Tinha uma bolsa velha pendurada no braço. Ela chorava. O agressor tinha um bigode acaju e um cigarro trêmulo que lhe adornavam a boca de finos lábios. Ele xingava e batia em quem descobri, no meio do alarido, chamar-se de Vânia. Sem dó nem piedade, ele deu-lhe um pontapé que a fez gritar ainda mais alto. Os poucos motoristas que passavam no local olhavam perplexos para a cena. Mas, logo o sinal de trânsito abria, eles sumiam. Eu não estava nem tão longe nem tão perto da confusão, mas, como a gritaria era alta, dava pra ouvir o que se passava. Uma idosa, com os olhos pintados de lápis preto e com uma boca rubra, chegou derramando todo tipo de palavrão contra o cara. Ela parecia uma versão madura e decadente da criança que apanhava. “Pare com isso, seu velhaco!” “Quem lhe deu ordem pra fazer essa merda, porra!” Senti-me aliviado, alguém havia chegado para defender a vítima; devia ser a mãe ou alguma outra parenta. A valentia do bigodinho havia murchado. Calado, ele ouvia a repreensão, mas sem abrir mão do ódio que lhe lustrava o rosto obtuso. Quando a mulher parou de falar, o homem deu-lhe as costas e foi embora. Vânia, acuada num canto, secava as lágrimas. Eu já havia guardado o celular no bolso da calça, havia-o tirado dali para chamar a polícia. Aquilo era um crime! Um absurdo! Pude ver a idosa afagar o rosto daquela criatura assustada. Falou-lhe palavras quase inaudíveis e levantou-a do chão. A menina se pôs de pé sem alegria, sem esboçar reação. Mecânica, pegou um espelhinho da bolsa e retocou o batom. A idosa observava tudo com atenção e recomendou-lhe: “Cuidado da próxima vez, heim!” “Não quero mais confusão, quero lucro nessa merda!” “Bora pra luta!” Eu ouvi atônito aquela última frase. Vi-as partir uma após outra. Era noite. Cada uma seguiu para seu programa.


- Comentários sobre o texto podem ser enviados, diretamente, a Lizziane Negromonte Azevedo

(1º de abril/2017)
CooJornal nº 1.023


Lizziane Negromonte Azevedo é escritora,
advogada especialista em Direito Tributário,
graduanda do curso de Letras Português pela UFPB.
Paraíba



Direitos Reservados
É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor.